Todos os poderes do alho

O alho é procurado pela maravilhosa capacidade de saborizar alimentos e pelos  poderes terapêuticos há mais de quatro mil anos. Valia peso de ouro do Antigo Egito, podendo até ser moeda para compra e venda de escravos. Mas não só isso. Até o século 18, os povos da Sibéria pagavam seus impostos com o bulbo Allium sativum. Tantos são os poderes curativos que dias atrás às suas qualidades  foi atribuída a cura da covid-19. Bem que se queria, mas é  pura balela.

Perigosa, a fake news foi combatida pelo  Centro de Inovação em Biodiversidade e Saúde de Farmanguinhos/Fiocruz, que se pronunciou sobre o assunto: “Esclarecemos que os estudos e documentos oficiais apontam que o alho possui propriedades farmacológicas, com potencial terapêutico, contra alguns tipos de vírus de síndromes respiratórias comuns, mas NADA foi constatado até o momento a respeito de possível proteção contra o novo coronavírus  ou o desenvolvimento da covid-19.” 

Dois dentes de alho fresco por dia é o consumo recomen- dado para  os benefícios terapêuticos da leguminosa

Feito o esclarecimento, vamos ao que interessa. Tanto a Fiocruz, quanto a OMS, reconhecem através de estudos divulgados que o alho possui, sim, qualidade antiviral, capaz de atuar no tratamento nos sintomas de gripes e resfriados. Os fitoterapeutas e nutricionistas apontam ainda para outras propriedades, como o combate da pressão alta ou de infecções, por exemplo.

Alho cru
A nutricionista Clara Dias diz que as propriedades antifúngicas e anti-inflamatórias do alho são muito conhecidas. Mas que ele também tem bom efeito para reduzir a pressão arterial e favorecer a circulação. Mas faz um alerta: o ideal é consumir de 1 a 2 dentes de alho cru por dia, nas refeições. “Cozido, ele perde a totalidade da função. Então, quem não aguentar comer cru, é melhor usar a cápsula de óleo de alho”, ensina. Clara  chama atenção também para quem usa medicamento anticoagulante: “Por favorecer a circulação e aumentar a viscosidade do sangue, o alho deve ser evitado por estes pacientes”.

No Antigo Egito, com 7K de alho podia-se comprar um escravo e, até o séc. 18, os siberianos pagavam impostos com o bulbo

Se você é daqueles que não se incomoda com um bafo de espantar vampiros, outra forma de ingerir a hortaliça crua e aproveitar seus benefícios é preparar uma água de alho: esmague um dente e coloque 200 ml de água. Deixar descansar por algumas horas, e tome uns golinhos dessa água durante o dia.
Nem tudo que o alho toca precisa ter cara de remédio, pelo amor de Deus.

Quer coisa mais gostosa do que um molho pesto bem fresquinho envolvendo uma massa de boa qualidade, cozida al dente? Ou uma maionese caseira, temperada com um dentinho de alho? Da mesma família do alho e da cebola, e por isso contém alicina, o alho poró também vai muito  bem à mesa, consumido tanto cru quanto cozido em ensopados, risotos ou quiches.

O alho, in natura ou em cápsulas de óleo ou extrato seco, ajuda a combater hipertensão, mas pessoas em uso de medicamentos anti-coagulantes não devem exagerar no consumo

Valor nutricional
O alho possui um valor nutricional riquíssimo: é composto de vitaminas (A, B1, B2, B6, C, E), aminoácidos, adenosina, sais minerais (ferro, selênio, enxofre, silício, iodo e cromo), enzimas e compostos biologicamente ativos como a alicina, substância responsável pelo aroma pungente do vegetal.

Na hora de comprar, prefira  cabeças de alho redondas, sem manchas, com dentes firmes. Para preservar por mais tempo e longe do mofo, os bulbos devem ser armazenados em local fresco, seco e levemente arejado.

O ideal é consumir de 1 a 2 dentes de alho cru por dia, nas refeições (foto/Unsplahs)

5 problemas que o alho ajuda a combater

Vírus, fungos e bactérias
O alho possui vários compostos sulfurados, como alicina, aliina e dissulfureto de dialilo, que conferem ação antimicrobiana, inibindo o crescimento e proliferação de bactérias, vírus e fungos. Aliás, ajuda até a eliminar as toxinas e bactérias que afetam a flora intestinal, útil para  tratamento contra  vermes. Era usado com este fim desde os primórdios da civilização egípcia e assim continuou ao redor do mundo, mas foi o cientista francês Louis Pasteur (1822-1895) quem primeiro documentou no mundo Ocidental, em 1858, que o alho elimina bactérias.

Certos tipos de câncer
Com potente ação antioxidante que previne a formação de radicais livres e protegem as células, o alho ajuda a estimular  enzimas que desintoxicam o organismo de agentes que causam certos tipos de câncer, como o colorretal, de próstata, bexiga e no tecido estomacal. O efeito protetor do bulbo aparece no American Institute for Cancer Research (aicr.org), que divulga até receitas com alho. Neste caso, segundo o instituto, o principal benefício está na alicina, que consegue retardar ou impedir a formação de tumores.

Doenças do coração
A boa reputação do alimento também deriva do poder de reduzir a pressão arterial ao estimular a dilatação das artérias. Além disso, combate o colesterol ‘ruim’ e os triglicerídeos no sangue. Na prática, sua ação diminui a capacidade de coagulação do sangue, tornando a agregação de plaquetas mais difícil e o sangue mais fino. Por isso, o alho foi apelidado de aspirina natural e também por este motivo deve ser consumido com cuidado por quem consome medicamentos anticoagulantes.

Doenças do cérebro 
Devido à ação antioxidante e anti-inflamatória proporcionada pela alicina e pelo enxofre, e por causa do teor em selênio e colina, o consumo frequente de alho ajuda a proteger as células do cérebro e a diminuir os danos causados pelos radicais livres, que estão envolvidos no surgimento de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e demência. Por isso, o alho é um alimento com grande potencial para melhorar a memória e promover o aprendizado.

Toxinas do fígado
O alho promove a limpeza no órgão, ajudando a eliminar toxinas hepáticas. Isso porque, além da alicina, ele também tem altas quantidades de selênio, que reforça esse trabalho. Segundo estudos, para atingir esse resultado, o ideal é que seja fresco. Se for refogado, é importante não deixá-lo queimar para não perder as propriedades nutricionais.
 

Fonte: Correio