Músico tenta vender violão e recebe R$ 90 mil de vaquinha

Por necessidade financeira, o músico Luís Filipe de Lima teve de pôr à venda o “Seu Sete”, um violão de sete cordas da marca Do Souto, repleto de histórias, pelo preço de mercado, R$ 12 mil. O instrumento foi anunciado num post de Facebook.

A postagem-desabafo viralizou e desembocou numa vaquinha online. O autor do anúncio amealhou, até o momento da publicação desta reportagem, mais de R$ 90 mil, por meio de 700 apoiadores. O valor possibilitou ao músico manter seu instrumento de trabalho e garantir a sobrevivência nos meses de vacas magras que estão por vir por causa da pandemia.
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Como tudo aconteceu?
LUÍS FILIPE – Escrevi que estava vendendo o violão para pagar contas e que me colocava à disposição para trabalhos, incluindo o de jornalista, pois também escrevo. Depois de algumas horas, fui verificar e havia seis pessoas me oferecendo o dinheiro, mas com a condição de que eu ficasse com o violão. Foi uma avalanche de solidariedade e carinho das pessoas.

Quem organizou a vaquinha?
LF – A mãe do meu filho. Postei o anúncio às seis da manhã e fiquei offline. Voltei a olhar por volta das 11h e já tinha uma comoção generalizada, amigos dizendo que tinha que fazer uma vaquinha para que eu não precisasse vender o violão.

Aí quem pulou na frente foi a mãe do meu filho, que é uma pessoa cheia de iniciativa. Ela me ligou dizendo que estava na frente do computador, tinha feito um texto para a tal da vaquinha, eu concordei e aí começou a funcionar.

Na verdade, eu não pensava nisso. Pensava em vender o violão pelo preço de mercado dele, R$ 12 mil, mas a gente que é músico sabe que vale mais pela história dele, que não estava embutida nesse valor. Também poderia ter pedido menos porque eu estava no sufoco, mas resolvi pedir o preço de mercado para ver o que iria aparecer.

O que em sua opinião comoveu tanto as pessoas?
LF – Acho que a novidade não foi só o fato de eu ter contado a história desse violão, que tem 25 anos. Viajei o mudo inteiro com ele. Fiz teatro com ele. Televisão, cinema, discos, shows com ele. Escrevi arranjos com ele. Toquei em botequins, em lugares ótimos, em pocilgas e lugares escabrosos. Além de ter acompanhado centenas de cantores. Se fossemos calcular isso em horas de funcionamento ao longo desses 25 anos seria um número absurdo.

Por outro lado, não me senti constrangido em declarar minha quase insolvência porque eu sempre trabalhei muito, e nunca precisei me preocupar com as finanças. Somos músicos e, como profissionais autônomos, há meses em que entra mais, há meses em que entra menos grana, mas a gente vai se acostumando com essa vida. Agora, a situação da força de trabalho do país foi ficando cada vez mais difícil, principalmente para quem está envolvido com o setor cultural.

Ficamos muito desguarnecidos. Pegamos os últimos anos da Dilma, em que já havia uma crise econômica e que começou a se acentuar causando danos sobretudo para os personagens autônomos ligados à economia criativa.

Depois o Temer entrou e acabou com o Ministério da Cultura. Como houve uma grita muito grande, ele resolveu voltar atrás e transformou a recém-criada Secretaria da Cultura novamente em ministério, só que as verbas minguaram, e muito. Contudo, as coisas ainda se mantinham funcionando na época do Temer. O cinema, a Ancine estava preservada, por exemplo. Só que entrou o governo que está aí, do inominável.

Ofertas de trabalho também surgiram com o anúncio?
LF – Além das pessoas contribuindo na vaquinha, teve muita gente dizendo que não podia contribuir, mas deixaram palavras de carinho, além de outras oferecendo projetos, propostas e trabalhos, para serem feitos agora ou mais para frente.

A que você atribui tamanha solidariedade?
LF – Eu já trabalhei muito e sempre convivi com vários grupos de gente diferente. O pessoal do samba, do choro, das escolas de samba, da música pop, de gravações de CDs. Tem o pessoal do teatro, do cinema, da faculdade de jornalismo onde me formei. Então tive muitas respostas de diferentes amigos, dizendo que leram o anúncio e choraram à beça. Foi uma avalanche do bem.

Muita gente me ligou, mas eu não conseguia atender. Falava com três pessoas ao mesmo tempo. Essa história –não consigo falar que viralizou, porque vírus agora dá um trauma danado–, mas ela teve um alcance multiplicado desse jeito, talvez porque eu seja um músico, produtor e agente cultural conhecido por sempre dar trabalho, no bom sentido, para os outros. Eu sempre chamo muita gente para trabalhar. Monto elenco com cantores, músicos, bandas e técnicos.

E o fato de um cara como eu reclamar, se queixar e pedir ajuda, tendo de vender meu instrumento porque a situação ficou complicada, além de precisar de trabalho, mexeu com todo mundo.

Quais trabalhos já apareceram para você?
LF – Nessa situação de isolamento posso fazer arranjos, por exemplo, e já pintou um. Fiz uma gravação aqui em casa mesmo e vou mandar para ser mixada num estúdio. Tem outros projetos em curso também.

Nesta situação em que estamos há muitos músicos dando aulas e também vendendo seus instrumentos, fazendo lives, mas pense nos roadies, técnicos de som, iluminadores. Esses caras não têm como fazer lives. Até podem fazer, mas não terão o alcance de um cara que canta ou toca. Agora temos que pensar e ajudar esses caras.

Fonte: Agencia Brasil