Distância, máscaras e proteção aos olhos ajudam a reduzir dispersão da Covid-19

No momento em que vários países e Estados brasileiros iniciam seus processos de reabertura, após períodos de isolamento para conter o coronavírus, um novo estudo traz evidências sobre o quanto o distanciamento social, o uso de máscaras com múltiplas camadas e proteção para os olhos ajudam a reduzir a dispersão da Covid-19.

A análise, publicada nesta segunda-feira (1) na revista médica “Lancet”, traz uma revisão de mais de 200 estudos observacionais e comparativos que avaliaram a efetividade dessas medidas protetivas em 16 países. Os autores apontam que manter um distanciamento social de pelo menos 1 metro – mas, idealmente, de dois –, usar máscaras faciais e proteção para os olhos têm bons efeitos contra a Covid-19, a Sars e a Mers (duas doenças causadas por outros coronavírus). 

O distanciamento é, sozinho, o que mais protege. Mas os autores alertam que mesmo a combinação de todas essas intervenções não é garantia de não haver contaminação. 

“A proteção ocular geralmente é desconsiderada e pode ser eficaz nas configurações de proteção da comunidade. No entanto, nenhuma intervenção, mesmo quando usada corretamente, foi associado à proteção completa contra a infecção. Outras medidas básicas, como higiene das mãos, ainda são necessárias em conjunto”, escrevem os autores.

O trabalho não analisou estudos sobre quarentena e outras formas de isolamento social.

A equipe internacional de pesquisadores, liderada por Holger Schünemann, da Universidade McMaster, no Canadá, avaliou a capacidade dessas medidas de proteção em evitar a transmissão entre pacientes com infecção confirmada ou provável pelas três doenças e indivíduos próximos, como cuidadores, cuidadores, familiares e profissionais de saúde.

Em nove estudos, com 7.782 pessoas, que analisaram para a Covid-19, a Sars e a Mers o impacto da distância na transmissão dos vírus, observou-se que manter uma distância superior a um metro de outras pessoas estava associado a um risco muito menor de infecção (2,6%) em comparação com quem estava a menos de um metro (12,8%). 

A modelagem sugere ainda que para cada metro mais longe, até três metros, o risco de infecção ou de transmissão pode cair pela metade. Nenhum estudo chegou a medir quantitativamente se distâncias superiores a 2 metros eram mais efetivas, mas a análise permite pressupor que sim.

Sobre a proteção para os olhos, como o uso de viseiras (face shields), óculos de proteção e óculos normais, também se notou que elas ajudam a reduzir as chances de transmissão: 5,5% para quem usava, ante 16% em que estava sem nada. Foram avaliados 13 estudos, com 3.713 pacientes, para os três vírus.

Outros dez trabalhos, com 2.647 participantes, indicam que a chance de transmissão em quem usa máscara é de 3,1%, contra 17,4% para quem não usava. No trabalho, eles diferenciam o uso para profissionais de saúde, confirmando que máscaras do tipo N95 conferem maior proteção que as máscaras cirúrgicas ou similares. 

Mas para o público geral, mesmo máscaras cirúrgicas descartáveis ​​ou de algodão reutilizáveis, com 12 a 16 camadas, são recomendáveis.

Os pesquisadores alertam, porém, para o risco de esses suprimentos faltarem para os profissionais de saúde e recomendam aumento de produção e reposicionamento da capacidade de fábricas para não faltar. 

“As pessoas também devem ter em mente que usar uma máscara não é uma alternativa ao distanciamento físico, proteção para os olhos ou medidas básicas, como higiene das mãos, mas pode adicionar uma camada extra de proteção”, comentou em comunicado à imprensa Derek Chu, também da Universidade McMaster e primeiro autor do trabalho.

Apesar de esta ser a mais ampla análise feita até o momento sobre esses mecanismos de proteção, os autores ponderam que o grau de confiança nos dados é moderado para o distanciamento físico e baixo para as máscaras e protetores visuais. Isso porque os estudos revisados não são randomizados (em que existe grupo controle, por exemplo). Mas eles destacam que o trabalho pode servir como guia de políticas públicas. 

Camadas

Para a pesquisadora Raina MacIntyre, da Universidade de New South Wales, na Austrália, que não participou do estudo, mas assina um comentário nesta edição da “Lancet”, o trabalho representa um marco importante. “Eles apontam que máscaras multicamadas são mais protetoras do que as de camada única. Essa descoberta é vital para orientar a proliferação de modelos de máscaras de pano caseiras, muitas das quais são de camada única. Uma máscara de pano bem projetada deve ter tecido resistente à água, várias camadas e bom ajuste facial”, escreve.

“O uso universal de máscara facial pode permitir o levantamento seguro de restrições nas comunidades que buscam retomar as atividades normais e proteger as pessoas em ambientes públicos lotados e dentro das residências”, indica a pesquisadora.

 

 

Fonte: Agencia Brasil