Pedro Henriques explica saída do Bahia e analisa cenário do futebol

Os últimos cinco anos de Pedro Henriques foram dedicados ao Bahia. No tricolor, ele foi de vice-presidente durante a gestão de Marcelo Sant’Ana (2015-2017) a diretor executivo até março deste ano, no mandato de Guilherme Bellintani. No período, tocou projetos importantes para o clube, como a criação da marca própria de uniformes Esquadrão e a reforma e entrega da Cidade Tricolor. 

Eleito melhor CEO do futebol brasileiro em 2019 pela Conferência Nacional de Futebol (Conafut), Pedro Henriques bateu um papo com o CORREIO e falou sobre a sua passagem pelo Bahia, os motivos que o fizeram deixar o clube, analisou o cenário do futebol brasileiro durante a pandemia do novo coronavírus e revelou se pretende disputar o cargo de presidente do Bahia no final do ano. Confira: 

O cargo de CEO, ou diretor executivo, é relativamente novo no futebol brasileiro. Qual o principal papel de um CEO em um clube?
Varia de clube para clube porque depende da estrutura. A maioria dos clubes tem um presidente e vários vices ou superintendentes que são profissionais normalmente abnegados: sem remuneração e sem carga horária fixa. Nesse contexto é ainda mais importante a figura do CEO ou diretor executivo, que é a pessoa que deve implementar no dia a dia as ações para atingir os objetivos estratégicos definidos pela diretoria.

No Bahia a situação é diferente porque presidente e vice são remunerados e devem dedicação exclusiva ao clube. A atual diretoria fez um plano de ações no qual se atribuíram a diversos funcionários responsabilidades por projetos. Eu, Guilherme (Bellintani, presidente), Vitor (Ferraz, vice-presidente) e Diego (Cerri, diretor de futebol) supervisionávamos essas ações. Entre essas eu supervisionei, por exemplo, o desenvolvimento da marca própria.

Qual a diferença para o cargo de vice-presidente, por exemplo?
No caso do Bahia, a diferença é que como CEO eu tive mais contato com a parte operacional. Por exemplo: como vice-presidente viajava para representações institucionais; como diretor acompanhava mais o andamento de projetos. Fui visitar a fábrica que contratamos no Paraná, as coisas da reforma da Cidade Tricolor, área de engenharia. Saí de uma posição de definição de estratégia para uma parte mais executiva de fazer os projetos se realizarem.

Um dos projetos que você tocou como diretor foi a reforma da Cidade Tricolor. Quais foram os maiores desafios para viabilizar o CT?
Quando a gente assumiu (2015), o grande problema inicial era garantir a propriedade do clube. Tínhamos um acordo com a OAS fechado na gestão de Schmidt e havia um temor de não cumprir esse acordo porque pouco antes havia estourado a Operação Lava Jato. Nós entramos com uma ação cautelar para impedir qualquer movimentação nesse imóvel. Felizmente a gente conseguiu. A partir daí o grande problema da mudança era financeiro. O projeto era bom, mas o desafio do Bahia era fluxo de caixa, pagar as contas no fim do mês e ainda manter aquele patrimônio.

O desafio foi fazer as obras acontecerem com a limitação do fluxo de caixa. Se a gente tivesse dinheiro, teríamos entregado o CT antes. Fizemos uma análise com o clube de que não era viável mudar no meio de uma temporada e deixamos para o final do ano. Assim tivemos um respiro financeiro.

Qual o ganho que você imagina que o Bahia pode ter nos próximos anos com a Cidade Tricolor?
A Cidade Tricolor muda o Bahia de patamar. Todo esse processo democrático teve fases claras. O de Fernando Schmidt era um momento de transparência, de ter regras. Os estatutos foram criados, ainda que a gente não teve ganhos financeiros, tivemos essa transparência. Na gestão de Marcelo (Sant’Ana) foi um choque de gestão. Fizemos a mudança administrativa no clube, o fim dos profissionais abnegados, nada contra eles, mas era necessário esse choque. Não poderíamos ter vice-presidentes não remunerados. Conseguimos ter um controle mais firme no financeiro.

