Briga entre facções CP e BDM leva o terror aos moradores de Saramandaia

Mais que a pandemia, o maior medo de quem vive em Saramadaia é ser encontrado por uma bala perdida. “Morar aqui é pavoroso. Não tem paz. Qualquer zoadinha, o coração vem à boca e a gente pensa sempre no pior, que o outro grupo está chegando atirando novamente”, relata uma moradora.

Desde o início do ano, o bairro vem sendo atacado por traficantes da região do Nordeste de Amaralina, reduto da facção Comando da Paz (CP). Eles querem de volta o ponto que já foi deles um dia e atualmente é comandado pelo Bonde do Maluco (BDM). 

Os embates mais recentes aconteceram em um espaço de dez dias, entre junho e julho. A primeira situação aconteceu quando uma operação da polícia terminou com três suspeitos mortos; além de um morador e um policial baleados. No segundo caso, houve um tiroteio que levou à suspensão dos serviços contra a covid-19 na comunidade. 

Até meados de 2018, era a CP que atuava em Saramandaia e no bairro vizinho de Pernambués, sob o comando do temido Cosme Paixão Lisboa, o Coe. Sua fama de cruel, inclusive com moradores, levou a polícia a uma verdadeira caçada por dias, que terminou com a morte do traficante em julho do mesmo ano em Barra do Jacuípe, Camaçari. Uma vez Coe fora de campo, o tráfico nas regiões pulverizaram e a Saramandaia hoje é controlada pelo ex-parceiro do líder morto, Hamilton Silveira dos Santos Júnior, o Juninho, que agora é do Bonde do Maluco (BDM). 

“Essa briga não é por território. É uma questão de honra. CP quer o que era dela. Além disso, tem a questão da rentabilidade. O tráfico de Saramandaia é uma das bocas que mais rendem em Salvador por causa de sua localização. A entrada principal do bairro é pela Avenida Tancredo Neves, uma das mais movimentadas da cidade”, disse ao CORREIO uma fonte da Secretaria de Segurança Pública (SSP). 

Ainda de acordo com a fonte da SSP, a CP tomando a Saramandaia amplia a atuação da facção em Pernambués, onde já tem o domínio do tráfico na localidade conhecida como Barro. “É uma questão de estratégia também”, explicou. 

Invasões
Na manhã desta quarta-feira (8), o CORREIO ouviu também o relato de moradores para melhor explicar a situação em Saramandaia. De acordo com os depoimentos, desde a morte de Coe e a ascensão de Juninho, o bairro era tranquilo.

“Aqui não existia essa tensão que é hoje. As pessoas caminhavam tranquilamente, pois o patrão (Juninho) não queria problema. Para se ter uma ideia, quem vinha de fora não era agredido como acontece em outros bairros. Dificilmente surgia caso de homem bater em mulher, de assaltos, arrombamentos, nada disso acontecia”, contou um morador. 

De acordo com ele, em janeiro deste ano, houve a primeira invasão do CP no local. “Chegaram com dois carros, todo mundo armado. Oito homens foram ao encontro do patrão e chegou ao chefe para tomar, mas os olheiros acionaram o restante do grupo, que saiu dos becos em maior número e botou os caras da CP pra fora”, contou. 

Um dos acessos à Saramandaia é pela Avenida Tancredo Neves, uma das mais movimentadas de Salvador
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

O segundo embate aconteceu no dia 23 de junho, quando uma operação policial deixou três mortos e pelo menos três pessoas feridas no bairro. Equipes da Delegacia de Repressão a Furtos e Roubos de Veículos (DRFRV) foram até Saramandaia para investigar denúncias de que homens armados circulavam pela região, quando foram recebidos a tiros. No confronto, quatro suspeitos foram atingidos e três não resistiram, morrendo no local. Além disso, um policial, um morador e um suspeito ficaram feridos.

“Neste dia, a CP veio em maior número, tinha mais de 15 homens armados, até de fuzil.  Então, os traficantes daqui ligaram para a polícia se passando por moradores e fizeram a denúncia de que havia homens armados. Por isso houve o confronto com a Civil. Os três caras mortos eram do Nordeste de Amaralina”, relatou um morador, sem se identificar.

No dia 2 de julho, um tiroteio nas comunidades da Baixa do Manu e Rua das Flores levou a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) a suspender os serviços contra a covid-19 no bairro. “Era o pessoal do CP tentando chegar à Saramandaia, mas foram impedidos assim que descobertos”, relatou um outro morador. 

Medo
O CORREIO perguntou a alguns moradores de Saramandaia como é hoje viver no bairro?. Todas as respostas terminaram no mesmo assunto: medo.

“As pessoas estão apavoradas. Estão colocando grades nas janelas e portas, uma forma que encontraram de reforçar a segurança de suas casas. Ninguém quer sair mais. A epidemia está aí, mas o medo de quem vive na comunidade é outro. É ser baleado a qualquer momento”, disse outra moradora, também sob anonimato.

Um outro morador disse que tem gente que pôs a casa à venda, mas ninguém quer comprar. “Ninguém quer vir morar num lugar como esse. Casas estão à venda, inclusive com preços bem abaixo do mercado, mas não há compradores. Tem gente que abandonou a morada para viver de aluguel”, relatou. 

Polícia Miliar
Em nota enviada ao CORREIO, a PM disse que o policiamento “está intensificado no bairro de Saramandaia por tempo indeterminado com equipes da 1ª CIPM, inclusive com o Pelotão de Emprego Tático Operacional (Peto) da unidade, além de guarnições da Companhia Independente de Policiamento Tático (CIPT)/Rondesp Central”. 

A PM informou que “não dispõe de informações sobre possíveis ataques já que esse dado compete à polícia investigativa”. Em relação aos serviços municipais de combate à covid-19, a PM disse que o “policiamento reforçado está mantido, porém a decisão da retomada é exclusivamente do município”.
 

Fonte: Correio