Marcado pelo hepta, Sapatão era imponente em campo e sereno fora

A constelação do Bahia perdeu uma de suas estrelas. Morreu na sexta-feira (5), aos 72 anos, Sapatão, ex-zagueiro e ídolo do clube. Ele estava internado no Hospital da Bahia, em Salvador, desde o dia 17 de maio, e foi diagnosticado com coronavírus.

O ex-jogador deu entrada no hospital após passar mal em casa. Depois de apresentar problema de pressão, Sapatão foi encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). No dia 27 de maio, ele sofreu uma parada cardiorrespiratória e precisou ser intubado. Desde então, respirava com a ajuda de aparelhos e tinha quadro considerado grave. Sapatão deixa a esposa, Junalva Nogueira, três filhos e quatro netos. Por conta da pandemia da covid-19, o sepultamento será limitado para a família neste sábado (6).  

“Em nome da nossa família, gostaríamos de agradecer imensamente todas as mensagens, as orações e ligações desses últimos dias. Tenham certeza de que nos confortaram e nos fortaleceram nesse período. Pelo momento que estamos vivendo, não será permitido cerimônia e nem participação, mas pedimos para, se possível às 9h do dia 6/6, estarem juntos conosco em uma corrente de oração no horário em que meu pai será cremado. A nossa família agradece por todo amor e carinho dedicado a meu pai. Uma abraço de toda Família Nogueira”, escreveu a filha Renata.

Élcio Nogueira da Silva, o Sapatão, nasceu em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, e aos 15 anos chamou a atenção do time da cidade. Foi por causa do tamanho do pé que ganhou o apelido ainda na infância. O destaque no Campos fez o garoto seguir para o Flamengo, mas foi na Bahia que encontrou o seu rumo no futebol.

Em 1969, Sapatão desembarcou em Feira de Santana. Pelo Fluminense, foi campeão baiano no mesmo ano, o último título do Touro do Sertão. Dali, seguiu para fazer ainda mais história com a camisa do Esquadrão.

Com perfil imponente, o jogador chegou ao tricolor da capital em 1973 e logo começou a empilhar títulos e conquistou a idolatria da torcida do Bahia. Ele encarnou a camisa do Esquadrão em 450 jogos entre 1973 e 1980, tendo terminado 224 partidas sem sofrer gol e balançado as redes rivais 12 vezes. Mas foi pela sequência do inédito heptacampeonato baiano (1973 a 1979), atté hoje inigualada, que o zagueiro ficou marcado na história.

Sapatão é um dos quatro jogadores que estiveram presentes em todos os sete títulos conquistados em sequência – Douglas, Fito e Baiaco compõem o grupo – , sendo capitão do tricolor durante toda a campanha.

Apesar do jeito sereno fora de campo, ele se transformava dentro das quatro linhas e era difícil para os adversários passarem pela marcação. Entre 1974 e 1976, o Bahia chegou a ficar 50 jogos invictos no estadual. Em 1975, o tricampeonato foi conquistado sem perder uma partida.

No ano do penta, em 1977, Sapatão formou com Luiz Antônio, Ricardo Longui, Zé Augusto, Toninho e Baiaco – o último na frente da zaga – o sistema defensivo que passou 12 jogos sem levar gol. Feito quase repetido no ano seguinte, quando a sequência durou 11 partidas.

Em setembro do ano passado, Sapatão concedeu entrevista ao CORREIO para o especial dos 40 anos da conquista do hepta e destacou a união entre os jogadores do clube como um dos fatores de sucesso no período que ficou conhecido como década de ouro no Bahia. “Eram oito, nove andando junto”, contou, referindo-se à amizade fora do trabalho.

Em 2015, ele se declarou ao Esquadrão em entrevista à TV oficial: “O Bahia é um negócio assim maravilhoso, um negócio diferente de tudo, amo esse clube”.

Sapatão também defendeu Santa Cruz e Catuense. Depois de encerrar a carreira como jogador, virou treinador e trabalhou em equipes como Ypiranga, Galícia, Camaçari, Camaçariense, Botafogo-BA, União São João-SP e América-SE.

Aposentado desde 2012, Sapatão convivia com problemas renais e ia a um hospital particular em Salvador três vezes por semana para realizar hemodiálise, procedimento de filtragem e limpeza de substâncias tóxicas do sangue. No corpo, carregava as marcas do processo, mas nada que abalasse a tranquilidade do ídolo.

Quase metade da vida de Sapatão foi no bairro onde ele passou boa parte da carreira como jogador. Morador do Costa Azul há 40 anos, vivia bem perto da Fazendinha, antigo centro de treinamentos do Bahia que ficava no local do hoje extinto clube do Baneb.

Participante de uma era romântica do futebol, ele gostava de levar uma vida simples, com uma rotina que contava com almoço pelo bairro, visita dos netos e caminhadas para sentir o vento no rosto, ver gente na rua e jogar dominó.  

Fonte: Correio