Escrevo na sexta, dia 26 de junho. Há cem dias, foi decretada a quarentena, na Bahia. Eu e minha família aderimos, de forma seríssima e inegociável. São sete pessoas, em três casas, numa mesma chácara, há cem dias. Três gerações envolvidas. Um esforço conjunto e um grande privilégio, sabemos. Há pessoas que não podem se dar ao “luxo” e muita gente que sequer tem casa. O motivo do isolamento é terrível, mil preocupações individuais e coletivas nos atravessam. Há dores diárias, há tristezas profundas. Mas nem tudo é treva e, ontem, ouvindo a fala de um psicanalista, me toquei que podemos (e devemos) também reconhecer os prazeres, as descobertas, os momentos especiais desse tempo que nunca imaginamos viver, mas está aí e é real.

A primeira coisa que eu curti, por exemplo, foi aposentar o despertador. Não ser obrigada a acordar, de segunda a sexta, às 5h30, pra mandar meu filho pro colégio, é algo que nós dois comemoramos, desde o primeiro dia. O aprendizado é que precisamos tentar ajustar, definitivamente, esse horário, “quando isso tudo passar”. Outra coisa que eu gostaria de manter é o hábito das madrugadas bebendo meu vinho e papeando com amigos e amigas, de vários lugares do mundo, em qualquer dia da semana. Nunca estivemos tão próximos, tão conectados. Iniciar uma videochamada, enquanto cozinho, virou rotina gostosa. Cozinhar é um prazer redescoberto, inclusive. Por aqui, não pedimos delivery de comida pronta porque passamos a curtir o processo.

Nem todo mundo tá pirando, “dendicasa”. Mesmo que a casa seja um quarto e não uma chácara. Minha amiga tem poucos metros quadrados e nenhuma varanda, mas da sua “torre de controle” comanda uma empresa, mantendo funcionários também em home office. Além disso, faz pilates e ioga, com aulas online. Eu achava que ela estava louca pra sair, quando escutei exatamente o contrário. Num desses papos da madrugada, me disse que já combinou com a professora de pilates que não volta às aulas presenciais. Além disso, decidiu que não irá mais a mercados e farmácias (pretende manter o delivery) e que gostaria de não precisar mais trabalhar presencialmente. “Quando estiver liberado, só quero sair pra me divertir, encontrar amigos, namorar e nada mais”. Acho que é reconfiguração que fala. Tô na mesmíssima vibe. Salões de beleza e lojas de roupa, inclusive, não sei se voltarão a ver minha cara.

Na minha família, todo mundo faz aniversário entre abril e junho. Pois este foi o primeiro ano, que eu me lembre, em que todos participaram de todas as comemorações. Começando, inclusive, pelos 47 anos de casamento dos meus pais, em 28 de março. Moramos em cidades diferentes, eu já morei em diversos estados e fora do Brasil. Então, estarmos todos juntos foi uma situação, de fato, muito especial. A cada “festa”, um mutirão. Bolos, comidas e a decoração mais linda que meu filho de nove anos já teve em um aniversário. Amor em cada detalhe, nada terceirizado e isso muda o sentido da coisa. Ou o sentido real se manifesta, quem sabe? Leo disse que foi o mais feliz de todos e eu acredito. Prioridades. Minha mãe fez 70 e também foi demais! Além disso, de 1 a treze de junho, cantamos e rezamos, todos os dias, a Trezena de Santo Antônio, transmitindo para amigos, por videochamada. Outro momento impagável.

Sim, há saudades. Se eu pudesse ter planejado, tentaria incluir pessoas da minha família expandida, nessa comunidade. Um amigo, especialmente. Que se mudou para a Bahia dias antes do decreto e nossos planos de convivência (além de outros profissionais) foram por água abaixo. Por outro lado, têm sido lindos os nossos papos à distância, com reflexões que não surgiriam, em tempos “normais”. Há noites em que conversamos sobre uma das coisas que ele estuda: astrologia. Eu, crítica e cética que sou, acabei sendo convencida de que a guerra que enfrentamos estava escrita nas estrelas, há tempos. Que vai durar até janeiro de 2021, quando começaremos uma longa e trabalhosa reconstrução. Agora, é sobreviver usando as duas únicas armas possíveis: reclusão e amor.

Sim, também há vontades impossíveis de realizar. Eu havia combinado, com mais três amigos/as, uma viagem bem bacana, para o final do ano. Tínhamos marcado a nossa primeira reunião de planejamento, quando o mundo se fechou. Nunca mais tocamos no assunto, nem pra lamentar. Fico feliz por estar acompanhada de pessoas que sabem que, diante de certos nãos, o melhor a fazer é calar. Fica lá pro futuro. Por enquanto, acordar todos os dias e saber que os meus estão bem, é o maior prazer, a grande viagem, o que me satisfaz plenamente. Tá ótimo, assim. Todos em pé. Tá bom demais.

Desde o início, eu entendi que precisava produzir boas memórias desse período, apesar de. Pra mim e, principalmente, pro meu filho de nove anos. A gente não sabia – e continua não sabendo – quanto tempo vai durar. Comecei como no filme “A vida é bela” e deu tão certo que já posso dizer que talvez eu sinta saudades desse tempo, quando ele passar. Meu filho também já me disse isso e eu pensei “ufa!” porque nenhuma criança merece viver meses com o modo “pesadelo” ativado. Vai passar e vai ficar. Que passem as memórias ruins e que fiquem as lembranças do prazer, os aprendizados, os novos hábitos. Agora, vocês me dão licença que “sextou” e aqui em casa isso significa que preciso transformar a sala em nosso acampamento/cine clube. Funciona até segunda de manhã com filmes, pipoca, muito dengo e boas risadas. Axé! Amor! Evoé! Saúde! Fique em paz!

Fonte: Correio