“Lava e fica bom”, respondia um catador de material reciclável, a quem chamaremos de Leleu, quando os vizinhos estranhavam as máscaras e luvas penduradas no quintal da casa dele, no Alto da Terezinha, Subúrbio de Salvador. Sem poder comprar por equipamentos de proteção contra o coronavírus, usava o resto dos outros. Há uma semana, ele adoeceu. Está com suspeita de covid-19. Como Leleu, catadores têm reaproveitado materiais contaminados. Nas lixeiras, encontram até sacos cheios de seringas usadas.

Pelo menos cinco mil catadores circulam por Salvador em busca de material reciclável que revendem a ferros velhos e fábricas. Deles, cinco, em situação de rua, foram diagnosticados com coronavírus e uma morte pelo mesmo motivo é averiguada. A estimativa é do Fórum de Catadores e Catadoras de Rua e em Situação de Rua da Bahia. A maioria dos catadores, preta e pobre, tem pouca ou nenhuma condição de se proteger. Como vivem em condições de extrema vulnerabilidade, muitas vezes sem celular e como nômades, as lideranças têm dificuldade em mapear os casos. 

As secretarias Estadual e Municipal de Saúde não têm balanço de casos de covid-19 em catadores. A Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza (Semps), que administra abrigos, onde, às vezes, catadores dormem, respondeu não ter balanço sobre notificações da doença.

Muitos catadores vivem em situação de extrema vulnerabilidade e nas ruas (Foto: Marina Silva/CORREIO)

As luvas e máscaras reutilizadas por Leleu e outros catadores são resíduos contaminados. Não poderiam ser aproveitadas e deveriam estar envoltas em sacos transparentes, com recado grampeado “Lixo contaminado”. Leleu, nome fictício de um homem na faixa dos 50 anos, mora sozinho num barraco. Ele lavava as máscaras e luvas antes de usar.

Não tinha como fazer mais que isso, pois precisava também silenciar a fome e pagar as contas da casa. Pelo quilo de latinha, os também chamados agentes ambientais ganham R$ 2,70, por exemplo. Uma unidade descartável da máscara N-95, mais resistente, custa R$ 25. Para ganhar o suficiente para comprá-la, precisariam de até um dia de trabalho. 

Os catadores que não participam das 16 cooperativas, onde trabalham 334 pessoas, precisam estar nas ruas. Como as unidades estão com funcionamento reduzido, os catadores cooperados têm recebido auxílio mensal de R$ 270, por meio do programa “Salvador por todos”, da prefeitura. Os demais – 94% – não são atingidos. A reportagem conversou com 10 catadores de rua. Eles relataram contato com materiais contaminados e reaproveitamento desses resíduos. 

Trabalho em cooperativas foi reduzido durante pandemia (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Os catadores – reunidos no Fórum e a Federação Catabahia – tiveram reunião com a a Defensoria Pública do Estado e Ministério Público em busca de doações de equipamentos de proteção. Ainda não houve resposta. “O material está sendo descartado de qualquer jeito. Isso, para mim, é falta de humanidade com quem sobrevive desse resíduo”, opina Anemone Santos, do Fórum de Catadores. 

‘Sei que a gente pode pegar a doença assim’

Lúcia, nome fictício de uma catadora, cata material reciclável no bairro da Mata Escura. Acorda de madrugada, levanta antes do sol e se põe a andar em busca do sustento dela e dos quatro filhos. As crianças não têm com quem ficar. As máscaras que usam são retiradas do lixo. Ela prefere não dar o nome por medo de julgamento.

“Você vai me dar uma [máscara]? Alguém vai? A gente não tem condição de escolher, tem só o que acha, menina”, diz, por ligação.

