Pandemia e euro a R$ 6 podem levar a êxodo de alunos brasileiros de Portugal

Lisboa, Portugal – Graças à língua em comum e à simplicidade de seus processos seletivos, Portugal se transformou em um dos maiores destinos dos estudantes brasileiros no exterior.
A pandemia do novo coronavírus e a alta do euro, porém, podem provocar um êxodo. A situação afeta quem já está no país e os que tinham planos de viajar neste ano.
 
Principal referência para brasileiros em Portugal, a Universidade de Coimbra sofreu redução de 20% nas candidaturas de estrangeiros em relação ao mesmo período de 2019.
 
A desvalorização recorde do real frente ao euro é uma das razões. A moeda europeia, que começou o ano com cotação de R$ 4,50, chegou ao fim de maio em R$ 6,36.
 
Como muitos estudantes, sobretudo os da graduação, são mantidos na Europa com recursos que a família envia do Brasil, a permanência em Portugal acabou inviável.
 
A desaceleração da economia portuguesa também pesa. Muitas empresas cancelaram programas de estágios e contratações, enquanto restaurantes e atividades ligadas ao turismo, que costumam empregar muitos alunos, foram obrigados a fechar as portas.
 
Estudante de mestrado em direito em Lisboa, a carioca Carolina Sá, 28, está se preparando para voltar ao Brasil.
 
“Meu sonho sempre foi uma pós-graduação fora, mas vou adiar o plano. Minha família, que ajudava a me manter, já não pode mais”, diz ela, que relata não ter mais condições de arcar com despesas de mensalidade, casa e alimentação.
Aluno de mestrado em engenharia em Coimbra, Denner Déda, 24, também cogitou voltar ao Brasil. Um estágio na universidade e a não cobrança de juros nas parcelas atrasadas o ajudaram a ficar.
 
Déda negociou novos prazos com a universidade para o pagamento das mensalidades e diz que está se mantendo com esse dinheiro.
Associações de estudantes têm se mobilizado para viabilizar maneiras de pressionar o governo a reduzir ou isentar os alunos de mensalidades.
 
Até agora, porém, as cobranças seguem normalmente, embora algumas instituições tenham oferecido alternativas.
Rafael Firpo, presidente da Apeb (Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra), diz que a Covid-19 impactou bastante os alunos estrangeiros.
 
“O estudante internacional está sempre com os amigos. E uma das medidas de prevenção foi justamente o distanciamento social”, afirma. “Então, além de estar longe de casa, ele teve de se distanciar das pessoas queridas. É um impacto na saúde mental.”
 
Segundo Firpo, ainda não há números sobre o impacto, mas já há registros de alunos que voltaram ao Brasil e que desistiram de matrículas que estavam encaminhadas.
Para tentar reverter desistências, a Universidade de Coimbra está cobrando só uma mensalidade (cerca de 700 euros, ou R$ 3.979) no ato da matrícula de estudantes internacionais, e não mais três.
 
Para Felippe Vaz, coordenador de assuntos pedagógicos da Apeb, que conduziu uma pesquisa com 205 estudantes brasileiros sobre os impactos da pandemia, o resultado do levantamento é alarmante.
 
“Cerca de 60% disseram que a crise pode fazer com que seja preciso abandonar os estudos em Portugal. Apenas 14% disseram que continuariam estudando em Portugal independentemente da crise. Já estamos vendo isso na prática.”
 
Nos últimos anos, muitas universidades portuguesas têm investido na atração de estudantes brasileiros, que já representam quase 30% dos alunos internacionais do ensino superior do país.
 
Uma alteração legislativa de 2014 permitiu que as instituições públicas cobrem preços distintos para quem não é da União Europeia. Em alguns casos, um brasileiro paga até sete vezes o valor pago por um português pelo mesmo curso.
 
De olho nesse mercado, e tendo em conta o adiamento do Enem – 50 universidades lusas aceitam o exame -, muitas universidades portuguesas optaram por ampliar o período de inscrições para estudantes internacionais.
 
Para os já matriculados, algumas também criaram formas de apoio. A Universidade do Algarve, no sul do país, criou uma linha emergencial e forneceu alojamento e refeições para os estudantes. Cerca de cem alunos brasileiros já se beneficiaram do programa.
 
A de Coimbra diz ter criado um apoio de contingência a estudantes “que estejam sem meios para prover as necessidades básicas de alojamento, saúde e alimentação”.
 
No primeiro trimestre, havia 17.300 brasileiros no ensino superior de Portugal.

Fonte: Agencia Brasil