Alunos das redes pública e privada comemoram adiamento do Enem

Fazer o Enem já não era das coisas mais fáceis para os estudantes oriundos do 3º ano do Ensino Médio da rede pública na Bahia. O último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgado em 2017, colocou o estado como o pior Ensino Médio do Brasil. Falando do terceiro ano em específico, a nota do Ideb está abaixo de 3 desde 2013. A escala vai de 0 a 10 e a meta do Ministério da Educação é que o país atinja média 6 até o próximo ano.

Nesse contexto não é exagero dizer que fazer o Enem sem ter aulas seria algo trágico. A rede estadual está paralisada desde o dia 17 de março e por isso a notícia do adiamento soou como poesia nos ouvidos de jovens como Stephany Leite, 17, aluna do 3º ano no Colégio Central da Bahia.

Moradora do bairro da Fazenda Garcia, no Centro de Salvador, ela afirma que vem travando batalhas diárias para conseguir estudar sozinha e encara o adiamento como “uma vitória de todos os estudantes”. 

“Eu tinha medo de rolar ainda neste ano porque o aluno de escola pública já tem uma grande desvantagem. Quem é de ensino particular, o pai continua pagando a mensalidade e ele segue com aula. Com a gente não é assim e manter seria muito injusto”, conta.

Estudante do Colégio Central, Stephany Leite quer cursar administração (Foto: Acervo Pessoal)

A tranquilidade, contudo, não é tão grande assim. O adiamento cedido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e Ministério da Educação (MEC) inicialmente é de 30 a 60 dias. Aluna do Colégio Estadual Alberto Silva, em Simões Filho, Rany Vitória Caldas diz que se sentiu um pouco mais confortável, mas ainda não enxerga esse período como suficiente para compensar todo o atraso que teve.

Rany investiu em um cursinho online para seguir estudando de casa e se diz grata por ter o privilégio de uma boa internet e condições financeiras para ter esse tipo de suporte. Contudo, ela sabe que não é a realidade de todos os seus colegas.

“Eu sinto falta do presencial. A gente não é acostumado a ter aula online e do nada a gente tem aula com professores. Os professores da casa estão nos apoiando bastante. Uma professora de redação nos dá aula online pela boa vontade dela”, diz Rany, que quer fazer medicina.

Família de Rany bancou um cursinho online para ela seguir estudando durante a pandemia (Foto: Acervo Pessoal)

Professora de língua inglesa no Colégio Estadual Manoel de Jesus, também em Simões Filho, conta que os professores e direção estão fazendo o que podem para auxiliar os alunos. Um grupo no WhatsApp foi criado e por lá os docentes encaminham listas de exercícios, notícias e videoaulas para líderes de cada turma. Os líderes ficam encarregados de passar as mensagens para os demais colegas.

“Nos esbarramos com a dificuldade da falta de acesso de 100% do nosso alunado, mas temos contato com pelo menos 75%, 80% e decidimos fazer alguma coisa por estes para que no retorno das aulas a gente dê uma chance para quem não teve acesso à internet durante esse período terem uma pontuação extra e não ficarem prejudicados”, afirma.

Procurada, a Secretaria de Educação do Estado da Bahia (Sec) informou que as aulas estão suspensas até o próximo dia 2 de junho, de acordo com decreto do Governador Rui Costa. A pasta afirma que “mesmo não existindo a obrigatoriedade na participação dos estudantes, desde 31 de março de 2020, a Secretaria está disponibilizando no Portal da Educação (www.educacao.ba.gov.br), roteiros de estudos, com conteúdos para os ensinos Fundamental e Médio, Educação Quilombola, Indígena, de Jovens e Adultos e Educação Especial”.

Os estudantes podem seguir o calendário semanal, dentro do cronograma sugerido. As atividades são explicativas, buscando contemplar tanto estudantes que têm acesso à internet, quanto aos que não têm. Cada semana é destinada a uma área de conhecimento diferente e já são mais de 560 atividades disponíveis.

