Vírus democrático: coronavírus atinge bairros de diferentes rendas de Salvador

Os balanços divulgados pela Prefeitura de Salvador mostram que a covid-19 já chegou a pelo menos 142 dos 163 bairros oficiais da capital baiana. E que, entre aqueles que mais apresentam casos ativos e/ou mortes no momento, estão regiões com populações de renda média bem distintas, e de classes sociais diferentes.

Some-se a isso os dados de ocupação de leitos de hospital da capital baiana. Segundo o prefeito ACM Neto, em coletiva na última quinta-feira (28), as unidades de UTI da rede pública estavam com 76% de ocupação, e os leitos clínicos, com 67%.

A rede privada, que atende a população com planos de saúde, apresentava uma proporção equivalente: 79% de ocupação entre UTI e clínicos.

Assim, é correto dizer que, na última semana de maio, a covid-19 atinge de forma proporcional toda Salvador, sem distinguir bairros ricos dos pobres e afetando tanto a rede pública quanto a privada.

Um vírus democrático: “Se você olhar o mapa, vai ver casos em toda a cidade. Por isso o nosso apelo  de que todos, sem exceção, obedeçam às medidas”, diz o secretário municipal de saúde, Leo Prates.

O bairro com mais casos ativos e/ou mortes é Pernambués, com 77, segundo o boletim divulgado pela Prefeitura na última quarta (27). A localidade com 64,9 mil habitantes tem a 64ª maior renda mensal da cidade, com R$ 1.040,97 por pessoa.

Brotas, incluindo o Horto Florestal (70 casos), Liberdade (68), Pituba (67) e Cabula, Itapuã e Plataforma (todos com 64 casos) fecham o ranking de bairros com mais pessoas em tratamento e/ou mortas até a última quinta-feira (veja a tabela completa abaixo).

A Pituba é um dos bairros mais ricos de Salvador, o 6º com maior renda mensal. O rendimento per capita é de R$ 5.284,43. Plataforma é um dos bairros mais pobres de Salvador, sendo o 109º do ranking. A renda média mensal é de R$ 758,37 por pessoa.

Essa distribuição por bairros de diferentes rendas médias faz com que os sistemas de saúde público e privado sejam atingidos simultaneamente. Ao contrário do que se cogitou inicialmente, já que a covid-19 foi importada por pessoas de maior renda, após mais de dois meses de pandemia os hospitais particulares seguem com alta demanda.

Confira os 10 bairros com mais casos ativos e/ou mortes em 27/05:

Segundo o prefeito ACM Neto, a ocupação de leitos na rede particular cresceu ao longo da última semana. “Vínhamos de dias mais tranquilos, mas nos últimos dias a taxa de ocupação voltou a aumentar. Começamos a semana com 73%, mas chegou a 79%”, disse na última quinta-feira (28).

Segundo a Associação de Hospitais e Serviços de Saúde do Estado da Bahia (AHSEB), 1,1 milhão de pessoas em Salvador possuem plano de saúde e devem ficar sob cuidados da rede particular nesta pandemia. Pouco mais de um terço da população da capital.

Na rede pública, a ocupação de leitos de UTI, que chegou a ser de 88%, caiu na última semana para 76%. Mas isso não significa que a procura diminuiu:

“Conseguimos inaugurar uma quantidade importante de leitos. Portanto foi a oferta que cresceu, e não a demanda”, explicou ACM Neto.

O ideal, segundo os especialistas, era que a busca por leitos acontecesse de maneira separada. Por exemplo, que o sistema privado fosse mais cobrado inicialmente, mantendo a rede pública como um reforço. “Isso seria o ideal, mas em Salvador temos uma integração muito grande e uma circulação de pessoas entre todos os bairros, de todas as classes”, pontuou Leo Prates.

DO BAIRRO RICO À PERIFERIA
Como esperado, os primeiros casos de covid-19 em Salvador foram registrados nos bairros de maior renda. As pessoas adoeciam, procuravam em sua ampla maioria o sistema privado de saúde e eram testadas com facilidade.

Até o começo de abril, apenas bairros nobres apareciam entre os com mais casos registrados. No boletim divulgado no dia 7 daquele mês apareceram no topo: Pituba (6º mais rico), Horto Florestal (divisão não-oficial de Brotas), Graça (5º mais rico) e Itaigara (3º mais rico).

Isso não quer dizer que os casos nas periferias demoraram a surgir. “Muito rapidamente algumas pessoas assintomáticas tiveram contato com funcionários domésticos ou de suas empresas, que levaram o vírus para todos os bairros do município”, explicou Márcio Natividade, pesquisador do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da UFBA.

No final de abril já foi possível observar bairros periféricos entre aqueles com mais casos confirmados. O primeiro a assumir ‘protagonismo’ foi Engenho Velho de Brotas, com a 63º maior renda.

