Coronavírus: número de mortes equivale à população de 80% das cidades no Brasil

Uma cidade fantasma nasceu no Brasil. Nesta terça-feira (2), o país alcançou a trágica marca de mais de 30 mil mortes causadas pelo novo coronavírus, segundo boletim diário divulgado pelo Ministério da Saúde. 

Mais precisamente, são 31.199 histórias apagadas pela pandemia, que avança mais a cada dia e não deu ainda qualquer sinal de trégua. É fácil perder-se na contagem de números, quase ignorando que, cada um deles, é uma vida ceifada por uma doença sem cura.

A cidade fantasma que nasceu no Brasil, de mais de 30 mil mortos, se parece, inclusive, com a maior parte dos municípios do país. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 80% das cidades no Brasil têm até 30 mil habitantes. 

Em pouco mais de três meses após o primeiro diagnóstico de infecção por Covid-19 no país, no final de fevereiro, é como se uma dessas mais de 4.400 cidades desaparecesse por completo neste período.

Os mortos pela maior pandemia a atingir o mundo em um século são praticamente um espelho do Brasil: a maior parte é de negros – 49,6% tem a pele parda, e, 7,4%, preta. A maioria tem entre 20 e 69 anos. Todos têm nome. Todos têm história. 

A distribuição etária das fatalidades espelha-se, também, em diversas pequenas cidades país afora. Poucas crianças e adolescentes, mas uma quantidade considerável de idosos ou adultos em idade avançada.

Mas a tragédia não poupou ninguém. Habitam nessa cidade fantasma, ao menos, 44 bebês que não chegaram a completar um ano, segundo o último boletim epidemiológico detalhado divulgado pelo Ministério da Saúde, no último dia 23. Nesta terça, esse número, ainda não publicado, deve ser ainda maior. 

Na época, havia 22 mil mortos no país. Entre os mais jovens, também fora registrado naquele dia pela pasta 20 mortes de crianças entre 1 a 5 anos, e 67 óbitos entre jovens de 6 a 29 anos.

Manifestações

Em paralelo, o clamor nas ruas cresce – há quem lute contra anseios fascistas que crescem no Brasil e o racismo sistêmico que existe no país. Há, no entanto, quem defenda essas posições e também aqueles que desacreditam da pandemia que matou mais de 30 mil brasileiros. 

Com isso, Brasil vive a maior tensão política dos últimos meses, que se soma às preocupações com a crise sanitária e humanitária que ocorre no país.

Governo federal

Há 18 dias, o Brasil está sem ministro da Saúde, após a saída do oncologista Nelson Teich no último dia 15. 

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou, na semana passada, que o general Eduardo Pazuello, que assumiu o posto interinamente, deve seguir no cargo “por muito tempo”, sem que um substituto seja indicado.

Nesta terça, em Brasília, uma apoiadora do chefe do Executivo pediu a ele que mandasse uma mensagem de conforto às famílias das vítimas da Covid-19 no Brasil. “A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”, respondeu Bolsonaro. 

Combate à pandemia

Nos Estados e municípios, diverge-se sobre as medidas implementadas – ou não – para conter a pandemia. 

Em Belo Horizonte, que havia iniciado na semana passada o processo de reabertura do comércio, a retomada de outros segmentos foi suspensa na última sexta-feira por determinação do prefeito Alexandre Kalil (PSD). 

Segundo ele, apesar de o número de casos e de óbitos na cidade ainda serem relativamente pequenos, há bastante preocupação com pessoas vindas do interior para se tratarem na capital.

Houve protestos por parte de comerciantes que são favoráveis à reabertura.

Em Minas, luta-se contra um inimigo quase desconhecido. Em relação ao tamanho da população, aplica-se 40 vezes menos testes de coronavírus do que no Brasil. 

A Secretaria de Estado da Saúde alega falta de demanda nos laboratórios públicos, que, apesar de terem capacidade para realizar até 2 mil exames diários, fazem, em média, apenas 340 por dia.

A desconfiança dos números apresentados pelo governo do Estado chegou, inclusive, à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que destacou em relatórios a alta subnotificação de casos da Covid-19, citando Minas Gerais como exemplo. 

Enquanto na política o Brasil se contorce, como sempre o fez, nas ruas há gente doente. Em 2020, vive-se no país uma crise humanitária, sanitária, política e social.

A tragédia brasileira sempre teve o mesmo nome, mas, desta vez, nasceu uma cidade fantasma no país. Foram-se, irreparavelmente, mais de 30 mil histórias.

Fonte: Agencia Brasil