Miguel não teve maturidade pra ser uma criança preta, no Brasil

Esse espanto nacional tem um tanto de hipocrisia e você sabe disso. Deu errado, dessa vez, mas incontáveis pessoas não-negras que vivem em suas bolhas, com seus filhos de dez anos que sequer conseguem passar uma vassoura na casa, acham que crianças pretas, no Brasil, já devem ser capazes de se virar no elevador de serviço, aos cinco anos de idade. É isso que esperam delas. Assim como a capacidade de entender que o iogurte mais gostoso da geladeira é do filho da patroa e que o jogo a ser jogado no PS4 quem escolhe é o “patraozinho”. A “gratidão” da mãe que, não tendo com quem deixar, leva o filho para o serviço, deve estar explícita também no comportamento do filho. Humildade, sempre. E nada de comportamentos infantis. Inclusive, se foi permitida a presença da criança preta na “casa grande”, certamente é porque é “boazinha” e tem idade parecida com a dos filhos da patroa. Não pode ser “chata” e precisa ter alguma serventia. Seu trabalho é entreter, no mínimo. Se não for isso, é apenas fingir que não existe. Não lhe cabe demandar cuidados ou atenção, sequer da própria mãe que está “ocupada”. Imagine da “sinhá”.

Crianças pretas, no Brasil, são capazes de cuidar de irmãos, desde muito cedo. Também de limpar a casa, cozinhar e vender coisinhas nos sinais de trânsito. Elas pegam transportes públicos, sozinhas, numa idade em que meu filho sequer conseguia jogar bola, no jardim, sem a minha companhia. Elas precisam se criar, na maioria das vezes. As mães estão trabalhando e os pais não se consegue encontrar. A geração que não sabe ouvir ordens, que muda de ideia sobre os próprios talentos mil vezes, que entra na casa dos 20 sem produzir um real, que nunca sai da casa dos pais, essa que preocupa as familias pela total inutilidade e incapacidade de se manter, é formada por não-negros, na imensa maioria. Brancos não temos, no Brasil. Mas as peles claras e os sobrenomes de parecença européia é o que mais aparece, nos grupos de discussões de mães, quando o assunto é a incompetência de filhos com infâncias infinitamente estendidas.

Uma demência adquirida pelo treinamento promovido por pessoas exatamente como Sari Corte Real, a dondoca que se tornou assassina. Ela matou Miguel por materializar, em um gesto, o olhar que ainda é direcionado, por gente como ela, especificamente às crianças pretas. Um olhar que começa no nascimento, inclusive. Já é mais do que sabido, conhecido e discutido que mulheres negras sofrem muito mais do que mulheres não-negras, em seus partos. Os relatos assombrosos trazem histórias macabras de violência obstétrica muito mais frequente do que entre mulheres não-negras. Há a crença perversa de que as negras “suportam mais a dor” e, por isso, muito mais vezes lhe são negados os anestésicos, por exemplo. Essa construção de que “gente preta é mais forte”, acompanha toda a existência. Do parto, passando pela infância, adolescência e desembocando em Mirtes, a mãe de Miguel, convidada a relatar a morte do filho, na televisão. E o fez, como tantas outras mulheres negras que perdem seus filhos, todos os dias. Responde perguntas, descreve a cena de encontro com Miguel quase morto. Anestesiada. A ela, nem a própria morte, que se segue à perda de um filho, é permitida.

Eu sou uma mulher não-negra e entendo que uma parte da luta antirracista cabe exatamente a mim. Primeiro, no reconhecimento e respeito a tudo que já foi conquistado, pelas pessoas negras deste país. Segundo, na educação do meu filho não-negro com quem preciso tratar, incansavelmente, de equidade. Em terceiro lugar, no uso dos meus inegáveis privilégios para atuar em espaços onde pessoas negras ainda não estão. Por exemplo, deixando claro para as “Saris” que buscam cumplicidades racistas, quando encontram outras pessoas não-negras, a sós: eu não sou da sua laia, não sou da sua turma e teria vergonha se fosse confundida. Não tem piadinha aceitável, não tem graça, não tem concessão. Incomodar é o mínimo que me cabe, é uma obrigação.

Miguel não foi morto só por Sari Corte Real. Seus assassinos são todos e todas que sustentam a lógica que naturaliza crianças nos “quarto de empregada”, invisibilizadas. Também têm culpa os que exigem seus silêncios e cabeças baixas. A culpa é de todos e todas que têm mini babás, disfarçadas, em casa, que esperam gratidão ancestral de uma mãe a quem concedem a “graça” de poder encostar um filho no canto da cozinha, enquanto prepara o jantar dos senhores. Apertou o botão daquele elevador cada patroa que achou bonitinho o filho da empregada aprendendo a cuidar da casa. Não da dele, claro, mas a da patroa, garantindo, assim, que ele “entenda” o próprio lugar. Miguel morreu porque já era um serviçal, aos cinco anos. Temos o nosso próprio George Floyd. Ele também não conseguia respirar e disse isso como uma criança diz: chorando pela mãe. Essas foram, também, as suas últimas palavras. Ou, pelo menos, as que, pra mim, vão ficar.

Fonte: Correio