Veterinários alertam que uso excessivo de água sanitária causa dermatites

Ted teve dermatite alérgica pelo contato com resíduo de água sanitária (Foto: Divulgação)

Uma coceirinha aqui outra ali e… de um dia para o outro aquilo virou uma ferida por entre os pêlos e/ou nas patas. Tem acontecido muito nesse período de pandemia, alertam veterinários. Aconteceu com Ted, o gatinho da fisioterapeuta Ludmila Paulino, 31 anos. Durante a quarentena, Ted apresentou lesões de pele. No atendimento com a veterinária da clínica Ama Pets, a médica questionou sobre a mudança de hábitos da tutora. Pronto. Estava feito o diagnóstico e descoberto a causa do problema. “De fato, nós estávamos limpando o chão várias vezes ao dia com água sanitária e usando álcool em algumas superfícies. Alguns desses locais ele tinha o costuma de deitar”, admite Ludmila.

Ted, que tem 7 anos, desenvolveu uma dermatite e estava se auto mutilando. “A mudança de rotina e o excesso de limpeza gerou esses problemas. Além dos medicamentos e banhos com shampoo específico, passamos a usar os produtos com mais critério”, garante Ludmila. Ted é só um exemplo de muitos. O número não é resultado de pesquisa científica, mas, a partir dos relatos de seis médicos de algumas das principais clínicas de Salvador é possível dizer que, no último mês, houve um aumento entre 25% e 30% nos atendimentos de cães e gatos depois que entraram em contato com produtos de limpeza.  

Os casos se multiplicam por dois motivos, dizem os médicos: primeiro pelo contato direto dos animais com superfícies que foram higienizadas com excesso de água sanitária ou desinfectante, o que antes da quarentena não era feito tão frequentemente. Segundo pelo uso excessivo do álcool nas patas dos cães após os passeios. Mas, há casos que beiram o absurdo. 

“Eu tenho visto coisas bem esdruxulas. O tutor tava lavando a pata do animal com água sanitária pura, sem enxágue. Água sanitária tem um poder químico absurdo mesmo enxaguando. Aquilo vai ressecar a pele, provocar irritações e coceiras”, afirma o dematologista veterinário Raphael Bezerra. 

Seja diretamente na lavagem das patas ou no piso, o uso de produtos de limpeza pode causar irritações, dermatites bacterianas ou fúngicas, alergias e até intoxicações em cães e gatos. Doutor Rafael chama a atenção de que muitos desses produtos também incentivam o cachorro a lamber as patas. “A umidade e a boca com bactéria podem causar fungos, por exemplo”, diz Rafael, que atende nas clínicas Amigo Pet e AlphaPets. No seu caso, ele acredita em um aumento de cerca de 30% do número de atendimentos nos últimos 30 dias.  

Clínicas como a Ama Pets e a Semeve também apontaram crescimento. Na Ama Pets, a veterinária Miucha Furtado acredita que uma das causas é o fato de as diluições dos produtos estarem sendo feitas de forma incorreta. “Os animais tem apresentado muita alergia, muitos problemas de pele por conta do contato com o chão da casa. Esses produtos não eram usados com tanta frequencia. Além disso, as pessoas não fazem o uso da forma mais adequada”, explica a veterinária, que fez residência em clínica médica de pequenos animais.

Na Semeve, a veterinária Vanessa Reis não consegue precisar qual o aumento no número de casos, mas, de fato, esse aumento ocorreu. “Esses produtos podem causar alergias em animais sensíveis a essas substâncias e o o uso inadequado favorece às bactérias, fungos. São microorganismos que já existem na pele do animal, mas, pelo ressecamento, isso acaba exacerbando e causando essas dermatites”, explica Vanessa. “Tivemos relatos de problemas causados pelo álcool líquido, inclusive”. 

Os veterinários não relataram intoxicações, mas alertam que isso pode ocorrer porque, no caso de excesso dos produtos de limpeza, os animais podem lamber o chão ou o próprio corpo e se intoxicar, gerando quadros de vômitos e diarréias. ‘Principalmente no caso do gato porque o gato costuma se lamber muito”, afirma dra. Miucha. A veterinária Alessandra Monnet, que faz atendimento em domicílios, afirma ter atendido pelo menos dez casos de problemas de pele no último mês. “Alguns tutores de pacientes meus apresentaram lesões dermatológicas por uso de água sanitária. Na anamnese foi perguntado e todos haviam introduzido o produto na limpeza diária da casa, o que não facontecia com tanta frequencia antes”, conta Alessandra, que atende pela Pet Care a Domicílio. 

Qual a medida certa para diluir a água sanitária?

De forma equivocada, temos uma mania: costumamos diluir a água sanitária em uma quantidade de água em que a gente continue a sentir o cheiro do produto. Segundo os veterinários, isso não só é desnecessário como está errado. “Limpeza não significa cheiro”, diz a veterinária Miucha Furtado. Mas, qual a medida certa?

Bom, o problema é que cada marca de água sanitária pode trazer uma informação diferente. Por isso, o veterinário Marcus Fróes, do HPet, usa como medida o que prevê protocolos de laboratórios para desinfecção de materiais infectados. A diluição usada é de 1 ml de água sanitária para 100 ml de água. Ou seja, 10 ml de água sanitária para cada litro de água.

