Protetora é ameaçada ao tentar resgatar animais em Itacimirim

A tentativa de resgate da ‘gangue’ canina que vem atacando moradores em Itacimirim, na manhã deste sábado (27) não teve sucesso. Segundo Margareth Brito, dona do abrigo Recanto Grandes Amigos, que foi chamado pelos moradores para recolher os cachorros, houve ameaça de um rapaz não identificado. 

“Quando conseguimos localizar a ‘gangue’, cinco cachorros, a gente conseguiu pegar dois, com bastante calma. Nessa hora, chegou um rapaz dizendo que era de um policial. Que ele iria atrás aonde for, e que isso ia dar problema. Xingou. Então por precaução, como faço um trabalho já que o pessoal conhece, eu soltei”, relata a protetora.  

Apesar do ocorrido, Margareth afirma não acreditar que os cachorros atacam pedestres sem motivo. “São animais muito dóceis, não tem nenhum perfil de animal que sai avançando em ninguém. Eles não nos atacaram, não vieram pra cima, são animais que só devem atacar se alguém for machucar eles, não animais que atacam. Se não fosse a situação com o rapaz, conseguiria ter pego os cinco tranquilamente”, acredita ela, que lamenta não ter conseguido realizar o resgate. “Fiquei com pena, um morador de um condomínio chegou a me dizer que colocaria chumbinho para matar os animais”, conta. 

 Depois de frustrada a operação de resgate, a protetora foi novamente contactada por um morador, solicitando o retorno e dizendo que a situação já havia sido esclarecida com o autor das ameaças. “Ainda ontem, um representante dos moradores entrou em contato comigo, dizendo que conversaram com o rapaz da moto, e explicou a ação. Me pediram para voltar, mas eu só vou voltar se tiver a presença da polícia, sem isso não volto porque não vou colocar minha vida em risco”.

Com mais de dez anos de funcionamento e abrigando hoje mais de 700 animais, o Abrigo Recanto Grandes Amigos, localizado em São Sebastião do Passé, foi procurado por representantes de condomínios de Itacimirim, que chegaram a recolher colaborativamente valores para custear vacinas e castração dos animais. Procurados, os representantes disseram que estão buscando apoio dos órgãos competentes para o resgate, e que tudo foi esclarecido com o rapaz que atrapalhou a ação. 

Ataques 
O grupo de animais, que começou com três integrantes e já circula agora em seis,  já atacou pelo menos oito pessoas desde o início de março, inclusive duas crianças.  “Tenho casa aqui há 15 anos e nunca houve esse problema”, conta o administrador Mário Bonfim, 57. Incomodados, os proprietários acionaram a Prefeitura de Camaçari, através do Centro de Controle de Zoonoses, e o Ministério Público da Bahia, mas nenhum dos órgãos resolveu a situação até o momento. Procurada novamente pelo CORREIO, a prefeitura não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem 

O filho de uma advogada que não quis se identificar, que tem apenas 7 anos, foi uma das vítimas. “Ele recebeu três mordidas, ficou com as costas e o braço direito ferido, e a roupa toda rasgada. Chegou em casa aos trapos”, conta. O menino estava voltando da praia com a avó, no final de tarde, quando quatro cachorros avançaram sobre dele. 

Segundo a mãe, que não estava presente no episódio, o menino se jogou no chão e ficou agachado, protegendo a cabeça. “Ele está muito traumatizado, todos nós ficamos muito abalados neste dia, com medo de ter acontecido algo mais grave”, disse, preocupada. Depois do ocorrido, há cerca de um mês, o filho, que era apaixonado por cachorros, não chega mais perto de nenhum. Da última vez que a família foi a Itacimirim, o garoto não quis nem ir à praia. 

Situação semelhante ocorreu com a administradora Carla Barros, 45, no dia 4 de junho. Enquanto caminhava ouvindo música, por volta das 9h da manhã, seis cachorros a cercaram. “Eles vieram correndo em minha direção, do nada. Fiquei parada, estática. Quando tentei andar, um me mordeu na perna”, relatou. 

Os moradores, através do Conselho Comunitário de Segurança de Itacimirim e Barra do Pojuca, se juntaram para relatar os incidentes à Prefeitura de Camaçari. “Nós procuramos o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) por telefone, formalizamos a queixa por ofício e eles fizeram duas visitas”, contou o presidente do Conselho, Carlos Eduardo da Cunha, 60. Porém, o CCZ informou, segundo Carlos, que existia uma “limitação de atividades” e que não caberia a eles fazer a coleta desses animais. Foi aí que, neste mês de junho, o Conselho acionou o Ministério Público do Estado da Bahia (MP/BA) para que uma providência fosse tomada.

Por meio de nota, o MP/BA informou que a “5ª Promotoria de Justiça de Camaçari enviou ofício à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur) esta semana, solicitando a apuração dos fatos narrados. Segundo o promotor de Justiça Luciano Pitta, a atuação da Prefeitura com relação ao controle dos animais de rua já motivou algumas diligências por parte da Promotoria, que tem tentado obter informações atualizadas inclusive neste período de pandemia”.

Acrescentou ainda que, em junho de 2019, foi ajuizada uma Ação Civil Pública contra o Município de Camaçari “buscando impor à Prefeitura a criação de estudos técnicos para avaliação da situação dos animais na municipalidade, bem como objetivando a criação de política públicas voltadas ao controle destes animais. A ação ainda não foi julgada”.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro 
 

Fonte: Correio