Para os alunos que se preparam para o Enem, o Estado disponibilizou os conteúdos preparatórios para a prova disponibilizados por meio do projeto Universidade para Todos –  Estude em Casa, desenvolvido em parceria com as universidades estaduais (Uneb, Uefs, Uesc e Uesb) e pelo programa Enem 100%. Todos disponíveis no Portal da Educação.

Para os jovens que não possuem acesso à internet algumas escolas estaduais estão disponibilizando atividades impressas. Os estudantes também podem acessar conteúdos pedagógicos na TVE Bahia, que está exibindo o programa “Estude em Casa”, de segunda à sexta-feira, das 13h às 15h, em parceria com o Canal Futura, da Fundação Roberto Marinho, e o programa “Hora do Enem”, de segunda a sexta-feira, a partir das 18h.

Rede privada
A notícia do adiamento também foi comemorada por alunos e professores da rede privada. Dandara Dias, 17, criou um canal no Instagram (@mergulheinahistoria) logo no início da pandemia para falar sobre assuntos de história, sua matéria favorita no colégio. Estudante do colégio Salesiano de Nazaré, ela afirma que estava aguardando a confirmação do adiamento e classifica o momento como “algo realmente histórico e que será lembrado para sempre”.

Ela explica que a rotina de aulas online têm sido corridas e que esse método nunca “chegará aos pés do presencial”. A quantidade de conteúdo e a dificuldade para se organizar sozinha são as grandes barreiras para a estudante que ainda está na dúvida se tenta Direito ou História.

Dandara criou um canal no instagram para falar sobre História. É uma maneira de estudar e ajudar outros alunos (Foto: Acervo Pessoal)

Diretor pedagógico do cursinho pré-vestibular Bernoulli e professor de matemática, Paulo Ribeiro afirma que em geral os alunos receberam bem a notícia, que foi motivo de alívio para a maioria deles. 

“Vai trazer bons frutos porque vai trazer mais tranquilidade. A pandemia desorganizou o ritmo de estudos. O adiamento demorou, mas veio a tempo de tranquilizar todo o mundo”, conta.

A mudança no calendário não altera o planejamento de aulas do cursinho, segundo o gestor. Contudo, agora será possível tocar o conteúdo programático com mais leveza e, além disso, fazer revisões com mais qualidade – com a expectativa de poder fazê-las em encontros presenciais.

Coordenadora Pedagógica do Colégio Antônio Vieira, Cristina Cardoso também comemora a possibilidade de fazer um período de 30 a 45 dias de revisão, algo que já é tradicional no colégio.

“A gente não poderia agir como se tudo fosse normal e natural. Na realidade nem era pra a gente ter esse desgaste pedindo o adiamento da prova”, afirma.

Dicas
Reunimos algumas dicas oferecidas por professores da rede estadual para que você, aluno, possa aproveitar essa brecha maior de tempo até a realização do Enem. Confira logo abaixo.

1. Manter a pegada
O adiamento não significa relaxamento. Mantenha a rotina de estudos, mas aproveitando uma paz de espírito maior

2. Espaireça
É bom desenvolver uma atividade que goste. Ouça uma música, assista a um filme, discuta um tema que não seja de sala de aula. É importante manter a saúde emocional

3. Não se desespere
Professor de filosofia do Colégio Antônio Vieira, Isaac Lago afirmou à nossa reportagem que ‘o que há de mais bonito na juventude é a possibilidade de nutrir acesa a chama do recomeço’. O Enem 2020 não é o fim, tampouco o começo de tudo. É uma fase que vai passar. Dê o melhor de si para conseguir o melhor de si e não esqueça que todo o mundo está passando por uma situação difícil.

4. Qualidade, e não quantidade
Neste momento difícil, é melhor você focar naquilo que tem mais dificuldade. Aproveite o maior tempo para tentar diminuí-las. Quando a pandemia acabar, você terá oportunidade de rever os assuntos que tem maestria para deixar afiados na hora de responder a prova.

5. Leia muito
De notícias a receitas de bolo, é importante ler alguma coisa todo dia. Isso enriquece seu vocabulário. Procure por histórias de ficção porque tê-las em mente ajuda a fazer conexão com a realidade e pode enriquecer seu texto na hora de uma redação e facilitar sua capacidade de interpretar informações.

*com supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio