Covid-19: Professores relatam pressão e falta de suporte no ensino a distância

Professores da rede estadual do Rio de Janeiro se queixam da falta de recursos e da pressão feita pela Secretaria de Educação (Seeduc) para o acesso à plataforma de ensino online no período de quarentena. Comunicados com advertências de registros de faltas e consequentes cortes de salários têm causado preocupação aos servidores.

“Recebemos denúncias de assédio moral que algumas direções estão praticando contra professores impossibilitados de acessar a plataforma”, conta Bruno Melo, 37, professor e diretor do Sepe (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação).

No perfil “EaD na Educação Básica é Exclusão”, criado em uma rede social para compartilhar relatos dos problemas do ensino online durante a pandemia do novo coronavírus , uma publicação exibe cópia do que seria uma mensagem enviada ao grupo de WhatsApp de uma escola da rede estadual. Um trecho da mensagem diz que “o não acesso à plataforma incide em falta para o professor”.

Em publicação do Diário Oficial no último dia 12 de maio, o governo estadual menciona a manutenção do registro de presença dos professores durante a pandemia. “O cômputo da frequência de docentes em regime de trabalho remoto permanecerá enquanto as aulas presenciais estiverem suspensas”, diz o documento.

“A Seeduc deveria estar se somando a secretaria de saúde no combate ao coronavírus. Estudando a possibilidade de transformar escolas em hospitais de campanha ao invés de cometer assédio e ameaçar profissionais de educação”, diz Bruno.

Dentre os motivos que impedem parte dos professores de acessar a plataforma de educação online do estado, são relatados desde a baixa qualidade da conexão à internet e a falta de computadores até a pouca familiaridade de professores mais velhos com esses recursos tecnológicos.

Este é o caso de Ismar Barbosa, 66, professor de história e sociologia. Com 46 anos de magistério, ele diz que tem sentido dificuldade para se adaptar às aulas online. “Não tivemos tempo de preparação para esse novo modelo de ensino. Para os colegas que já são acostumados com informática, ficou um pouco mais fácil. Uma alternativa foi entrar por meio do WhatsApp para enviar conteúdo aos alunos”, conta.

De acordo com a pesquisa Sentimento e Percepção dos Professores Brasileiros nos Diferentes Estágios do Coronavírus no Brasil, do Instituto Península, mais de 83% dos professores têm utilizado o WhatsApp como ferramenta no contato com os estudantes, sendo 88% nas escolas municipais e 85% nas estaduais.

Com o objetivo de saber como estão os professores durante a pandemia, a pesquisa, que ainda terá outras duas fases, contou com as respostas de 7.773 profissionais de educação de todos os estados entre os dias 13 de abril a 14 de maio.
Ainda segundo o levantamento, 83% dos educadores se sentem nada ou pouco preparados para ensinar de forma remota. Nas redes municipal e estadual, os números chegam a 86% e 81% respectivamente.

Sem reajuste salarial desde 2014, profissionais de educação da rede estadual do Rio enfrentam também dificuldades financeiras. Daniela Abreu, professora de artes do colégio estadual Professor Alfredo Balthazar, no município de Magé, precisa dividir um computador com o marido, também professor, e a filha, estudante. “É muito complicado para o educador ter que dar aula por meio do celular”, diz.

De acordo com a lei nº 11.738/2008, um terço da carga horária de trabalho deve ser reservado para atividades extraclasse, como planejamento, elaboração e correção de avaliações. No entanto, uma professora que preferiu não se identificar reclama que a falta de suporte da Seeduc aumenta as horas de trabalho dos professores.

“Eu estava sem computador e não tinha como planejar todas as aulas por meio do celular. A gente não tem orientação pedagógica. Eles só pedem para pegarmos leve com os alunos”, conta.

Ela enviou um e-mail pedindo orientação a Seeduc, mas a única resposta que obteve foi que a secretaria estaria providenciando chips para acesso à internet. Ainda sem uma direção clara, a professora voltou a questionar se eles teriam lido seu e-mail, mas não recebeu retorno.

Em nota, a Seeduc afirma que estabeleceu um protocolo para os professores que não têm condições de acessar a plataforma justificarem a ausência. “Eles poderão fazer um banco de horas para, posteriormente, recompor o período de quarentena e compensar a carga horária, quando as aulas presenciais retornarem”, diz o comunicado. A secretaria ainda prometeu distribuir os chips de dados para acesso à internet para educadores e estudantes nos próximos dias.

Os efeitos da pressão vivida pela falta de recursos para trabalhar também têm atingido a saúde mental de professores. “Estou sem condições de preparar uma boa aula. Tenho tido crises de ansiedade e insônia”, afirma uma educadora que preferiu não se identificar.

A professora divide o computador com familiares e lida com a instabilidade da conexão à internet em seu bairro. Apesar das dificuldades, a docente diz que tem adicionado as atividades na plataforma, inclusive de madrugada e nos fins de semana.

“A Seeduc diz que este serviço será computado como dia letivo, e sabemos que os coordenadores pedagógicos são pressionados. Acho desumano esse tipo de cobrança neste momento. Fico pensando qual será minha punição por algo de que não tenho culpa”, diz.

Fonte: Agencia Brasil