Festa, baba e feira: moradores do Bonfim, Lobato e Liberdade quebram isolamento

As barracas da Feira do Japão, no bairro da Liberdade, formam um estreito corredor no beco que abriga o mercado a céu aberto. No local, não há como escapar da aglomeração, o que acende o alerta em meio a pandemia do novo coronavírus. A partir da próxima quarta-feira (20), as bancas deverão parar de funcionar, bem como qualquer estabelecimento de comércio não essencial do bairro, do Bonfim e do Lobato –  as três novas localidades a receberem medidas mais restritivas do isolamento social por parte da prefeitura.

Os moradores das três regiões veem as restrições com bons olhos já que nem todos os vizinhos entendem a importância do isolamento social na luta contra o coronavírus. Na tarde desta segunda (18), o baba que acontecia em uma quadra do Bonfim delatava a despreocupação com a doença. As festas no Lobato e na Liberdade também apontam para o descaso com prevenção à covid-19. Segundo boletim da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), até a última sexta-feira (15), o Bonfim registrou 46 casos confirmados da doença. Já a Liberdade tinha 38 infectados e o Lobato 29 pacientes doentes. 

“Espero que as novas medidas consigam fazer com que as pessoas tenham mais consciência de que é necessário se isolar. Muita gente tá brincando com a saúde e não acredita no vírus”, disse o Carlos Augusto Oliveira, 65, presidente da Associação dos Dirigentes Empresariais da Liberdade (Adiel) e dono da loja Caron Modas.

Na tarde desta segunda, a multidão que circulava pela região da Feira do Japão misturava pessoas com máscara e aqueles sem qualquer tipo de proteção. “A situação no bairro é preocupante porque a gente que é feirante se protege, mas uns clientes saem sem máscara. O certo seria todo mundo usar”, disse a Nanda Santos, 26, que vende frutas no mercado a céu aberto.

A união da falta de preocupação com a proteção e os furos da quarentena para beber à noite fazem com que o fechamento de todo comércio não essencial da Liberdade seja necessário para conter a disseminação do vírus no bairro, analisa o rodoviário Fagner Santos, 32, que sempre vê os vizinhos bebendo quando sai para trabalhar de noite.

“Muita gente fica na rua bebendo e passeando. Muita gente também só sai de máscara porque tem que ir em um lugar que obriga o uso do item, mas aí só usa nesse lugar e depois tira na rua”, relatou Fagner.

Um dos pontos turísticos de Salvador, a Igreja do Bonfim não tinha visitantes nesta segunda. O gradil colorido pelas fitinhas do Senhor do Bonfim estava fechado. Perto da igreja, os bares da Avenida Beira Mar também fecharam. Uma baba era responsável por grande parte do movimento na região na tarde desta segunda. A atividade dos jovens incomoda os vizinhos, que reconhecem o perigo da aglomeração. “No final de semana, o pessoal fica mais na rua. O movimento de pessoas tá pequeno, mas, às vezes, os gaiatos ficam jogando bola na quadra e também frescobol na praia. Há 15 dias, fez sol e a praia tava um formigueiro de gente”, contou a moradora Adriana silva santos, 39, que trabalha na mercearia caixa prego, localizada na orla do bairro.

Para os residentes da localidade, a maior parte dos adultos do Bonfim respeitam as determinações de proteção contra o coronavírus. Já os adolescentes são maioria entre aqueles que ficam passeando nas ruas. “São mais os adolescentes que ficam sem máscara. Nem todo mundo obedece, mas a maioria usa máscara. Grande parte das pessoas vem na rua fazer compras”, disse Márcia gramosa, 47, que é dona da mercearia  Caixa Prego.

De acordo com Adriana, um depósito de bebidas do Bonfim foi interditado no último domingo (17) por estar funcionando como bar para os moradores da região.

Mesmo com a redução do movimento nas ruas, Ivo Cairo, 24, aprova as medidas mais duras na região devido ao número de casos dentre os vizinhos.

Jovens jogam futebol em quadra no Bonfim, sem nenhuma proteção (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Paredão

No Lobato, são as festas do bairro que preocupam os moradores. Neste final de semana, a vizinhança da vendedora ambulante Luciene Bonfim, 42, foi um dos points do reg no local. “Na minha rua, uma família fez uma festa com cerca de 15 pessoas na porta de casa. O pior é que se for falar que tá errado, a pessoa fica agressiva”, disse.

As madrugadas também são de aglomeração nas praças e becos do Lobato. Na área verde que fica próxima à Cesta do Povo, o movimento começa por volta das 21h, conta Edmilson de oliveira, 57. “O pessoal senta na praça pra ficar bebendo, ai tem som alto e até paredão no final de semana. As pessoas tiram as máscaras para beber”, disse o morador.

