Rombo no bolso: lojas de roupas têm queda de 65% nas vendas

Enfrentar a pandemia não é uma tarefa fácil para ninguém e para alguns setores do comércio, a sobrevivência se torna praticamente impossível. Lojas de setores considerados não-essenciais precisaram abaixar as portas para ajudar na luta para a contenção ao vírus. O motivo é compreensível, mas as contas seguem chegando e isso gera dor de cabeça para lojistas e funcionários, que têm seus empregos comprometidos.

As vendas no varejo baiano no mês de abril registraram a maior queda dos últimos 20 anos – a maior de toda a série histórica, iniciada em 2000. Os números foram divulgados nesta terça-feira (16) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e mostram que o resultado é ruim tanto se comparado com o mês de março deste ano (-17,4%), quanto em relação ao mês de abril do ano passado (-25,4%). A queda é maior do que a média nacional, que foi de 16,8% em relação a março passado.

Na Bahia, as vendas caíram em sete das oito atividades do varejo pesquisadas. Com a terceira maior queda nas vendas em abril (-64,9%), o segmento de tecidos, vestuário e calçados foi, mais uma vez, o que mais contribuiu para o tombo histórico do varejo na Bahia.

Loja na Avenida Sete abre mesmo com decreto de fechamento do comércio não-essencial (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Em Feira de Santana, a empresa que Anderson Farias toca junto aos seus pais está sentindo muitas dificuldades para se manter. A família trabalha no ramo de vestuário há mais de 20 anos e nunca passou uma crise como a atual.

Para tentar equilibrar as contas, o trio investiu em fazer máscaras para entrega a domicílio, mas nem isso conseguiu amortizar a queda de 90% nas vendas.

Segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia (Fecomércio-BA), o varejo baiano teve prejuízo de R$1,74 bilhão no mês de abriu: o pior resultado para o setor desde 2006.

“De fato, com o aumento do desemprego, retração da renda e do isolamento social, as famílias fizeram as compras essenciais, do dia a dia, buscando produtos com descontos para tentar manter a mesma qualidade da cesta de compras que faziam anteriormente”, explica o consultor econômico da Fecomércio-BA, Guilherme Dietze.

Ainda de acordo com Dietze, o segmento de vestuários tem mais dificuldade de atrair consumo de forma virtual porque em geral os clinetes gostam de provar, pagar e levar os produtos na hora. Além disso, a maior agilidade de troca é algo que pesa a favor das vendas físicas e “na compra pela internet esse processo é mais complicado”.

Impacto
A segunda principal influência no resultado geral das vendas no estado veio do segmento de outros artigos de uso pessoal e doméstico (-62,0%). A atividade engloba parte representativa dos grandes sites de comércio on-line. 

Apenas as vendas de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (0,8%) tiveram variação positiva, a segunda seguida no ano de 2020.

Comércio de sapatos também sofreu queda brusca em 2020 (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Analista de dados do IBGE, Mariana Viveiros aponta que a queda no comércio tem impactos diretos na economia baiana, que tem nesse setor uma das principais fontes empregadoras do estado.

“O comércio é um grande empregador. Não paga altos salários e tem muitos empregados informais, mas emprega no volume e é a válvula de escape para uma série de produtos da indústria de transformação, por exemplo. Se não há lojas abertas para escoar a produção, há um impacto na indústria que fabrica esses produtos e gera uma reação em cadeia”, explica.

A analista também explica que as medidas de fechamento do comércio são necessárias para combater a pandemia. Além disso, também pondera que o comércio vinha sofrendo algumas quedas antes mesmo do coronavírus e isso se explica pela diminuição do poder de compra das pessoas. Portanto, apesar de ser um fator determinante, o coronavírus não é o único responsável pela queda histórica.

As maiores retrações nas vendas vieram dos segmentos de Livros, jornais, revistas e papelaria (-81,4%) e Equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação (-69,0%). Apesar de terem relativamente pouca influência no desempenho geral do comércio baiano, são atividades que vêm com resultados negativos há bastante tempo e aprofundaram de forma significativa as quedas em março e abril, diz o IBGE.

Dos sete segmentos com recuos nas vendas em abril, na Bahia, seis tiveram suas quedas recordes em 20 anos. A única exceção ficou com os artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (-11,4%), que mostraram o recuo menos intenso.

Com o resultado de abril, a queda acumulada no ano nas venda do varejo chegou a 8,3%, também maior do que o acumulado no mesmo período de 2019. Os resultados também são piores do que os nacionais (-3%).

Todo esse contexto negativo faz com que muitos comerciantes encerrem suas atividades. Segundo a Junta Comercial da Bahia, ao longo dos quatro primeiros meses foram encerradas 4.096 empresas no ramo comercial, representando 53% do total. Somente nos meses de abril e maio, foram pouco mais de mil.

É importante ressaltar que o processo de fechamento não é tão fácil e rápido no país. Dietze ainda relatou que as lojas com portas fechadas no comércio hoje podem representar uma parcela que está adotando esta estratégia para sobreviver.

“Ou seja, diante de uma baixa demanda, os custos de uma abertura seriam superiores a receita do dia. Portanto, muitos empresários estão esperando uma volta mais firme deste consumidor para voltar as atividades”, explica.

O que é varejo?
Varejo, comércio varejista, vendas para o consumidor final são expressões equivalentes para se referir a setores do comércio que tem por objetivo vender diretamente para os consumidores finais. É diferente da venda por atacado, que acontece em quantidade maior e normalmente tem como público as lojas que farão o comércio para o consumidor final.

*com supervisão da subeditora Clarissa Pacheco

Fonte: Correio