Matheus Buente troca chatice acadêmica pelo humor para contar a História de Salvador

Feudalismo, Macartismo, Absolutismo, Perestroika… O apanhado aleatório de temas distantes que dominam nossas aulas de História fazem com que 90% dos estudantes baianos (segundo uma pesquisa que acabo de tirar do rabo) não se interessem pela disciplina e, claro, não entendam ou absorvam quase nada.
 
Mas e se a História fosse um pouco mais próxima e contada da mesma maneira que relatamos, por exemplo, uma treta na vizinhança, um b.o. na saída do brega ou um porre vergonhoso na micareta de Feira de Santana? 

Para o professor de História e humorista Matheus Buente, 32 anos, uma dose segura de coloquialismo – no lugar do presunçoso academicismo – e outra cavalar de humor podem ser uma sedução, digo, uma solução para nos tornarmos seres mais interessantes e interessados no nosso passado.

“Quando eu tava na faculdade (de História, na Ucsal), eu recebia muita bronca, tive muito artigo, projeto de pesquisa recusado porque a minha escrita era muito popular, pra todo mundo entender. Mas essa barreira ajudou depois”, conta o educador, se referindo ao sucesso de suas aulas em cursinhos pré-vestibulares. “As pessoas gostavam desse jeito simples, de descomplicar a matéria pra galera entender”, relembra.

Um exemplo prático dessa tática está no vídeo ‘Por que o 2 de Julho é melhor que 7 de Setembro!’, um dos vários no YouTube em que aborda temas históricos: “Somos baianos e a gente comemora a Independência do Brasil na data certa, que é o quê? Dois de Julho! O Sete de Setembro é uma data ‘feona’. A data que você olha assim, ‘teve o quê?’ Nada! Um playboy mimado que brigou com o pai… A gente não pode vibrar por um dia que o maluco brigou com o pai e deu um grito, um chilique. Agora, Dois de Julho… Foi onda braba. Teve duas violas muito boas: uma no Cabrito e outra em Pirajá. E você tá ligado que se fechar um pau no fim de linha de Pirajá, só fica quem é luva. Não é qualquer um que cola”.

Criado entre más e péssimas influências do bem na Cidade Baixa (CBX), Matheus mora há sete anos no Luís Anselmo, Região Metropolitana de Brotas (RMB), e se tornou um dos principais nomes do stand-up baiano.

Professor de História da rede municipal, de onde tira o sustento, e sócio-fundador dos projetos Vatapá Comedy Club e Bloco de Notas, de onde tira um extra, teve que se virar para manter-se visível e em alta durante a pandemia.

“No meio da quarentena, tava investindo nos canais do YouTube e Instagram como plataformas para divulgar o trampo com o humor. A gente filmou muito show, eu fazia os cortes e postava. Mas sem os shows, a gaveta acabou e a galera começou a me cobrar mais coisas”, lembra Matheus, que encontrou nas lives (transmissões ao vivo) uma saída providencial.

“Ia ter o Aniversário de Salvador, aí eu resolvi fazer essa live dia 29 de março. Parei pra dar uma pesquisada, montei o roteiro, e fiz. A galera no Instagram pirou! Depois botei no YouTube, e virou meu conteúdo da quarentena”, explica o professor-comediante, que desde então faz duas lives por mês, com espaço de 15 dias entre elas.

Além da fundação de Salvador (cheio de notas de rodapé sobre a expansão territorial e a curiosa formação dos bairros), já rolou programa sobre História da Música Baiana, do Futebol Baiano e da Comida Baiana (com elogios de dona Elíbia Portela, a criadora do pãozinho delícia), todos com cerca de 50 minutos de duração. 

A próxima live já ocorre neste domingo (31), a partir das 20h, no perfil @matheusbuente do Insta. Quem pegar vai conhecer ou relembrar A História do Arrocha e do Pagode Baiano, com citação garantida à incomparável abertura do DVD da banda Kortezia. “Dá pra adiantar que vou falar sobre as mudanças musicais do pagode e do disco seminal do atual pagode baiano, que é o Harmonia do Samba Ao Vivo em Itabuna, além da origem conturbada do Arrocha”, propagandeia Buente no poente deste texto.

Fonte: Correio