'O coronavírus atingiu o bem mais precioso que Deus me deu: minha família', diz secretário de Saúde de Salvador

Não é exagero dizer que o coronavírus ressignificou diversos sentidos em minha vida ao atingir em cheio o bem mais precioso que Deus me deu: minha família! Este maio foi certamente o mês mais desafiador da minha história, e aqui deixo, por ora, um pouco de lado o cargo  de secretário municipal da saúde, e abro meu coração para compartilhar a experiência pessoal, dos sentimentos e sensações vivenciadas ao ter duas irmãs, meus cunhados, dois sobrinhos, minha doce filha Ana Júlia (10 anos), e o meu pequeno Leozinho, de apenas cinco anos, positivados para o Covid-19

Precisei ficar isolado fisicamente de todos, além da minha amada companheira, Ana Paula, com quem divido minha vida, meus anseios, alegrias, angustias e tristezas há mais de quinze anos. Foram quase trinta dias distante fisicamente, confinado em um hotel, convivendo com diversos sentimentos. Sozinho, como jamais havia ocorrido antes. Não tê-los perto, minhas fontes de inspiração, força, amor, coragem, alegria e luz, foi demasiado difícil para traduzir em palavras. Precisei buscar forças na fé, na esperança, e em todo amor, afeto e carinho recebidos durante o atravessamento desse período delicado. 

Cada dia longe das pessoas que mais amo foi superado com muito trabalho e esforço. Várias vezes precisei respirar fundo e clamar a Deus que me permitisse continuar ávido, manter o equilíbrio e prosseguir à luta. Não foi fácil, chorei sim diversas vezes. Celebrava intensamente cada pequeno avanço no estado de saúde deles, tentando manter o pensamento sempre positivo. Hoje, felizmente, todos estão finalmente curados, e eu posso dizer que sou um homem de fé renovada, e sentidos ressignificados. Partilho a indizível alegria de retornar ao meu lar, ao seio das minhas correntes de identidade, amor e afeto. 

Entretanto, me dói saber que nem todos e todas terão a mesma sorte e oportunidade que eu tive. Histórias serão interrompidas, existências atravessadas, algumas perdidas, outras comemoradas. O que não podemos jamais é perder de vista é a nossa capacidade de acreditar na superação, na vitória e na própria vida, com a sua capacidade infinita de provocar rupturas, reflexões e transformações, que nos tornam ainda mais fortes e destemidos. Este é um vírus democrático, que não escolhe idade, raça, etnia, classe social, e já mostrou que todos nós podemos ser diretamente ou indiretamente afetados, em algum momento, diante de tantas incertezas e possibilidades. Somos todos iguais em nossas diferenças!

Agradeço a cada mensagem de apoio e acolhimento neste período de intensas emoções, pois me deram o impulso necessário para continuar trabalhando todos os dias, com a dedicação, o respeito e a responsabilidade que me foi confiada pelo prefeito ACM Neto, e que população de Salvador merece, onde muitas famílias choram as dores da perda dos seus entes queridos. Lamento profundamente por cada pessoa que nos deixou, e me solidarizo com seus familiares e amigos. Eu realmente sinto muito! Estamos fazendo tudo que é possível, movendo forças, sintetizando diferenças, e unindo diversos setores da sociedade para evitarmos mais infecções, e, sobretudo as perdas. Todavia, sabemos que infelizmente este é um vírus muitas vezes impiedoso e de grande potencial nocivo. Mas vocês não estão sozinhos, acreditem!

Em meio ao turbilhão de sensações experienciadas nos últimos dias, da infinda alegria e alívio ao ter toda família recuperada, divido a felicidade da chegada da minha querida afilhada Giovana, filha de minha guerreira e estimada irmã Priscila. Ela é o nosso símbolo genuíno de luz e de esperança, da crença que em meio ao sofrimento e a dor, há também motivos para celebrarmos à vida e o amor. À luta contra o coronavírus é conjunta e contínua: sigamos juntos, compreendendo que não há nada de mais precioso que a nossa própria vida, e o amor da nossa família!

Leo Prates é pai da Ana Júlia e do Léo, marido de Ana Paula e Secretário Municipal da Saúde de Salvador

Fonte: Correio