Energia elétrica aumenta produção de farinha em aldeia indígena de Belmonte

Imagine depender da luz do dia para poder fazer suas atividades. Ter de dormir mais cedo, não ter água de qualidade, não poder guardar comida na geladeira. Não ter internet ou televisão. Ou até mesmo não ter onde armazenar a insulina, que diminui a quantidade de açúcar no sangue e é usada para tratar a diabetes.

Era assim que a aldeia indígena Patiburi, em Belmonte, no extremo sul do estado, vivia até dois meses atrás. Com a chegada da energia elétrica, houve uma transformação na tribo, que é de origem Tupinambá. A comunicação com a cacique Cátia, por exemplo, feita por Whatsapp, seria impossível antes da instalação desta tecnologia.

Além do Wi-fi, eles têm hoje acesso a uma rede de água tratada, pois foi possível fazer a ligação com um poço artesiano. Foi possível também aumentar a produção do que antes era só para subsistência, como a farinha – o “carro-chefe”, segundo a cacique – e o leite. Agora, eles poderão inclusive comercializá-los nos povoados vizinhos, o que vai gerar renda para suprir necessidades básicas, como a compra de remédios. 

A aldeia Patiburi – composta por 36 famílias e 128 pessoas no total – viu sua produção de farinha saltar de dois sacos de 50 kg por dia para dois sacos por hora. Além disso, era necessário pelo menos 20 pessoas no processo. Hoje, só duas já dão conta do recado.

Produzir a farinha de mandioca era completamente artesanal: era preciso raspar, para retirar a casca, ralar, secar e, em seguida, colocá-la no forno a lenha, que é quando ela se transforma realmente em farinha. Com a energia, o principal avanço foi a economia de tempo na raspagem, pois o lavador é o equipamento que faz o trabalho por eles. O forno agora tem paletas motorizadas e é elétrico, o que facilita a torragem e produz uma mandioca melhor. “A nova realidade é produzir com uma qualidade maior, por causa da temperatura correta do forno, e conseguir vender”, conta Cátia. 

Autonomia
Até 2018, a tribo alugava a Casa da Farinha do povoado de Boca do Córrego, que fica a 800 metros da aldeia. Eles deixavam os indígenas usarem o aparelho e ficavam com 10% da produção. Com a eletricidade, os Tupinambá não dependem mais da parceria, que foi cortada por um conflito com fazendeiros da região. Na época, os índios perderam mais de 70 toneladas de mandioca, que não puderam ser usadas.

“Essa energia veio para firmar a autonomia na comunidade. Para nós, significa uma reafirmação, pois conseguimos provar que nós somos os verdadeiros donos desse lugar”, conta a cacique. 

Produção artesanal de farinha na aldeia Patiburi (Foto: Divulgação)

Outra mudança na aldeia foi o uso do refrigerador. Eles conseguem agora armazenar leite, que depois da farinha, é o principal produto da tribo, além de alimentos e insulina para os cinco indígenas que sofrem de diabetes. A Patiburi  tem 160 vacas leiteiras e não tinha onde guardar o leite produzido, e por isso, ele era perdido. Agora, eles podem beneficiar mais famílias e ainda vendê-lo nas cidades vizinhas.

Por não terem geladeira, alguns alimentos, como a carne, eram conservados no sal, o que trouxe problemas de saúde para alguns moradores. “Já tem um jovem de 21 anos com pressão alta. Isso não é normal”, conta a cacique. Em relação à insulina, eles a colocavam num pote de barro com água para tentar conservá-la. No inverno, até que dava certo, no entanto, no verão, era quase impossível resfriar o medicamento. 

A energia elétrica permitiu ainda abrir uma escola de ensino básico na aldeia, que atende 30 crianças e vai até o quinto ano. A partir do sexto, elas frequentam a escola de Boca do Córrego até finalizarem o ensino médio. Os estudantes da Patiburi podem inclusive receber a merenda escolar distribuída pelo município de Belmonte, antes dispensada pela impossibilidade de armazenamento em refrigeração. 

A eletricidade também permitiu acesso a um poço artesiano, que garante a qualidade da água. “Bebíamos água da cisterna e o índice de verminose era alto”, diz a cacique. Todas essas mudanças trouxeram mais qualidade de vida e melhorou a autoestima da comunidade. “O índio, como qualquer ser humano, quer dar uma condição de vida melhor para as famílias. Faltava o principal que era a energia, para melhorar e ampliar o que já tínhamos”, explica. 

A obra
Para levar energia elétrica à aldeia Patiburi, foram instalados 256 postes, redes de média e baixa tensão e sete transformadores. O investimento total foi de R$ 715 mil, através do Programa Luz Para Todos, do governo federal, que bancou 65% do valor através do Ministério de Minas e Energia. A Coelba arcou com 35% dos custos.

O programa é um acelerador da universalização da eletricidade no país, para possibilitar a chegada do serviço nas regiões rurais mais distantes. Em 2019, 73 municípios baianos foram beneficiados, e a previsão é atingir a universalização no estado em 2021. 

Mais sobre Patiburi
Os Tupinambá chegaram a ocupar uma extensa faixa territorial da costa do Brasil, que ia do litoral norte de São Paulo, passando pelo rio Amazonas, Recôncavo Baiano, foz do rio São Francisco, Maranhão e Pará. Na Bahia, eles vivem hoje em áreas do sul do estado, como Belmonte e Ilhéus. Os índios da aldeia Patiburi e os outros que também ficam no entorno da lagoa Timicuim foram expulsos de suas terras na década de 80. Com apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai), eles conseguiram voltar para o território em 2005, onde estão até hoje.

A alimentação diária dos moradoradores da Patiburi é composta por feijão – que agora pode ser descascado à noite – batata doce, aipim, peixe, farinha e beiju. Nas suas terras, eles plantam também milho, mandioca, abóbora, quiabo, maxixe, banana, caxixi, inhame e cacau, o único que é usado só para o comércio, por conta do baixo consumo na tribo. 

Sobre a divisão do trabalho, a cacique Cátia conta que mudou muito nos últimos 40 anos, porque as mulheres têm mais autonomia: “Ela deixou de ter o papel só de mãe e dona de casa. Hoje, ela ajuda o marido nas atividades e consegue fazer o processo completo de produção de farinha, por exemplo”.  

A cacique conta ainda que os índios de origem Tupinambá têm forte ligação com a água e com o fogo. Por isso que os rituais, que são realizados todo mês em noite de lua cheia, sempre têm uma fogueira. “Ela representa a vida, o fogo que sobe e não pode se apagar”, explica Cátia. Já a água representa a ligação que os Tupinambá têm com o sagrado.

Os rituais abertos, ou seja, que permitem visitantes, são realizados durante o dia. Entretanto, com a pandemia do novo coronavírus, os indígenas estão em completo isolamento, até porque o povoado vizinho de Boca do Córrego, que só tem pouco mais de mil habitantes, já tem 30 infectados pela doença – o maior número de casos de Belmonte. 

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio