Homens estão ajudando menos em casa na Bahia

Desaponta, mas não surpreende: o número de homens que realizam tarefas domésticas ou cuidado com pessoas na Bahia diminuiu. A informação é fruto de uma pesquisa divulgada ontem  pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontou que 77,2% dos baianos fazem algum tipo de serviço doméstico ou assistem a parentes e amigos com problemas de saúde nos afazeres do lar (‘ajudam em casa’ no jargão popular masculino). 

O dado vai na contramão do Brasil. Considerando todo o território nacional, um total de 80,6% dos brasileiros executam  ao menos um afazer doméstico. Os baianos também vão na contramão das baianas, já que 92% delas realizam alguma atividade  ligada ao lar.

Analista de dados do IBGE, Mariana Viveiros explica que há uma questão cultural que pode ser decisiva na composição desses números, mas que não há um motivo objetivo descrito na pesquisa realizada pelo órgão.

“Culturalmente, os homens têm a opção de não fazer esse tipo de atividade em suas próprias casas, delegando às mulheres com quem dividem o imóvel ou, em último caso, para alguma trabalhadora doméstica”, explica.

Na casa do estudante Thales Portugal (nome fictício a pedido da fonte) é mais ou menos assim que funciona. Ele mora com a mãe, uma professora de 58 anos, e o pai, que com seus 65 anos é advogado e técnico em eletrotécnica aposentado. Ele e a mãe passam a maior parte do tempo fora de casa por conta das demandas de estudo e trabalho. O pai é quem fica mais em casa e cabe à empregada da família fazer as tarefas da residência. Com a pandemia, a funcionária não está indo ao imóvel  da família e as tarefas domésticas ficam sob a responsabilidade dele e da mãe.

“Eu lavo a louça e o banheiro, minha mãe varre, limpa a casa e cozinha. Meu pai é a madame que só come, dorme e suja. Minha mãe diz que ele é de outra época e que não vai mudar. Não acho justo que numa casa de três pessoas apenas duas façam as coisas”, conta o estudante.

Divisão

Pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM-UFBA), Márcia Macedo afirma que existe uma teoria nos estudos de gênero que se chama ‘divisão sexual do trabalho’, que analisa formas e motivos para que as mulheres assumam mais tarefas domésticas que os homens, mesmo com o aumento da inserção das mulheres de classes médias e altas com maior intensidade no mercado de trabalho, o que teoricamente diminuiria o seu tempo gasto com o lar. 

Em outras palavras: mulheres, mesmo com trabalhos fora do lar e empregos de alto escalão ainda são associadas ao dever doméstico. Segundo Márcia Macedo, isso tem a ver com uma associação das chamadas maternidade biológica e maternidade social. Basicamente, uma ideia de que a mulher é quem tem a capacidade de ser cuidadosa com o lar, filhos ou dependentes.

A pesquisadora aponta que durante a sua trajetória de estudos, percebeu situações em que, por exemplo, mulheres precisavam rejeitar promoções em seus trabalhos porque as novas funções demandavam uma mudança de cidade, algo que não acontecia quando um homem recebia as ofertas. Neste caso, diz, é mais comum que eles, por serem vistos como os chefes da família, se mudem levando filhos e esposas.

Tempo

De acordo com a pesquisa do IBGE, a tarefa domestica mais realizada entre os homens é a de fazer compras – 69,8%, ou seja, 7 em cada 10 – e pagar contas (67,6%). Entre as baianas, a tarefa mais comumente executada é a de cuidar da alimentação e da cozinha – 95,1% – e das roupas (91,4%).

Outra diferença é que elas  dedicam quase o dobro do seu tempo para afazeres domésticos em relação aos homens: 20,9 x 9,9 horas semanais, respectivamente. 

“É difícil apontar de fato o que foi que aconteceu neste ano. A Bahia e 7 estados do Norte e Nordeste tiveram essa redução na participação masculina”, constata Mariana Viveiros, do IBGE, que completa: “Por outro lado, na Bahia houve uma redução no número de horas que as mulheres dedicam aos afazeres domésticos, o que pode estar ligado a ter alguém que está recebendo algum profissional para fazer isso no lugar”. 

Na Bahia, somando trabalho remunerado e afazeres domésticos ou cuidados com pessoas, as mulheres trabalhavam, em média, quase 4 horas a mais por semana que os homens: 50,7 horas para elas e 46,8 horas para eles.

Serviço doméstico barato ajuda a entender situação

Os dados relativos aos homens baianos vão na contramão do registrado no resto do Brasil. Considerando todo o território nacional, um total de 80,6% dos brasileiros executa algum afazer doméstico. Ao todo, são 65,416 milhões de homens que cumprem tarefas do lar. 

A analista do IBGE, órgão que realizou o estudo, Mariana Viveiros, diz que a  redução da participação masculina nas tarefas domésticas aconteceu em todo o Norte e do Nordeste. E o efeito contrário apareceu em regiões mais ricas do país, como o Sul e o Sudeste.

Uma hipótese apontada pelo IBGE é que no Nordeste a mão de obra de trabalhadoras do lar é mais barata e com uma maior informalidade quando comparada às regiões mais desenvolvidas do país. Por conta disso, quando os homens não repassam as tarefas domésticas para uma esposa, filha ou mulher de dentro da família, é possível que recorra a diaristas e afins.

É o caso do contador Bruno Andrade, que conta que passa o dia todo fora de casa e chega exausto do trabalho. Por isso, acertou com uma diarista que faz os trabalhos domésticos em sua casa no bairro do Rio Vermelho duas vezes por semana.

*Com supervisão da chefe de reportagem Clarissa Pacheco

Fonte: Correio