Com tamanha movimentação pela noite, o fluxo de pessoas pelo local durante o dia, em especial no fim da tarde, fica menos evidente. Entretanto, muitos ainda andam pelas ruas da localidade sem máscara ou usando o item de forma incorreta. Para a feirante Selma Sales, 41, as pessoas começaram a sair mais de casa após as afirmações do presidente Jair Bolsonaro contra o isolamento social.

“Algumas pessoas tão na rua para comprar, mas outras saem para passear. No começo da quarentena, existia o respeito e o movimento ficou bem pequeno mesmo. Mas com as falas do presidente, o povo voltou pra rua”, afirmou Selma.

Com a situação do bairro, as medidas mais restritivas chegam em boa hora, acredita Jean santos, 34. “Achei ótimo porque pode reduzir a contaminação pelo vírus. As pessoas estão saindo muito e ficam expostas. Mesmo com o uso das máscaras, o movimento tá muito grande e isso é preocupante”, disse.

Consequências econômicas

A ambulante Luciene Bonfim acredita estar pagando o preço da irresponsabilidade dos vizinhos com a determinação da prefeitura de fechar o comércio não essencial do Lobato. É justamente na quarta que ela vai receber um carregamento de R$ 1.400 em cosméticos para revender. “Não sei o que fazer com essa mercadoria parada. Os inocentes que estão se preservando e só saem para trabalhar é que vão sofrer”, reclamou a vendedora, que também vai ter que fechar sua barraca de alimentos.

Feirante, Selma Sales,41, reconhece que a medida é importante para prevenir um número maior de infectados pelo coronavírus, mas se preocupa com o tempo que vai passar sem trabalhar. “Pra mim, vai ajudar na luta contra a pandemia e piorar a situação dos feirantes. Vai ser ruim pra a gente porque são sete dias sem trabalho e sem ganhar dinheiro. Quem tem criança isso dificulta, mas tem que obedecer”, disse.

Quem garante o seu sustento na Feira do Japão, na Liberdade, pede mais uns dias para acabar os produtos que já foram comprados e não perder o investimento. Jucelia nascimento, 58, já começou a correr para vender todas as frutas até a quarta, mas reconhece que isso não será possível. “O prefeito devia dar mais um tempo pra gente. Essa epidemia acabou com a feira, todo mundo aqui já está devendo”.

Na barraca de Nanda, o movimento aumentou nesta segunda depois do anúncio de que a feira da Liberdade deverá fechar. Mesmo com mais clientes, ela se preocupa com os sete dias que vai ficar sem vender. “A gente tá sem saber o que fazer, a gente vive daqui. Sem a barraca ficamos sem renda”, afirmou.

Na rua Lima e Silva, na Liberdade, muitas lojas pequenas ainda funcionam. De acordo com o presidente da Adiel, Carlos Augusto Oliveira, os lojistas reconhecem que esse é o momento de ter algumas perdas para salvar vidas. “Se é pra beneficiar a saúde, é melhor ficar uma semana em casa e depois voltar às atividades. Os membros da associação também apoiaram os governantes que tão lutando pra não ter sobrecarga do sistema de saúde”, disse.

Para os vendedores de lembranças em frente à Igreja do Senhor do Bonfim, as restrições ao comércio vão zerar o lucro que já estava mínimo. Vendedora de fitinhas do Senhor do Bonfim, Lúcia Campos, 67, disse que hoje em dia conta com qualquer trocado das poucas pessoas que passam pelo local para se alimentar. “Há muito tempo que aqui não tem movimento. Só vendi R$ 2 o dia todo. Vou ter que parar de trabalhar a partir de quarta e não sei o que vou fazer”, contou.

Confira regras das medidas de isolamento que passam a valer nesta quarta (20)

– Comércio formal e informal fecha por sete dias entre 20 e 26 de maio.

– Estabelecimentos comerciais que podem continuar abertos: supermercados, farmácias, agências bancárias, lotéricas, estabelecimentos que fazem delivery, cartórios, repartições públicas, clinicas veterinárias, serviços de imagem e radiologia, atendimento de tratamento contínuo (oncologia, hemoterapia, hemodiálise) e laboratórios de análise clínica.

– Prefeitura vai realizar testes rápidos para detectar pessoas com a Covid-19,  distribuição de máscaras, entrega de cestas básicas a ambulantes e feirantes, combate ao mosquito Aedes Aegypti e o projeto Cras Itinerante.

*Com orientação da subeditora Clarissa Pacheco

Fonte: Correio