O final de 2019 indicava um futuro promissor a Larissa Rodrigues,de 24 anos. Recém-formada em Administração, já atuava no ramo de vendas e foi efetivada na empresa, que lhe mandou para Natal – capital do Rio Grande do Norte. Em setembro daquele mesmo ano as coisas começaram a desandar: uma mudança na chefia e veio o desemprego. Ela até conseguiu um outro trabalho em Salvador, mas a startup não se mostrou muito confiável.

Só em 2020, foram mais de 40 processos seletivos. Aí veio a pandemia e piorou ainda mais as coisas. Morando com a mãe, que é do grupo de risco, não tinha como sair e buscar colocação. Larissa se juntou a outros 2,041 milhões de baianos que gostariam de trabalhar, mas não procuraram trabalho em maio por causa da pandemia ou por não haver vagas. O número foi divulgado na Pesquisa Nacional de por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última quarta-feira (24).

Desta vez, a PNAD focou em fazer um levantamento sobre os impactos da covid-19 em território brasileiro. Na Bahia, um total de 2,893 milhões de pessoas tiveram dificuldades de acesso ao mercado de trabalho em decorrência da pandemia. O estado só ficou atrás de São Paulo – que é o mais populoso do país.

Larissa não é a única a passar pelo drama do desemprego em sua casa. Além da mãe, aposentada, a irmã foi demitida logo no início da pandemia e ainda não conseguiu ter o seu auxílio emergencial liberado. A irmã tem uma filha, ainda criança, de quem dá conta sozinha por conta do pai ausente.

“Sempre procurei ser organizada, dar orgulho, trabalhar para ajudar em casa e agora voltei a depender de minha mãe, que ganha uma aposentadoria de menos de R$2 mil. Isso não acontecia desde que eu era adolescente. E é complicado porque não tem perspectiva. No desespero, eu poderia trabalhar com qualquer coisa, mas é impossível. Seria arriscado eu sair na rua pra trabalhar porque minha mãe é grupo de risco e não temos plano de saúde”, conta Larissa.

Larissa fez mais de 40 processos seletivos em 2020 e parou a busca por emprego por conta da pandemia (Foto: Acervo Pessoal)

Analista de dados do IBGE, Mariana Viveiros explica que o mercado de trabalho da Bahia tem dificuldades históricas e costuma sofrer bastante quando os chamados fatores externos acontecem e lhe impactam: crises econômicas globais ou uma pandemia, por exemplo.

“Em relação às pessoas que procuraram, continua com uma taxa alta. E o que surge de novo são as pessoas que nem procuraram por causa da pandemia. Isso faz sentido que porque as empresas e estabelecimentos estão fechados. Além disso há pessoas não querem se expor a procurar trabalho com tão pouca oferta”, diz Mariana.

Serviços
Professor de economia e finanças, Antonio Carvalho pontua que a Bahia tem a 4ª maior população do Brasil, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Contudo, tem um processo de industrialização reduzido quando comparado a esses estados e isso faz com que a economia baiana seja majoritariamente de serviços.

A capital Salvador, por exemplo, vive em torno de turismo, hotelaria, academias, comércio varejista, bares e restaurantes. Setores que estão impedidos de abrir durante as medidas de isolamento social.

“A pandemia é um fator externo à economia, mas que lhe impacta diretamente. E não temos muito claro um horizonte de melhorias dessa situação sanitária. Esse vírus continua com seu processo de expansão mesmo que tomemos medidas de isolamento. A solução é uma vacina, que não temos ainda”, diz o especialista.

A PNAD Covid-19 também apontou que na Bahia, em maio, 4 de cada 10 trabalhadores tiveram redução do rendimento efetivamente recebido. A renda ficou, em média 21,7%, menor que o habitual antes da pandemia. Antonio Carvalho pontua que isso força que as famílias sejam forçadas a priorizar os seus gastos e isso também afeta setores como de indústrias automobilísticas – presentes na Bahia.

“Ninguém vai comprar carro novo agora porque todo o mundo prioriza bens essenciais. A indústria também depende muito do comportamento do mercado internacional, que foi afetado pela pandemia já que ela tem uma escala globalizada”, explica.

No Brasil como um todo, em maio, havia 10,129 milhões de desocupados, e outras 26,294 milhões de pessoas não estavam trabalhando, queriam trabalhar, mas não procuraram emprego em razão da pandemia ou por não haver vagas. No total 36,423 milhões de pessoas foram de alguma forma impactadas na sua busca por trabalho.

Retomada econômica
Superintendente de Desenvolvimento do Trabalho no Estado da Bahia, Mário Gavião afirma que o Estado começou a elaborar um plano de retomada da economia e que isso acontecerá de forma gradual e de formas múltiplas.

No entanto, ele pondera que não dá para fazer um modelo ofensivo de geração de empregos durante a pandemia. Isso demanda, entre outras coisas, investimento em obras públicas, um grande planejamento de gestão de recursos humanos – coisas que não são possíveis de acontecer em um contexto em que o distanciamento social é o recomendado para salvar vidas.

Gavião aponta que, nos últimos três meses, o que o Estado procurou fazer foi atuar com benefícios que possam garantir a sobrevivência dos trabalhadores em suas casas. Por exemplo, o direcionamento dos trabalhos no SineBahia para atender as pessoas que abrem o processo de solicitação do seguro desemprego. 

Essa solicitação aumentou em 97% quando se compara os períodos de maio de 2019 e o mesmo mês deste ano. E a expectativa é de que esse número continue alto nas próximas semanas.

Ainda de acordo com o superintendente, a Secretaria do Trabalho, Renda e Esporte (Setre) montou cursos de qualificação à distância para 600 trabalhadoras e trabalhadores domésticos sem carteira assinada.

“Na plataforma chamada Contrate Bahia, a pessoa vai receber na qualificação profissional, noção na área de saúde e segurança de trabalho para aprender a ofertar o seu trabalho com segurança para ela e para o contratante. Junto a isso, ela recebe uma bolsa com valor que cubra a aquisição de um botijão de gás, uma cesta básica e um pacote de dados para que ele possa acessar a internet e fazer os cursos”, conta.

Por fim, há programas mais amplos pensados para o momento de retomada da economia – algo que ainda está longe dos horizontes oficiais. Um exemplo dado é um programa semelhante ao Contrate Bahia, mas direcionados a jovens egressos do ensino público, uma fatia social que costuma enfrentar dificuldades na hora de se colocar no mercado de trabalho.

*com supervisão da editora Clarissa Pacheco

Fonte: Correio