Coronavírus: com 43,3 mil mortes, Brasil completa um mês sem ministro da Saúde

Na maior pandemia a atingir o país em um século, que soma mais de 43,3 mil mortes e 867 mil casos confirmados de Covid-19, o Brasil completa, nesta segunda-feira (15), um mês sem ministro da Saúde. 

O general Eduardo Pazuello, que assumiu interinamente o comando da pasta após demissão do ex-ministro Nelson Teich no último 15 de maio, está, praticamente, há mais dias no cargo do que ficou o oncologista. 

Situação que, segundo afirmou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em encontro com trabalhadores em Brasília há algumas semanas, não deve mudar. “Vai ficar por muito tempo (no cargo). É um bom gestor”, disse o chefe do Executivo na época. 

Contudo, nos bastidores, fala-se que o Exército não é favorável à efetivação do general como ministro para que as mortes pelo coronavírus não “caiam no colo” da entidade. 

No tempo em que esteve à frente da pasta, o militar viu o número de casos de coronavírus quase triplicar, indo de 218.823 no dia 15 de maio, para 867.624 no dado mais recente do Ministério da Saúde, divulgado nesse domingo (14). 

O cenário foi ainda mais dramático em relação à quantidade de mortos, que quase quadruplicou o período – havia 14.817 óbitos causados pela Covid-19 quando Pazuello assumiu o ministério e, agora, há 43.332. 

As baixas no ministério de maior importância durante a crise sanitária, contudo, não se resumem à troca de Teich, ou mesmo à queda de Henrique Mandetta (DEM), que comandou a pasta desde o início da gestão Bolsonaro até abril deste ano. 

Grande parte dos quadros técnicos indicados do Ministério da Saúde, como o epidemiologista Wanderson Oliveira e João Gabbardo, ex-secretário executivo da pasta, também foram junto aos cabeças da administração.

Os três mantêm uma postura críticas às medidas tomadas pela nova gestão, emitindo recorrentemente opiniões contrárias às defendidas pelo Ministério da Saúde e o Planalto. 

Transparência

Em meio à gestão controversa de Pazuello, que não tem formação em saúde, o principal assunto, porém, não foi o avanço da pandemia no Brasil, mas a transparência. 

Apesar de ter afirmado em sabatina na Câmara dos Deputados na última semana que seu comando no ministério trouxe “portas abertas” à população, o militar foi duramente criticado por sonegar informações durante a pandemia.

Logo após o Brasil registrar um recorde no número de mortes em 24 horas, com 1.349 óbitos informados no último dia 3, mudanças na divulgação dos boletins epidemiológicos começaram a ocorrer nas redes sociais do Ministério da Saúde.

Antes publicado diariamente, passou a desaparecer dos perfis da pasta. No dia seguinte, quando as mortes em 24h elevaram o máximo novamente no Brasil, com 1.473 óbitos, nada foi publicado nos perfis, novamente. 

Nos textos institucionais encaminhados à imprensa e publicados no site do ministério, o foco passou a ser nos “recuperados”, e mortes só são citadas, em média, no sexto parágrafo. 

Coisa parecida ocorreu no painel de coronavírus da pasta, que passou a dar destaque para o número de pessoas que foram curadas da Covid-19. 

Questionada sobre a mudança na divulgação na época, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde não respondeu à reportagem. Por telefone, assessores apenas disseram que “a demanda está em andamento”. 

Restou, nas contas oficiais da pasta, apenas, o “placar da vida”, criado pela Secretária de Comunicação (Secom) do governo federal, que é, em suma, uma subtração dos “recuperados” no total de casos confirmados de coronavírus no país. 

O horário de divulgação dos dados também foi modificado. Antes às 17h, passou a ser às 19h, que, na realidade, ocorria por volta das 20h e, por fim, às 22h. “Acabou matéria no Jornal Nacional”, disse o presidente Jair Bolsonaro, quando questionado sobre as mudanças. 

Depois disso, com avanço nos números, houve a controvérsia em torno do enxugamento dos dados no boletim epidemiológico divulgado à imprensa e nas informações dispostas no painel do coronavírus, site oficial do governo para informar a situação da pandemia no Brasil. 

Sumiram os dados totais de mortes e casos confirmados no informe e, no portal, gráficos e indicadores importantes foram suprimidos. Após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), contudo, a pasta se viu obrigada a retornar com as publicações anteriores. 

“Recontar os mortos”

Outra polêmica que marca a gestão de Pazuello é o desejo de mudança na forma de contagem dos mortos por coronavírus no Brasil. 

A pedido do presidente Jair Bolsonaro, o Ministério da Saúde pretende informar, apenas os óbitos que ocorreram em 24 horas, e não aqueles que foram registrados nesse período, como é feito em todo o mundo. 

A tensão se escalonou quando Carlos Wizard, empresário a quem seria concedido um cargo no Ministério, afirmou que número de mortes era “fantasioso” e que pasta deveria “recontar” os óbitos. 

Após a repercussão, ele disse, em nota, que desistiu de assumir o posto. “Peço desculpas por qualquer ato ou declaração de minha autoria que tenha sido interpretada como desrespeito aos familiares das vítimas”, escreveu Wizard.

Invasões a hospitais

O ponto máximo de conflito envolvendo a crise sanitária até então ocorreu na última quinta-feira (11), quando o presidente Jair Bolsonaro incitou apoiadores a invadirem hospitais para “verificar” a ocupação de leitos durante transmissão ao vivo no Facebook. 

Isso chegou a ocorrer em alguns Estados, o que fez com que o ministro do STF Gilmar Mendes classificasse, em publicação no Twitter, como “crime” a incitação. 

“Invadir hospitais é crime – estimular também. O Ministério Público (a PGR e os MPs Estaduais) devem atuar imediatamente. É vergonhoso – para não dizer ridículo – que agentes públicos se prestem a alimentar teorias da conspiração, colocando em risco a saúde pública”, publicou o magistrado.

Fonte: Agencia Brasil