Idosa do Calabar acumulava 1,5 tonelada de lixo em casa e dormia em cima dele

Foram necessários dois caminhões para remover a 1,5 tonelada de lixo acumulado na casa de dona Rosita dos Santos Silva, 76 anos, na comunidade do Calabar. Ela dormia em cima do lixo, em um papelão. A idosa, que sofre de Transtorno de Acumulação (TA) leve, foi encaminhada para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) onde passou por avaliação com profissionais de saúde, sendo encaminhada para tratamento.
 
“Os homens da Limpurb não conseguiam nem abrir a porta da casa por conta da quantidade de lixo e material reciclável que foi encontrado. Nos partiu o coração em ver que ela dormia num papelão, no chão. É um risco que ela corria, principalmente nesse período de pandemia” contou Ivana Ramos, assistente social da Secretaria Municipal de Promoção Social de Combate à Pobreza (Sempre).

O termo acumulador, que é o popular para pessoas com o chamado Transtorno de Acumulação (TA), ficou famoso quando virou título de um reality show norte-americano, exibido no Brasil pelo canal pago Discovery Home&Health desde 2009. Mas a doença é tão séria que, se antes, era vista somente como um dos sintomas do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), em 2013, passou a ser considerada uma patologia diferente. estudos científicos indicam que de 3% a 5% da população mundial pode ser acometida pelo TA. 

Foto: Divulgação/SSP

Uma operação conjunta envolvendo a Sempre, a Limpurb, a Base Comunitária de Segurança do Calabar e a própria comunidade do bairro foi determinante para mudança na trajetória da idosa. Ela passará a receber auxílio emergencial, além de ganhar colchões, kit dormitório e kit higiene da Sempre.

De acordo com a secretária da Sempre, Ana Paula Matos, a idosa continuará a ser acompanhada para que supere a situação de vulnerabilidade social. “Fundamental foi o envolvimento de toda a comunidade, o apoio da Polícia Militar e da Limburb para o sucesso dessa ação. É uma questão que envolve também a saúde, por isso ela será atendida pelo CAPS. Ela iniciará o tratamento e continuará sendo assistida pelas nossas equipes para que reconquiste, o mais breve possível, a sua autonomia”, afirmou.

A assistente social da Sempre, Ivana Ramos, detalhou como foi o trabalho com a idosa. “Primeiro, precisamos fazer o trabalho do convencimento. Tem todo o processo de ganhar a confiança para explicar para ela a necessidade de se desfazer de todo aquele material. Ela dormia em cima do lixo, em um papelão. Isso nos partiu o coração. A equipe da Limpurb teve muita dificuldade em acessar a casa por causa do volume de resíduos”, relatou.

A comandante da Base Comunitária de Segurança do Calabar, capitã Aline Muniz, contou que a PM visitou a idosa pela primeira vez na semana passada. “No nosso primeiro contato ela estava um pouco na defensiva, sem mostrar que estava disposta a mudar de vida. Aos poucos, ela foi percebendo que estávamos ali para ajudá-la”, contou.

Com a chegada das equipes de assistência social da Sempre e da Limpurb dona Rosita foi conversando e, assim abrindo as portas da sua casa para que as equipes e os policiais iniciassem os trabalhos.

Como se manifesta o transtorno
Uma pessoa mais velha, que passou a vida toda guardando coisas, até que, um certo momento, o hábito ficou descontrolado. Não encaram os objetos acumulados com apego, mas sofrem justamente pela dúvida: e se precisarem no futuro? Por vezes, essa pessoa não tem família. Não raro viveram algum momento traumático ou ressentem alguma perda importante na vida. 

Muitas vezes, as pessoas que têm o TA não conseguem sequer perceber a doença, segundo a psiquiatra Fabiana Nery, médica da Clínica Holiste e professora do Departamento de Neurociências e Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba) informou ao CORREIO em entrevista sobre o assunto em 2017. Por isso, a família é fundamental. 

“É importante reforçar que qualquer tipo de comportamento que esteja causado prejuízo deve ser levado para avaliação psiquiátrica, porque, na maioria das vezes, eles (os acumuladores) não percebem o prejuízo, nem que aquilo é prejudicial à saúde”, explicou, na ocasião. 

Ou seja: é importante ficar atento aos sinais de prejuízo. Você está dormindo na sala porque o quarto está abarrotado de coisas e a cama virou mais um espaço para guardá-las? Então, talvez seja o momento de procurar um especialista. O principal motivo dos acumuladores, de acordo com a psiquiatra Fabiana Nery, é justamente a dúvida quanto à necessidade de precisar do objeto no futuro. 

O TA é uma doença multifatorial – é uma associação entre características da personalidade, questões genéticas, e fatores ambientais e externos. “A gente percebe um transtorno bem crônico. (O paciente) começa dando sinais desde a infância e adolescência e tende a se intensificar com a idade avançada. Por isso, é comum ver gente com 50 anos para cima, mas se você olhar, vem desde a infância e adolescência”. 

Além disso, acumuladores nunca devem ser confundidos com colecionadores. Quem coleciona tem algum objetivo e o objeto tem um significado para ele. Enquanto o colecionador tem uma coleção organizada, por vezes, catalogada, o acumulador geralmente é caótico. Mas uma coisa que nunca deve ser feita – pela família ou por quem quer que seja – é simplesmente pegar as coisas e jogar fora. 

“A pessoa pode ter um ataque de ansiedade ou de pânico, então tem que fazer todo um trabalho com uso de medicação para controlar a ansiedade. E aí você trabalha para concordar que vai jogar fora. Tem que explicar que, às vezes, pode estar atrapalhando a saúde. Mas, além disso, tem que traçar um compromisso com o paciente de que ele não pode acumular mais. Se não, seis meses depois, volta como era”. 

O tratamento deve ser feito em todas as frentes: psiquiátrico, psicológico e psicossocial – e vai desde treinamento de técnicas de como jogar fora os objetos até o tratamento psiquiátrico com a medicação para reduzir os níveis ansiedade. E justamente por ser uma patologia crônica, o paciente com TA deve fazer tratamento contínuo e provavelmente sempre vai precisar usar uma medicação indicada. 

Fonte: Correio