Com Guilherme (Bellintani), o clube pode começar a alçar voos maiores. Para isso, é preciso ter estrutura. O Bahia não pode pagar os melhores salários, mas pode produzir atletas com capacidade. A Cidade Tricolor tem três campos, um projeto de campo sintético, aumenta a chance de desenvolvimento qualificado. Isso também se aplica ao profissional, no futuro gera economia ao clube. Quando o Bahia jogava em Salvador, se hospedava em hotel, mas hoje tem a mesma estrutura de hotel no CT. A longo prazo isso gera um círculo virtuoso do dinheiro. Na primeira fase da democracia o Bahia recuperou a credibilidade, hoje o Bahia ganha contratações de clubes do eixo, e agora tem estrutura para dar um grande salto de patamar.  

Quando você assumiu o cargo de CEO do Bahia, em fevereiro de 2018, houve pessoas que falaram que seria um arranjo apenas político. Como você recebeu essas críticas? O que houve de fato?
Algumas pessoas já tinham implicância política – e porque eu tenho personalidade assertiva e não fujo de embate para defender o clube -, gerou atrito e isso é natural. Quando eu disse que não seria candidato, Guilherme me chamou para ser vice-presidente e eu disse que não queria. Tinha a pretensão de finalizar alguns projetos e, se eu não fosse continuar na parte política, tinha essa vontade de estar no clube, mas não estava disposto aos desgastes que eram colocados. Quando surgiu essa possibilidade de voltar como diretor executivo, com uma exposição menor e podendo ajudar na Cidade Tricolor e outros projetos, achei que valeria a pena, independente das críticas, pois, pra mim, o que vale é deitar e colocar a cabeça no travesseiro de forma tranquila sabendo que ajudei o meu clube de coração. Deixei claro que, se isso prejudicasse a gestão, eu não faria nenhum movimento de dizer que queria (retornar).

As críticas pesaram para você sair? E por que tomou essa decisão?
Eu acho que ninguém tem que ter pretensão de se eternizar no clube. Eu dei uma contribuição. Se tivesse saído em 2017, teria saído de forma positiva. Desde o ano passado já havia conversado que, após a entrega da Cidade Tricolor, iria sair. Por mais que seja o clube do coração, por gostar de trabalhar no Bahia, todos esses cinco anos geram desgastes, natural. Eu também tive que me adaptar, foi um aprendizado grande. Aprendi muito com Guilherme, com Vitor, mas com todo esse aprendizado você quer ter outros tipos de desafios, de desgastes, e eu achei que seria um bom momento para sair, após a finalização do meu principal projeto e por entender que a gestão do Bahia está em outro patamar.

Nos últimos anos o Bahia tem conquistado ganhos administrativos expressivos, mas a divisão de base ainda deixa a desejar. Você acha que esse setor é o Calcanhar de Aquiles do clube?
Sim. É um débito de todo período democrático em minha opinião. Sabendo, claro, que cada momento teve sua dificuldade maior para fazer mudanças nesse departamento. Inclusive esse foi um ponto que quase me fez desistir de sair, porque Guilherme mencionou que eu poderia me aproximar mais da base, pois era um departamento que precisava ser priorizado.

Acho que a base não é só uma questão de investimento. É de política de clube. Nesse aspecto vejo o Athletico Paranaense como referência. Foram os primeiros a jogar estadual com time sub-23 muito antes de se falar de Brasileiro de aspirantes, isso ajuda na maturação final dos garotos. Eles revelam jogadores, aproveitam no elenco principal e vendem bem para o exterior.

Recentemente você foi premiado pela Conafut como o melhor executivo de 2019. Encara esse reconhecimento como uma resposta aos críticos?
Talvez eles tenham encarado como resposta. Eu fiquei muito feliz pela premiação, mas vejo mais como o reconhecimento de um trabalho que foi desenvolvido não só por mim, mas por todo esse processo democrático. Se o diretor executivo teve um destaque foi porque toda a equipe que esteve no Bahia trabalhou pra caramba e deixou as entregas de alta relevância para 2020. Eu pude dar a minha contribuição e fui reconhecido, mas não me preocupo em dar respostas para críticos ou apoiadores. O importante é o que deixamos de legado.

