Quando as formas de protesto contra a inércia do governo federal no controle da pandemia pareciam esgotadas, uma igreja no bairro de Água de Meninos resolveu adotar e incentivar votos de silêncio em respeito às vítimas fatais da covid-19. Há cerca de duas semanas, a campanha vem promovendo orações silenciosas em casa e nas escadarias da Igreja Santíssima Trindade para expressar solidariedade às famílias dos mortos.

Idealizada pelo responsável da Comunidade da Trindade, Henrique Peregrino, a ideia quer levar adiante o sentido de que o silêncio não só é capaz de dizer muito, como também de fazer ecoar a dor.

“A gente ficou desamparado. Já fizemos abaixo-assinados, manifestos, mas parece não ser suficiente. Diante da ineficiência do governo, do poder executivo de Brasília, tivemos a ideia dessa ação pública para fazer propagar a nossa dor e denunciar a omissão”, explica Peregrino.

A igreja lançou um convite à sociedade para que reflita sobre as vidas perdidas para o vírus. Peregrino pede que as pessoas orem mentalmente e façam cartazes exprimindo seus sentimentos com a hashtag #silenciopelador. No Instagram, a campanha já conta com mais de 100 participações.

“Nosso silêncio é um ato político. É uma maneira de agregar a todas as outras maneiras e mostrar respeito pela vida do próximo. As pessoas estão perdendo as vidas porque o poder executivo não toma as decisões que a ciência diz que precisariam ser tomadas para conter o vírus”, acrescenta ele.

Na igreja em Água de Meninos, na região da Avenida Jequitaia, os organizadores montaram um toldo para que as pessoas da comunidade possam se revezar e rezar embaixo por cerca de 1h todos os dias, das 6h às 18h. A cada hora, alguém assume a presença silenciosa e oracional. Foi colocado no local um banner com dados diários de casos confirmados e mortes pela doença no Brasil.

Painel instalado na igreja exibe dados da covid-19 no Brasil (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

De acordo com a moradora da Comunidade da Trindade, Juci de Souza, de 54 anos, que participa presencialmente nas escadarias da Igreja, sempre das 16h às 18h, é uma experiência única porque, segundo ela, antes da pandemia, já refletia sobre o acúmulo de informações, a rotina dos seres humanos e o barulho de trânsito da cidade, já que muita gente não está cumprindo o isolamento social. 

“Eu vivo essa experiência para silenciar esse barulho que vem como uma resposta de toda a situação e sentir que, mesmo diante disso, eu posso entrar em comunhão e em sintonia com todos os gritos e dor que assolam o mundo. Você saber que 50 mil vidas já se foram, e ter isso como algo natural, é não sentir empatia pela dor do outro”, diz.

A campanha tem parceria com a Cáritas Nacional, a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), o Conselho Ecumênico Baiano de Igrejas Cristãs (CEBIC), a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), a Fundação Luterana de Diaconia (FLD), o Centro de Estudos e Ação Social (CEAS) e o Núcleo Apostólico da Companhia de Jesus na Bahia (MAGIS).

A campanha pode ser acompanhada na internet através do Instagram @silenciopelador e também no Facebook, com o mesmo nome.

Fonte: Correio