A periferia entrou de vez para a lista com mais casos em meados de maio. No último dia 15, Plataforma já aparecia entre os cinco primeiros. Uruguai, Liberdade e Pernambués ficaram entre os dez (veja a linha do tempo no final da matéria).

A explosão de casos em bairros periféricos não significou uma desaceleração em bairros ricos. Comparando o boletim do dia 15 de maio com o mais recente, 27, foram 59 novos casos em Brotas, 55 em Itapuã e 48 na Pituba.

“Os bairros mais ricos continuam com contaminação alta. A questão é que começou mais cedo nessa classe social, então pode ser que a curva de inflexão venha antes”, analisa o Dr. Mauro Adan, presidente da AHSEB. De fato, a Pituba é o bairro que lidera o número de recuperados, com 69.

Por isso, o cenário não é mais favorável para quem tem plano de saúde, já que, no caso do esgotamento dos leitos privados, os pacientes terão que buscar tratamento no sistema público de saúde.

BAIRROS POBRES TÊM PIOR TAXA DE ISOLAMENTO
A maior concentração de novos casos está mesmo nos bairros mais pobres. Pernambués lidera a lista, com 66 casos, seguido de Cajazeiras XI, com 60. Fazenda Grande do Retiro, com 55, também tem chamado a atenção.

Parte do problema pode ser explicada pela dificuldade de se realizar uma quarentena eficiente nessas regiões. Um estudo da UFBA aponta que há uma relação direta entre a vulnerabilidade social e a baixa taxa de isolamento.

“Foi possível perceber que aqueles bairros que têm melhores condições de vida possuem índices de isolamento maiores que os bairros de periferia”, disse Márcio Natividade, professor do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da UFBA.

O estudo é fruto de uma parceria do ISC com a empresa pernambucana InLoco, que trabalha com segurança de dados. A companhia consegue medir o deslocamento de um número pessoas na capital baiana através da geolocalização dos seus celulares. Esses dados foram cruzados com um índice de condição de vida, que levou em consideração renda média, educação e outros indicadores sociais.

Jardim Cajazeiras, Jardim Santo Inácio e Arenoso apresentaram os piores índices de distanciamento do dia 23 de março até 27 de abril. Por outro lado, Stella Maris, Costa Azul e Canela tiveram os melhores resultados.

“O isolamento está muito relacionado ao trabalho e à renda. Não são todos que possuem o privilégio de ficar em home-office. Muitas pessoas de bairros mais pobres precisam sair para trabalhar, estão ligados ao mercado informal”, comentou Márcio Natividade.

O crescimento de casos nesses bairros, portanto, encontra uma população que depende do poder público para ser assistida. “São pessoas vulneráveis à covid-19 não só por conta do acesso aos serviços de saúde, mas também por trazerem deficiências nutricionais e pela dificuldade em tratar comorbidades como diabetes, hipertensão e doenças respiratórias”, disse o professor da UFBA.

LINHA DO TEMPO DA COVID-19 EM SALVADOR

  • 07/04 Pituba (27), Horto (13), Graça (10), Itaigara, Brotas, Imbuí e Federação (9, cada) lideravam em números de casos, todos de classe média ou alta. Liberdade, Pernambués e bairros do Subúrbio nem apareciam.
  • 17/04 Engenho Velho de Brotas passa Barra, Graça, Federação e vira primeiro bairro periférico na lista entre os cinco com mais casos. Pernambués, Liberdade e Plataforma ficam com 5 casos, cada, ainda longe do topo.
  • 27/04 Liberdade (21), Bonfim (20) e Uruguai (18) se aproximam de grupo dos cinco com mais casos, que tem Pituba (36) na ponta, seguida de Brotas, Patamares, Federação e Imbuí. Bairros do subúrbio seguem com menos de 10 casos cada, longe dos 10 primeiros.
  • 07/05 Maio começa com explosão de casos no Bonfim, que entra na lista de bairros com mais casos, em 4º, com 36. Pituba, Brotas e Patamares, de classe média e alta, estão à frente. Liberdade, Uruguai e Plataforma chegam à casa dos 30 casos e aparecem entre os 10 primeiros.
  • 15/05 Bonfim, em 3º, e Plataforma, em 4º, avançam na lista de maiores casos e ligam alerta na Cidade Baixa e no Subúrbio. O meio de maio é o ponto de virada nas periferias: Uruguai, Liberdade, Pernambués e Engenho Velho de Brotas tomam espaço de bairros como Imbuí, Federação e Rio Vermelho entre os 10 primeiros.
  • 27/05  Pernambués e Liberdade disparam e viram 3º e 4º na lista. Cabula, Itapuã, Uruguai, Fazenda Grande do Retiro, Plataforma e São Marcos fecham os 10 primeiros, que seguem com Pituba e Brotas na ponta. Bairros como Patamares, Graça, Imbuí e Federação ficam para trás.

Fonte: Correio