A preocupação chegou triplicada na família da enfermeira Marilda Said, 52. Depois que a sobrinha teve contato com colegas de trabalho contaminados pela covid-19, e em seguida com sua família, a moradora do bairro do Imbuí resolveu levar seu marido, Paulo Said, 59, e a filha Alana Maíra, 11, para serem testados na tarde desta quinta (25). 

A data também marcou o início das restrições na região do Imbuí, que tem, neste momento, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, 356 casos da doença. O bairro agora integra a lista com outras dez localidades da cidade que terão medidas restritivas nos próximos dias. 

Segundo Marilda, que mora em uma das transversais da avenida Jorge Amado, que corta o bairro, a aglomeração nas ruas impressiona: ‘Para chegar em casa passamos por essa rua que é bem movimentada. E o tempo todo o povo está na rua, eles só querem saber de beber, ficam em pé na porta dos estabelecimentos sem máscaras conversando e dando risada. Quem tá com a máscara deixa abaixada”, relatou a enfermeira, que também alega que o fim de tarde é sempre o pior horário.

Essa é a mesma impressão que dona Maria Amélia, aposentada de 66 anos, tem do lugar que mora. Já são 40 anos vivendo na região e sempre morou no mesmo lugar, com vista total para a Praça do Imbuí, espaço famoso por abrigar bares, food trucks e quadras de esporte, que sempre dão movimento ao bairro. 

“Parece que não está acontecendo nada. Eu, idosa, diabética e hipertensa, preciso sair toda equipada para comprar algo e não me contaminar, e o pessoal fica saindo para conversar”, explica Maria. A situação fica ainda mais dramática por conta de sua irmã, que passa por um processo de quimioterapia e constantemente apresenta baixa na imunidade. 

Pensando no bem estar dela, os sobrinhos de dona Maria, médicos, se mudaram durante a pandemia, a tempo de não contaminar nenhuma das duas pacientes de risco. “Meus sobrinhos tiveram a covid. Eles trabalham em hospitais como o Couto Maia [referência no tratamento da doença em Salvador], mas já se curaram e voltaram a trabalhar.  

Foto: Marina Silva/CORREIO

O caso é parecido na casa de Marilda, já que o esposo, Paulo, se recupera de um câncer de próstata. Por isso a tarde desta quinta foi de muita apreensão na casa das duas, que, apesar de todos os cuidados que tomam, corriam o risco de uma contaminação. “Aqui sempre lidamos com muita tranquilidade porque somos da área de saúde também, mas numa situação dessa não como não ficar ansiosa”, confessou a enfermeira. Felizmente em nenhuma das duas residências o vírus marcou presença e agora, “todos ficamos muito tranquilos”, completou Marilda ao saber do resultado.

As restrições no Imbuí e também em São Cristóvão, que já registrou 296 casos do vírus até o momento, seguem o mesmo protocolo de todos os outros bairros da cidade que já passaram ou passam por esse processo: apenas o essencial funciona. Isso significa que, até a próxima quarta-feira (1º), os serviços de bares e restaurantes funcionarão apenas no esquema delivery, não permitindo a retirada no local, o que deve diminuir o fluxo de pedestres nas portas dos estabelecimentos, como foi denunciado por Marilda. As atividade de comércio formal ou informal, como feiras de frutas constante vistas por dona Maria, também não funcionam. 

Supermercados, farmácias, padarias, delicatessens, açougues, além de serviços de saúde permanecem funcionando. Para essas duas regiões não haverá interdição no trânsito. As ações de limpeza das calçadas, combate ao Aedes Aegypti e aplicação de testes rápidos serão reforçadas, e fazem parte das medidas aplicadas pelas prefeitura nos bairros durante a pandemia. 

A aplicação de testes aliás, não está sendo tratada pelos moradores do bairro com a importância que deveria. A aposentada lembrou que, enquanto esperava na fila para ser testada, um grupo passou e debochou de quem estava no aguardo do exame. “Eles falavam: ‘olha esse povo todo na fila, eu que não vou ficar aí esperando esse tempo todo’. Eles passavam rindo e sem máscara”, revelou. 

As equipes do Serviço Especializado de Abordagem Social promoveram, no Imbuí, 324 ações de sensibilização de pedestres, 258 entregas de máscaras e três abordagens à população de rua. Já na região de São Cristóvão, foram 254 ações de sensibilização, 50 máscaras entregues e duas abordagens à população.

*Sob orientação de Wladmir Pinheiro

Fonte: Correio