A catadora tem medo de contrair o vírus. Dois dos filhos ficaram gripados, mas ninguém sabe se as crianças tiverem a covid-19. Passaram à margem de registros oficiais. “Sei que a gente pode pegar essa doença assim”, declara. O trabalho dos catadores consiste em encontrar, em meio ao lixo, um resíduo que seja reciclável. Os sacos são rasgados ou abertos. De dentro deles, cai de tudo.

O risco dos catadores se contaminarem por vírus e bactérias sempre existiu. Agora, as diferenças são basicamente duas, enumera Aida Silva, engenheira sanitária e professora da Universidade Federal da Bahia: a quantidade de resíduo de saúde, como as máscaras, e a potencialização da pobreza dos catadores.

“As máscaras e luvas não podem ser reutilizadas. Os catadores rasgam os sacos, as coisas são misturadas e isso potencializa a transmissão. Além disso, a resistência das máscaras muda com o passar do tempo. Elas só estão se expondo mais”, explica. 

O resíduo, mesmo contaminado, é recolhido pela Empresa de Limpeza Urbana (Limpurb) e levado para o mesmo destino que os demais, depois de triturados pelo caminhão: o Aterro Metropolitano de Salvador ou as cooperativas. Acontece que cresceu o descarte de resíduos possivelmente infectados, como os de pacientes com covid-19 ou suspeitos, que muitas vezes se recuperam em casa. Como não houve mudança na política de recolhimento de lixo e resíduo durante a epidemia, não há estimativa. 

Hoje, em Salvador, quatro empresas são responsáveis por coletar resíduos de serviços de saúde, conhecidos como lixo hospitalar. O material é tratado e levado para valas separadas e não é – pelo menos não deveria ser – encontrado em contêineres de resíduos comuns. O aumento da produção desses resíduos cresceu em até 23%, responderam as empresas à reportagem. Em condomínios e outras propriedades privadas que contratam serviço de descarte de resíduo de saúde, o crescimento é, em média, de 6%. 

Diminuem os lucros, aumentam os riscos

Os agentes ambientais precisam acordar cada vez mais cedo e sair das ruas cada vez mais tarde. Com lojas e restaurantes fechados, perderam boa parte do material que catavam para venda. Segundo a Limpurb, de março a maio, a coleta de resíduos comerciais caiu 35,75% em comparação ao mesmo período do ano passado. Sem falar que os achados mudaram. 

Numa noite de trabalho, Nice Silva, 34, examinava um contêiner de lixo quando abriu um saco cheio de máscaras descartáveis com secreção nasal. Outra sacola continha seringas ainda ensanguentadas. Retornou para casa, no bairro de Escada, apreensiva. Ela é asmática e hipertensa, o filho tem problemas respiratórios. “Acabou meu dia, eu nem queria mais ir trabalhar”, conta.

O material foi encontrado próximo a um hospital público, no Subúrbio. Os catadores desconfiam do descarte de unidades de saúde, embora não tenham como provar – os sacos vêm sem identificação. O descarte incorreto desses resíduos é considerado crime, passível de pena e multa. A Limpurb diz não ter recebido informações sobre irregularidades. 

Fábio quase foi atingido por agulha ensanguentada que encontrou no lixo (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Há três semanas, Fábio Luiz dos Santos, 41, trabalhava pelo bairro de São João do Cabrito. Encontrou um saco cheio de luvas, máscaras e seringas. Uma das agulhas, visivelmente usada, quase o furou. “Parei de reciclar por uns 15 dias, fiquei morrendo de medo”, conta. No retorno, viu um casal de catadores acumular máscaras usadas para reciclar. Como Nice, eles também estavam próximos de uma unidade de saúde pública.

“Isso está se tornando uma coisa comum. Nós somos tratados como lixo. Imagine, se a agulha tava junto de mim…”, complementa.

O catador tem trabalhado com medo, pois, a cada material contaminado misturado a outros resíduos, sente que pode ter se infectado. Ainda assim precisa trabalhar diariamente. A fome e as contas não entram em quarentena.

Fonte: Correio