Moradores da Lapinha falam ao contrário e têm um dialeto: o Gualín

Quando, em 2006, o Padre Pinto alçou a Lapinha ao noticiário nacional, os moradores do bairro trocaram impressões sobre o pároco vestido de Oxum na Missa de Reis em um dialeto quase secreto. Popularizado nos babas, em tempos sem pandemia, a Gualín do Riocontra teria surgido com a intenção de confundir os adversários de jogo e, aos poucos, ganhou a adesão de quem nunca havia tocado nem de bico numa bola.

Mas há quem diga que a língua inventada é coisa bem mais antiga e que sua origem esteja relacionada a outro tipo de diversão. Considerado um de seus criadores, o ex-jogador do Vitória – e hoje pastor evangélico – Jânio Sacramento, o Russo, 60, situa a origem do Gualín da Lapinha nos anos 1970. Essa seria, segundo ele, uma forma de comunicação entre usuários de drogas com a função de “tirar de tempo” os caretas – não usuários.

“Começou quando eu era do mundo”, diz ele.  Limpo das drogas há 16 anos, Sacramento conta que falar ao contrário se tornou febre na Lapinha e extrapolou a intenção original. “Virou uma espécie de cultura”. O estigma ficou para trás, neutralizado, fora do círculo de usuários. Dizem que, hoje, até os PMs que fazem ronda por lá arriscam o dialeto. “Todo lugar por aqui, São Lourenço, Guarani, Liberdade, fala ou entende”.

Matheus e Ábine foram rebatizados e viraram Theusma e Binea (Foto: Resenha da Lapinha)

Fato é que esse falar diferente, passado de geração a geração, virou mania nos babas – onde alguns jogadores usam camisas com seus nomes ao contrário – e, mais adiante, no cotidiano do bairro. Para ser considerado morador raiz da Lapinha, falar o Riocontra é “de lei” há pelo menos 50 anos. Não tem cartilha. A garotada aprende em casa e nas ruas, oralmente. “Acredito que isso nunca morrerá. Os pais passam para seus filhos e a coisa segue”, diz o jornalista Jordan Mendes, 33.

Da Lapinha para o mundo
Em 2010, Jordan teve a ideia de homenagear o bairro onde nasceu com um documentário, seu trabalho de conclusão de curso em jornalismo. Escolheu a língua secreta da Lapinha como tema. Além de garantir a aprovação, o média-metragem venceu o prêmio de Melhor Filme, na votação do Júri Popular, na primeira edição do Festival de Cinema Universitário da Bahia. “A minha geração se apoderou da Gualín e a ressignificou. Não usávamos drogas, então ela tinha outra conotação. Criava uma identificação entre nós, que somos da Linha 8, da Lapinha”, diz.

O jornalista Jordan Mendes fez um documentário sobre a língua ‘ao contrário’ (foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO)

Morando, desde 2013, em outro bairro, ele acompanha a movimentação cultural da Lapinha e, sempre que visita os pais, aproveita para reencontrar os amigos. “Minha relação com aquele lugar extrapola o documentário”. Um desses amigos, o produtor audiovisual Nelson Antônio, 40, foi fundamental na construção do filme.  “Me considero um especialista, um mestre, do Gualín”, diz. “Uns chamam de língua de malandro, mas Jordan levou para a academia e mostrou que não é bem assim”.

Dito ao contrário ou não, nem o distanciamento social é capaz de separar essa turma. Vivendo atualmente em Nova York, o artista visual Admilson Santos Júnior, o Fuca, 38, nascido e criado na Lapinha, acredita que a Gualín foi fundamental na união da nova geração de falantes do bairro. “Ajudou a fortalecer nosso lugar no mundo. Até o som das sílabas adquiriam novas tonalidades. Aprender uma língua, mesmo um dialeto urbano como esse, é apreender uma cultura”.

Por lá, ele conta que não encontrou nada semelhante, pelo menos, em termos da troca de sílabas ou de inversão de palavras em inglês. No entanto, diz conhecer bastante o “broken english”, versão alternativa da língua oficial que demarca identidades. “É falado, geralmente, por pessoas de outras nacionalidades, imigrantes, especialmente pelos jamaicanos, que costumam usar uma outra entonação/pronúncia”, explica.  

O gualín francês
Mas, inverter as sílabas das palavras não é coisa só de baiano maluco ou sabido, como se pode pensar. Na França, os adolescentes também costumam falar ao contrário com fluidez em grupo como forma de pertencimento. A prática é tão usual que ganhou até um nome, Verlan. Esse dialeto teria surgido após a Segunda Guerra e é usada ainda hoje. No Brasil, uma cidade inteira adotou a prática no interior de São Paulo.

Na cidade de Sabino, até as lojas adotam o que eles chamam de sabinês, invertendo nas placas os nomes das marcas. No Rio de Janeiro, todos conhecem como TTK a fala ao contrário, que teria surgido nas prisões, sido adotada por grupos subversivos, durante a Ditadura, e, resgatada pelo movimento Hip Hop, nos anos 1980, virando a linguagem dos pichadores. A sigla TTK vem do local onde se originou esse falar diferente, o bairro carioca do Catete (ao, contrário, lê-se “Teteca”, que soa como “TTK”). No ano passado, o rapper Filipe Ret, ex-morador do bairro carioca, gravou a música Gonê, composta em Gualín. Antes dele, Gabriel O Pensador também fez sua homenagem musical, repleta de inversões de palavras.

Na real, nem mesmo em Salvador, falar Gualín é exclusividade da Lapinha, embora seja o local onde o dialeto tem maior força. Jordan diz que no Jardim das Margaridas, em São Cristóvão, há fenômeno semelhante. As diferenças, explica, estão na pronúncia. Entre o Riocontra e o TTK, por exemplo, destaca-se o modo como as tônicas são faladas. “E há também as misturas de sílabas de duas ou três palavras que modificam o sentido”.

Língua ou dialeto?
Entender como uma Gualín opera, na prática, não é lá muito complicado: difícil, é acompanhar a fluência de seus falantes. No cerne desse falar diferente está a inversão das sílabas, formando frases de sonoridade híbrida. Mas o que a leva a ser um traço de identidade e de união em uma comunidade?

Para a doutora em linguística Marta Cardoso de Andrade, um dialeto pode ser considerado como uma variação linguística dentro de uma língua formal, e costuma ser muito importante em termos identitários. “Ele surge como um fechamento da comunicação, com a intenção de colocar outras pessoas à margem do que se fala em determinado grupo”.

Como exemplo dessa força identitária, ela cita o modo como os negros norte-americanos usaram a linguagem para estabelecer os domínios de sua comunidade. “Eles transformaram o inglês em algo diferente, criando uma variação, de modo que os brancos não entendessem o que falavam. A língua tem esse poder”.

Fuca morava na Lapinha e falava Gualín. Hoje, é artista visual em Nova York (foto: acervo pessoal)

Uma análise mais profunda, pontua a linguista, envolveria o estudo detalhado dessa variação. “Teríamos que categorizar se a Gualín se afastou muito da língua portuguesa ou se continua mantendo traços dela, parece-me que, em termos fonológicos, ela se tornou um dialeto, ainda que de menor prestígio, forjado a partir do padrão formal”. 

Seja nas ruas da Lapinha, na cidade de Sabino, no bairro do Catete ou entre os adolescentes de Paris, o que quer é o que pode essa língua.

Ouça a música Gonê, cantada em Gualín do TTK por Filipe Ret

*As fotos desta reportagem foram feitas antes do início da pandemia

Fonte: Correio