“Os próprios produtos de limpeza trazem nos seus rótulos um excesso desnecessário na hora dessa diluição. Essa é uma questão de mercado para vender mais. Meu conselho é que se use 10 ml de água sanitária para cada litro de água”, confirma o veterinário, que tem residência em Clínica Médica de Pequenos Animais e trabalha há muitos anos com a dermatologia.

Nas duas unidades do HPet, dr. Marcus diz que felizmente não se registrou problema com produtos de limpeza. 

Depois de usar a água sanitária no chão e superfícies, ainda é recomendável tirar o excesso com um pano úmido. “Depois que você resolveu a assepsia, passa um pano só com água para tirar os resíduos”, completa dra. Alessandra Monnet. Se não quiser usar água sanitária, todos os médicos apontaram como boa alternativa alguns desinfectantes que são vendidos no mercado e que não agridem tanto os animais. São justamente produtos veterinários feitos para higienização dos ambientes. Eles citaram o HerbalVet (ou derivados) para desinfetar as áreas que os pets têm acesso sem causar alergias e até queimaduras pela ação química desses produtos. 

Álcool em gel: usar nos pets ou não? Eis a questão!

A questão ainda não é consenso entre os veterinários. Por isso, colocamos aqui as opiniões dos seis médicos ouvidos pelo CORREIO. Há os que são completamente contra o uso e os que não enxergam contra indicação caso seja usado com moderação e bom-senso. De qualquer forma, todos concordam que água e sabão neutro podem ser usados após os passeios. Também chamam a atenção para alguns produtos que já existem no mercado, como lenços umedecidos, espumas e o próprio shampoo pet, que também são boas alternativas. Leiam os relatos sobre o álcool gel e tirem suas próprias conclusões.      

“Não pode passar álcool gel de jeito nenhum. O álcool desidrata a pele do animal, isso causa um ressecamento que pressupõe a formação de alergia. Ele deixa a pele do animal mais sensível. Não pode passar nem um pouquinho. A melhor forma é água e sabão neutro, se a pessoa tiver condições de secar bem as patinhas. Porque se você não seca devidamente, a pata do animal fica úmida e você pode gerar outro problema de pele com fungos e bactérias. Se não puder secar, você tem a opção de usar o lenço umedecido para pet, que tem uma concentração maior de antisséptico do que o de humano” – Miucha Furtado, Veterinária com residência em Clínica Médica de Pequenos Animais

“O álcool em gel 70 não tem uma contraindicação direta. Mas para cães alérgicos ou atópicos (que tem má formação da barreira cutânea), o álcool acaba ressecando muito. É exatamente como o humano que tem alergias dermatológicas, ele precisa de um hidratante. Então se você usa um produto que tem uma volatização como o álcool, ele resseca a pele da pata, irrita mais e o cão coça mais. Coçou, entra bactéria. Umidificou, entra o fungo. Causa uma dermatopatia infecciosa por conta de um processo alérgico, que é a causa base. Eu prefiro indicar a lavagem com shampoo pet ou com esses lenços umedecidos e espumas para pet”  – Raphael Bezerra, Dermatologista Veterinário 

“Pode, sim, usar o álcool em gel de forma moderada. De preferência, aplique um hidratante após o uso. Mas os próprios produtores de álcool gel hoje colocam hidratante na fórmula. E você também não vai passar álcool em gel na pata do cachorro 20 vezes por dia, mas sim quando voltar do passeio. A pata de um cachorro é menos sensivel que a mão de uma pessoa, até porque está em contato com o chão o tempo todo. Você usa o álcool em gel na sua mão 30 vezes por dia e não tem problema. Porque o cachorro vai ter? Realmente não vi relatos em qualquer lugar sobre queimaduras ou outros problemas causados pelo álcool gel em cães. Agora, vc não vai pegar a pata do cachorro e deixar pingando de álcool em gel. Basta umedecer um pouco e deixar secar porque álcool 70% evapora rápido. Até mesmo a água sanitária pode ser usada se diluída corretamente. Dilua 1 ml para cada 100 ml de água e pulverize. Pode-se usar água e sabão também ou o próprio shampoo que usa no animal para dar banho. Após a lavagem, seque adequadamente” – Marcus Fróes, Veterinário com residência em Clínica Médica de Pequenos Animais 

“Pode ser utilizado sim de forma moderada e estar sempre atento a qualquer alteração que eles possam apresentar, como lambedura excessiva das patinhas, interdigitos avermelhados. A gente aconselha os tutores a não usar direto. Tem algumas formulações que a gente consegue manipular ou então fazer a lavagem mesmo das patinhas e secar depois” – Vanessa Reis, Veterinária com residência em Clínica Médica de Pequenos Animais

“As pessoas estão utilizando álcool 70 (mesmo que seja álcool em gel) para higienizar as patinhas. Não pode de forma nenhuma! Eu sou contra” – Alessandra Monnet, Veterinária com residência em Clínica Médica de Pequenos Animais 

Fonte: Correio