Há 50 anos, Brasil encantava o mundo e conquistava o tri no México

“A seleção canarinho. Tricampeão do mundo inteiro. Não há ninguém que resista. O esquadrão brasileiro”. O trecho da música ‘O caneco é nosso’, de Teixeirinha, descreve bem a força e o talento exibidos pela Seleção Brasileira durante a Copa do Mundo de 1970.

Foi no dia 21 de junho, há 50 anos, que o lotado estádio Azteca (107.412 pessoas), na Cidade do México, assistiu maravilhado ao time verde e amarelo coroar uma campanha praticamente perfeita e golear a Itália por 4×1 para se tornar o primeiro tricampeão do mundo em uma das partidas mais célebres da história do futebol. 

Sob o comando do ‘Velho Lobo’ Mário Jorge Zagallo, a Seleção conseguiu reunir no México o que o futebol brasileiro tem como essência mais pura: o talento. Pelé, Tostão, Carlos Alberto Torres, Gérson, Jairzinho, Clodoaldo, Rivellino… lendas que até hoje pairam no imaginário do amante do futebol e que deram o tom daquela equipe.

“Era fácil jogar naquele time. Não à toa é, até hoje, considerada a maior Seleção de todos os tempos. Quando você joga com quem pensa igual a você as coisas se tornam mais fáceis, pois a margem de erro fica muito menor. O Pelé não errava, Tostão não errava, Jairzinho não errava, Gérson não errava… Todos eram craques. Então, ninguém teve dificuldade para jogar naquele time, pelo contrário”, lembra Rivellino em entrevista ao site da CBF.

Além do tri, a vitória sobre os italianos selou a última participação de Pelé em mundiais – único jogador na história a conquistar a Copa do Mundo três vezes -, e deu ao Brasil a posse definitiva da taça Jules Rimet, troféu entregue ao campeão desde a primeira edição do Mundial, em 1930, e que foi roubada da sede da CBF, no Rio de Janeiro, em 1983, e depois derretida em um dos episódios mais controversos da história do nosso futebol.

Anos de chumbo
Ao falar da conquista do tricampeonato mundial, é preciso entender o contexto da época. O Brasil vivia o momento mais sangrento da ditadura militar, instalada em 1964, e dois anos antes, em 1968, havia sido decretado o Ato Constitucional 5 (AI-5), que resultou em atitudes como fechamento do Congresso, censura, perseguições políticas e torturas.

Nesse processo, os militares enxergavam na Seleção Brasileira um importante instrumento de marketing, e o título da Copa do Mundo daria uma momentânea sensação de tranquilidade. Considerado um ‘problema’ por ser militante político, o técnico João Saldanha, responsável por classificar o Brasil para o Mundial, foi afastado do cargo menos de três meses antes do início da Copa e deu lugar a Zagallo.

Mesmo com a intromissão através da CBD, antiga CBF, a Seleção Brasileira desembarcou no México com o objetivo de dar a volta por cima após fracassar e ser eliminada ainda na primeira fase da Copa de 1966, disputada na Inglaterra.

Com um time que reunia cinco camisas 10 em sua escalação (Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson e Jairzinho), o Brasil iniciou a Copa de forma arrasadora ao golear a Checoslováquia por 4×1. Na primeira fase, passou ainda por Inglaterra (1×0) e Romênia (3×2), classificando-se em primeiro lugar na chave.

“Foi a primeira Seleção no mundo a jogar com cinco números 10 e é, até hoje, uma grande referência ofensiva. Quem conseguiu introduzir isso foi o nosso maravilhoso treinador, Mário Jorge Lobo Zagallo, que soube nos posicionar e nós fomos nos desenvolvendo. Conseguimos através da nossa inteligência de saber jogar e praticando o futebol como ele deve ser jogado”, recorda Jairzinho.

O Brasil venceu o Peru por 4×2 nas quartas de final, bateu o Uruguai por 3×1 na semifinal e se credenciou para jogar a final. Na decisão, Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres marcaram os gols diante dos italianos. Boninsegna descontou para os europeus: 4×1 no placar. 

Tostão controla a bola e é observado de perto por Pelé na final diante da Itália (Foto: Reprodução)

A partida foi a cereja do bolo brasileiro, que ainda viu Pelé ser eleito o melhor jogador do Mundial. Autor de gols em todas as partidas da Copa (sete em seis jogos), Jairzinho terminou como artilheiro do Brasil e passou a ser chamado de “Furacão”. Já ao capitão Carlos Alberto Torres coube a honra de erguer a Jules Rimet em mais um capítulo escrito pela Seleção.

Campanha da Seleção Brasileira: 

Primeira fase
3/6 – Brasil 4×1 Checoslováquia 
7/6 – Brasil 1×0 Inglaterra 
10/6 – Brasil 3×2 Romênia 

Quartas de final
14/6 – Brasil 4×2 Peru 

Semifinal
17/6 – Brasil 3×1 Uruguai 

Final
21/6 – Brasil 4×1 Itália

Ficha da final: Brasil 4×1 Itália

Brasil: Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino. Técnico: Zagallo.

Itália: Albertosi; Burgnich, Cera, Rosato e Facchetti; Bertini (Giuliano), Mazzola e De Sisti; Domenghini, Boninsegna (Rivera) e Riva. Técnico: Ferruccio Valcareggi.

Gols: Pelé, aos 18, e Boninsegna, aos 37 minutos do 1º tempo. Gérson, aos 21, Jairzinho, aos 26, e Carlos Alberto, aos 42 minutos do 2º tempo.
Cartões amarelos: Rivellino (Brasil) e Burgnich (Itália)
Público: 107.412 pessoas
Local: Estádio Azteca, na Cidade do México.

Fonte: Correio