Quando os humanos saem, os cães fazem a festa. Com menos movimento nas ruas por conta do isolamento na pandemia, um grupo de seis a sete vira-latas tem circulado em Itacimirim ameaçando e atacando moradores. Seria um bando fiscal da pandemia, que ataca quem deixa o isolamento?

Sem medo da carrocinha, o grupo, que começou com três integrantes e varia na cor deles, ainda que predominantemente sejam o ‘clássico’ caramelo, já atacou pelo menos oito pessoas desde o início de março, inclusive duas crianças.  “Tenho casa aqui há 15 anos e nunca houve esse problema”, conta o administrador Mário Bonfim, 57. Incomodados, os proprietários acionaram a Prefeitura de Camaçari, através do Centro de Controle de Zoonoses, e o Ministério Público da Bahia, mas nenhum dos órgãos resolveu a situação até o momento. 

O filho da advogada Júlia Santiago, 38, que tem apenas 7 anos, foi uma das vítimas. “Ele recebeu três mordidas, ficou com as costas e o braço direito ferido, e a roupa toda rasgada. Chegou em casa aos trapos”, conta. O menino estava voltando da praia com a avó, no final de tarde, quando quatro cachorros avançaram em cima dele. 

Segundo a mãe, que não estava presente no episódio, o menino se jogou no chão e ficou agachado, protegendo a cabeça. “Ele está muito traumatizado, todos nós ficamos muito abalados neste dia, com medo de ter acontecido algo mais grave”, disse, preocupada. Depois do ocorrido, há cerca de um mês, o filho de Júlia, que era apaixonado por cachorros, não chega mais perto de nenhum. Da última vez que a família foi a Itacimirim, o garoto não quis nem ir à praia. 

Situação semelhante ocorreu com a administradora Carla Barros, 45, no dia 4 de junho. Enquanto caminhava ouvindo música, por volta das 9h da manhã, seis cachorros a cercaram. “Eles vieram correndo em minha direção, do nada. Fiquei parada, estática. Quando tentei andar, um me mordeu na perna”, relatou. 

A doméstica Selma da Silva, 45, também foi mordida pelo bando enquanto fazia caminhada na praia. “Gritei socorro, mas ninguém me ajudou. Comecei a tremer e vim logo para casa”, contou. Depois do episódio, Selma chegou a ficar com um hematoma na perna por 10 dias. “A sorte foi que eu estava de calça leg, então não conseguiram me morder muito”, explica. “Hoje eu só ando na rua com um porretinho na mão pra poder me defender”, completa a doméstica. 

A empresária Janayra Cerqueira, que tem um village em Itacimirim, presenciou um dos ataques. No final da tarde do dia 11 de junho, Janayra foi à praia com a filha, de 3 anos, e a filha da babá, de 8, quando quatro cachorros vieram em sua direção. “Eles vieram correndo, agressivos. Quando peguei minha filha no colo, eles correram atrás da outra criança e morderam a bunda dela”, relata. “Ficamos desesperadas. Hoje não tenho mais coragem de ir para a praia só”, desabafa Janayra.

Os cachorros tentaram morder o empresário Luiz Neto, 53, no final do mês de abril, enquanto ele fazia sua corrida matinal. Ele conseguiu escapar, mas ficou com um arranhão na perna. “Depois da Rua 3, veio um cachorro e começou a latir. Como era um cachorro só, dei um pontapé no focinho e continuei correndo. Mas apareceram mais três. Então, eu acelerei a corrida, eles conseguiram me dar um arranhão na panturrilha, mas desistiram de me alcançar”, narra o empresário. “Foi assustador, porque se eu caísse ali, eles iam avançar”, desabafa. 

A matilha não descansa. Anda por toda região de Itacimirim, das areias das praias, às ruas de barro e os calçadões de condomínio. Ao que parece não só mordendo gente, como cooptando novos membros para gangue. “O bando aumentou e as pessoas estão caminhando agora na praia com um pedaço de pau. A gente fica apreensivo, porque o número de ocorrências está aumentando”, diz, o aflito Luiz Neto. 