Pretende continuar no futebol?
Eu até brinquei quando resolvi sair que, em todos os momentos da vida, eu sempre encerrei os projetos quando achei que era a hora, mesmo sem ter nada engatilhado. Meu plano era tirar férias com a família, mas logo depois estourou a pandemia… Tive conversas com dois clubes, um de Série A, outro de Série B. Não avançamos ainda, estamos sem pressa. Eu gosto desse meio, tenho feito trabalho de mentorias com algumas pessoas, mas estou tranquilo, calmo, esperando o projeto certo. Essa premiação é um estímulo, as conversas que eu tenho no mercado são positivas, mas como tenho os meus negócios, não estou com pressa. Mas quero sim voltar ao futebol. Nota da redação: ele é sócio de um escritório de advocacia.

Vivemos um momento diferente por causa da pandemia. Como executivo, como enxerga o comportamento do futebol brasileiro nesse turbilhão? Acha que muita coisa vai mudar?
Me parece que vai ter uma chacoalhada grande com os clubes, governo e CBF. Os clubes estão atrás de verba, sem um auxílio vai ser difícil. Ao que parece os clubes não estão tão satisfeitos com a conduta da CBF nessa pandemia, talvez ocorra, enfim, a liga de clubes, isso sim seria uma mudança de chave grande de acontecer. Eu torço para que isso aconteça.

Na parte dos clubes, a busca por profissionalização, entender que eles são produtores de conteúdo além das quatro linhas. É preciso buscar outras formas de engajar os torcedores que não vão poder ir para o estádio. O que o futebol nordestino sofreu com o carioca e o paulista no período em que só se transmitiam jogos de Rio e São Paulo, o futebol brasileiro vai sofrer com o futebol europeu. O Athletico Paranaense, por exemplo, lançou uma plataforma digital, o Bahia tem um projeto. Os clubes precisam aprender a entender esse novo mercado.  

Em sua opinião, após a pandemia vai existir uma nova ordem no futebol brasileiro, com clubes que fazem um trabalho sólido financeiramente, como Bahia, Fortaleza e Athletico-PR assumindo novas posições?
Essa mudança já estava ocorrendo. Essa conversa de G12 é balela. Eu não acho que algum clube vai ganhar nessa crise, mas quem estiver estabilizado, quem não estiver devendo salário, parte na frente. O futebol é uma competição financeira. E é comparativo. Vai todo mundo perder, mas se um time perder menos, recorta a distância. Por exemplo: o orçamento do Vasco é 100 e o do Bahia, 70 (números fictícios). Se o Vasco perder 25 e o Bahia 10, a distância entre eles diminui de 30 pra 15. Isso faz diferença.

Acredito que algumas mudanças podem acontecer e temos times organizados como Ceará, Fortaleza, Bahia, Goiás, Athletico… Há o caso do Red Bull, que já era promissor. Fez parceria com o Bragantino, que não tinha dívida tão grande, e estava fazendo investimentos interessantes. Se já era um projeto promissor antes da pandemia, agora fica mais ainda, pois deve passar bem pela crise. Isso no aspecto financeiro, claro.

Em dezembro o Bahia passará por novas eleições. Você concorreria à presidência do clube?
Saí do clube pensando em tirar férias e ter novos desafios. Não faço movimentos políticos nesse sentido (de ser presidente). Independente disso, sou Bahia e isso não vai mudar mesmo que esteja trabalhando em outro lugar. Se precisarem de mim, não vou me omitir, mas acredito que a tendência é de reeleição de Guilherme, apesar de não ter conversado com ele sobre isso. E o mais importante, no fim das contas, é a continuidade do processo democrático e de profissionalização do clube.

Fonte: Correio