Estudante de 12 anos morre em ação da PM no Vale das Pedrinhas; família nega confronto  

Foto: Divulgação

O estudante Micael Silva Santos, 12 anos, foi morto após ser baleado durante ação da Polícia Militar na noite deste domingo (14) no bairro do Vale das Pedrinhas, em Salvador. A PM diz que encontrou o menino caído após confronto com homens armados. Já a família de Micael contesta a versão policial e diz que ele morreu quando tentava se proteger dos agentes, que chegaram atirando.

Segundo nota da PM enviada ao CORREIO, pouco depois das 21h, policiais militares da 40ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/Nordeste de Amaralina) foram acionados pelo Centro Integrado de Comunicação (Cicom) para atender a uma ocorrência de homens armados na Rua Santo André, no Vale das Pedrinhas, quando foram recebidos a tiros.

“Houve troca de tiros e, ao cessar os disparos, os policiais encontraram um menino de 12 anos atingido, que foi socorrido para o Hospital Geral do Estado, onde não resistiu aos ferimentos.  No local onde houve o confronto, a guarnição encontrou ao solo um revólver calibre 38, duas porções de crack e de pasta base para cocaína, 50 pinos de cocaína e 17 trouxas de maconha”, diz trecho da nota. 

Porém, a nota não diz se o menino participou ou não do confronto, tampouco se a arma e as drogas estavam com ele – apenas diz que os objetos aprendidos foram encontrados na rua. Perguntada sobre a falta de clareza na resposta, a PM respondeu que “os questionamentos a respeito da ação serão respondidos pelo procedimento investigatório”. A ocorrência foi registrada na Corregedoria da PM. 

Sob a orientação da Secretaria de Segurança Pública (SSP) e a Polícia Civil (PC), o CORREIO perguntou também à PM se Micael alguma vez foi conduzido à uma delegacia e quais os motivos. Em nota, a PM respondeu que esse tipo de informação não compete à Polícia Militar e reencaminhou a demanda à SSP.

Familia
Para os parentes de Micael, não há dúvida de que ele foi morto pela PM. Eles contam que o menino saiu de casa no Areal, em Santa Cruz, para empinar pipa. “Como ele conhece toda região, no final da tarde, entrou na rua Santo André e ficou conversando com os amigos. Ele não se envolvia com coisas erradas, nunca foi conduzido pela polícia”, contou o pai de Micael, o auxiliar de serviços gerais Maurício dos Santos Menezes. 

O pai disse que, por volta das 18h, policiais chegaram à rua atirando, um comportamento habitual na comunidade.

“Como eles (policiais) só aparecem assim, distribuindo bala para todo mundo, meu filho e os demais correram, natural, pois quem quer receber bala de graça? Ninguém”, disse o pai.

Maurício relatou que Micael corria da saraivada de tiros quando foi atingido no pescoço e acabou entrando numa casa para pedir ajuda. ”Todo mundo viu a hora que meu filho foi atingido. Uns disseram que um dos policiais chegou a mirar nele. Meu filho foi tirado pelos policias de uma casa onde foi pedir socorro já morto. Antes de jogaram o corpo dele na viatura como um animal abatido, exibiram o corpo dele como um troféu”, desabafou o pai do menino. 

O CORREIO ouviu também moradores da Rua Santo André que confirmam a versão do pai de Micael. “Um grupo de policiais baleou uma criança, que ainda saiu correndo pedindo socorro. A criança entrou numa casa, mas foi retirada pelos PMs que a jogaram na viatura. Um absurdo! Até quando vamos ter policiais despreparados que entram na favela atirando e matando as nossas crianças?”, disse uma mulher, indignada.

Hiperatividade
Segundo parentes, Micael estudava o 4º ano na Escola Municipal Teodoro Sampaio, bairro de Santa Cruz. Ele era o quarto de seis irmãos. O menino era hiperativo e tinha acompanhamento psicológico no Centro de Referência da Assistência Social  (Cras) do Nordeste de Amaralina – uma unidade pública que atua com famílias e indivíduos em seu contexto comunitário visando a orientação e fortalecimento do convívio sócio-familiar.

O Cras atende famílias que, em decorrência da pobreza, estão vulneráveis, privadas de renda e do acesso a serviços públicos, com vínculos afetivos frágeis, discriminadas por questões de gênero, idade, etnia, deficiência entre outras. 

Micael estava sem tomar os remédios, pois o pai está desempregado. “A situação dele piorou com a questão da pandemia. Ele não conseguiu ficar parado em casa. Ele era muito hiperativo. Ninguém conseguia contê-lo”, disse Maurício, pai do menino. Ele disse que a mãe levava e buscava o filho na escola. “Ela tinha medo que ele saísse e não voltasse mais por conta da agitação”, disse pai

Cedeca
Ao tomar conhecimento do ocorrido, o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Yves de Roussan (Cedeca), criado em 1991 para atuar no enfrentamento de casos violentos praticados contra menores de 18 anos, se posicionou em relação à atuação da PM. 

“Trata-se de mais fato perpetrado por uma Polícia Militar treinada para tomar a população civil como inimiga. Na instituição, acolhemos o caso do Menino Joel (Nordeste de Amaralina), da menina Mirella (Baixa da Goméa), entre tantos outros, que se somam àqueles do movimento Black Lives Matter que, criado nos Estados Unidos, tornou-se mundial”, declarou o integrante do setor jurídico do Cedeca, o advogado Maurício Freire. 

Black Lives Matter é um movimento ativista internacional, com origem na comunidade Afro-americana, que faz uma campanha contra a violência direcionada as pessoas negras, fundado em 13 de junho de 2013. O BLM regularmente organiza protestos em torno de mortes de negros causadas por policiais, e questões mais amplas de discriminação racial, brutalidade policial e a desigualdade racial no sistema de justiça criminal dos Estados Unidos.

“A sociedade aguarda a pronta apuração do fato tanto pela Corregedoria da PM quanto pelo DHPP da Polícia Civil para que os policiais envolvidos sejam responsabilizados pela Justiça”, finalizou Freire. 
 

Fonte: Correio