Um morador de Itacimirim, entretanto, defende que essa “matilha” é dócil e que nunca foi agressiva com ele. “Eu sempre via esses cães, já dei comida a eles, inclusive. Eles ficam receosos quando você tenta chegar perto, botam o rabo entre as pernas”, conta Flávio Diniz, 40. A explicação talvez seja interesse da gangue em se dar bem com ele, já que Diniz que é dono de uma loja de congelados na localidade. Quem sabe sobra uma carninha…

Um morador de Itacimirim, entretanto, defende que essa “matilha” é dócil e que nunca foi agressiva com ele. “Eu sempre via esses cães, já dei comida a eles, inclusive. Eles ficam receosos quando você tenta chegar perto, botam o rabo entre as pernas”, conta Flávio Diniz, 40, que é dono de uma loja de congelados na localidade. Flávio conta que se surpreendeu quando ficou sabendo dos ataques e só acreditou porque Carla, que é sua cliente, o telefonou contando o caso. 

Reclamações
Os moradores, através do Conselho Comunitário de Segurança de Itacimirim e Barra do Pojuca, se juntaram para relatar os incidentes à Prefeitura de Camaçari. “Nós procuramos o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) por telefone, formalizamos a queixa por ofício e eles fizeram duas visitas”, contou o presidente do Conselho, Carlos Eduardo da Cunha, 60. Porém, o CCZ informou, segundo Carlos, que existia uma “limitação de atividades” e que não caberia a eles fazer a coleta desses animais. Foi aí que, neste mês de junho, o Conselho acionou o Ministério Público do Estado da Bahia (MP/BA) para que uma providência fosse tomada.

Por meio de nota, o MP/BA informou que a “5ª Promotoria de Justiça de Camaçari enviou ofício à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur) esta semana, solicitando a apuração dos fatos narrados. Segundo o promotor de Justiça Luciano Pitta, a atuação da Prefeitura com relação ao controle dos animais de rua já motivou algumas diligências por parte da Promotoria, que tem tentado obter informações atualizadas inclusive neste período de pandemia”.

Acrescentou ainda que, em junho de 2019, foi ajuizada uma Ação Civil Pública contra o Município de Camaçari “buscando impor à Prefeitura a criação de estudos técnicos para avaliação da situação dos animais na municipalidade, bem como objetivando a criação de política públicas voltadas ao controle destes animais. A ação ainda não foi julgada”.

A médica veterinária Ilka Gonçalves, que é presidente da Comissão de Bem-Estar Animal do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV) conhece o caso dos cães de Itacimirim e disse que é recorrente o abandono de animais na Linha Verde. Além disso, ela explica que quem deveria atuar nesta situação é a Prefeitura de Camaçari. “Animais de rua são um problema de saúde pública. O CCZ tem a obrigação de atuar, mesmo que não tenha lugar para acolher esses cães”, esclarece a médica. Ilka alerta também para os perigos na proliferação de doenças na comunidade pelos cachorros, pois o ambiente pode ficar contaminado por bactérias e verminoses.  

Abrigo
Preocupados com o nível e a recorrência dos ataques, os proprietários das casas dos condomínios de Itacimirim procuraram um abrigo para receber esses cães. Foi feita uma vaquinha entre os moradores – cada um deu R$30 – para financiar os custos de vacina, medicamentos e ração desses animais. Está marcado para este sábado (27) o recolhimento dos cães, que vão ficar no Abrigo Recanto Grandes Amigos de Margareth Brito, em São Sebastião do Passé, município a menos de 100 km da praia de Itacimirim. Margareth já trabalha há mais de 10 anos com o acolhimento de animais em situação de rua e seu abrigo tem hoje cerca de 700 animais, distribuídos em 16 canis. 

O CORREIO entrou em contato com o CCZ e a Prefeitura de Camaçari mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio