Está trabalhando em casa? Veja como se cuidar e quais são seus direitos

Sociável e afetuoso, o brasileiro e o baiano estão reaprendendo a viver as relações sociais, especialmente no trabalho durante a quarentena. No entanto, o distanciamento social vem se apresentando como um desafio, tanto do ponto de vista do equilíbrio mental, emocional quanto no que tange a forma de lidar com o trabalho remoto. O CORREIO reuniu um time de especialistas que vão ajudar a compreender melhor o home office e o período vivido.

Segundo a professora das disciplinas de Desenvolvimento Gerencial e Gestão de Carreira dos cursos de Pós-graduação da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Maria de Lurdes Zamora Damião, estamos experimentando uma situação completamente desconhecida, cheia de incertezas, e nosso maior desafio é manter o equilíbrio mental e emocional.

Um ponto importante para refletir é a forma como o indivíduo está se posicionando em relação ao fato de ter que ficar em casa. 
“Você pode sentir que é uma vítima que está sendo obrigada a se isolar, ou sentir que fez a opção por se recolher para proteger sua vida e das pessoas que ama. Perceba que seu ponto de vista pode levá-lo ao estresse, que fragiliza sua imunidade; ou te fortalecer para, com discernimento, enfrentar esse desafio”, diz. 

O lado bom
Para o psicólogo  André Luiz  Doria, o temor gerado pelo momento afeta a todos, estando ou não em home office. “Esse é um momento de ruptura e ninguém sabe o que pode advir desse cenário. Qualquer formato de trabalho é novo nesse contexto e tudo isso gera angústias e tensões”, esclarece. 

O psicólogo ressalta, no entanto, que em todos os momentos que a humanidade enfrentou crises como essa – como a Peste Negra, no século XV, e a chamada Gripe Espanhola, no início do século XX – houve inventividade e reformulações de posturas. “No século XV, se rompeu com a moral medieval e o período subsequente  foi chamado de Renascimento. No início do século XX, se incorporou uma série de tecnologias sanitárias que estão presentes até hoje nas nossas vidas”, diz o psicólogo, ressaltando que existem aspectos positivos nesse cenário, aparentemente, desolador.

Dória reconhece que, sob quarentena, diversos fatores terminam gerando ansiedade, desde os grupos de whatsapp até o noticiário. Nesse período, o quadro de saúde em geral pode ter uma piora, se não por contaminação com vírus, pela tensão  presente que pode ser o disparador de outros problemas, especialmente,  se já existe uma doença mental pré existente. “Não existem fórmulas prontas para encontrar o equilíbrio e a resiliência, mas algumas atitudes podem ajudar a viver esse momento sob uma nova perspectiva”, diz, ressaltando que o distanciamento social termina por se mostrar um momento importante para que cada possa se re conhecer como indivíduo e dentro do seu isolamento.

 
Rotinas
Entre as dicas, o psicólogo sugere organizar uma rotina de trabalho, lazer, cuidados. Para ele, o descanso  precisa acontecer com atividades que promovam prazer e relaxamento, afastando os pensamentos e a atenção do momento atual e, preferencialmente, não deve ser com o celular.

Com uma postura similar,  Maria de Lurdes diz que o ideal é planejar a semana com disciplina, para que o trabalho não se misture com as tarefas domésticas, por exemplo. “Para fazer a divisão do tempo, avalie a semana ou dia, identificando as necessidades de descanso, sono, higiene, home-office, faculdade, lazer, refeições, revisões de conteúdo, exercícios físicos, atividade religiosa, entre outros. Registre essas informações em uma planilha”, ela ensina.

Também é possível utilizar um ‘kanban’, sistema que utiliza cartões ou post-its coloridos para designar e especificar tarefas e, dessa forma aprimorar a gestão do tempo. “Fixe o kanban em um local visível e movimente o post-it a cada alteração, na ação de cada atividade. É interessante definir pequenos prêmios para cada meta conquistada, ou um super prêmio para aquelas metas mais desafiadoras. Seja disciplinado e não procrastine”.

A professora acredita que, neste momento, é preciso que as pessoas continuem alimentando sonhos e propósitos, aproveitando o recolhimento para dedicar-se à construção, revisão ou desenvolvimento de um plano de ação individual. “Lembre-se que tudo passa e este momento com certeza vai passar. Esta é uma excelente oportunidade para conhecer a si mesmo e aos outros, repensar a forma como vivemos e conduzimos nossos relacionamentos, rever propósitos e o que valorizamos. Confie, faça sua parte e colabore com os demais”, defende.

Direitos em casa

A advogada Tiana Camardelli lembra que o home office é previsto pela CLT e é protegido por lei com regras e cuidados especiais (FOTO: Arquivo Pessoal)

A advogada  trabalhista Tiana Camardelli lembra que a CLT também protege o home office antes mesmo da quarentena e que, mesmos com as medidas provisórias, o trabalho é feito com garantias. Ela destaca que o home office   permite que o profissional preste o serviço, trabalhe de forma efetiva fora da empresa, mas que sua atividade não seja considerada trabalho externo, como seria, por exemplo, a distribuição de propaganda na rua, nos sinais etc.

“Todos os direitos previstos na CLT e também os benefícios e direitos que constam no contrato de trabalho de cada profissional são assegurados. As normas da Convenção Coletiva seguem valendo também”, diz, lembrando que  no home office, em regra, não pode haver controle de jornada do empregado. Para este período de quarentena, poderá.

A advogada salienta também que todos os direitos são mantidos: salário, vale-alimentação, vale-refeição, vale-cultura, plano de saúde. “O vale transporte pode ser descontado, porque, afinal, não haverá deslocamento do profissional à empresa”, orienta, destacando que o profissional que não tenha os equipamentos necessários para trabalhar em home office deverá receber da empresa este suporte (computador adequado, acesso à internet etc).

Ela faz questão de reforçar que os  gestores não podem dispor dos profissionais em horários não combinados e que não seriam convenientes se ele estivesse em trabalho presencial, por exemplo. “O combinado nunca sai caro, então é bom que tudo seja bem informado pelos gestores e que conste por escrito em acordo entre a empresa e o profissional: ritmos das atividades/resultados, horários de reuniões etc., basicamente não se devem mudar as exigências do trabalho presencial”, completa. Por fim, ela diz que  os profissionais também precisam  entender que o home office não dá a eles a liberdade de se apresentarem nas conferências e reuniões virtuais de pijamas, de exporem os colegas de trabalho à rotina doméstica com pessoas correndo ao fundo, por exemplo.

Fonte: Correio