Monumento às baianas de 4 m de altura teve como modelo a gigante Cida de Nanã (Fotos: Nara Gentil/CORREIO e Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

O torso não é de seda, os brincos e as correntes não são de ouro e a sandália enfeitada nem sei se há, mas essa baiana existe demais. Talvez você não conheça, porque faz tempo que não passa pela orla de Amaralina, mas se prepare que quando der um novo rolé por lá, ela vai te ver, e você verá.

A ‘Baiana Azul de Amaralina’ (vamos chamar assim enquanto o povo não rebatiza) é a mais nova obra de arte que Bel Borba acrescenta à paisagem da cidade. Nasce inserida no projeto de requalificação de novo trecho da orla, que deve ser entregue até o final do mês. Cresce 4 metros, com base de pouco mais de 50 cm, e ostenta um peso famoso: 16 toneladas. 

Explica o artista plástico que essa baiana tem nas suas entranhas o estofo do aço “com cimento especial usado em viadutos” moldado a fibra de vidro e “exageradamente reforçado” – concreto armado, artifício para torná-la inquebrantável, “impossível de pegar fogo”.

No meio do Largo das Baianas, mirando a Avenida Amaralina e o fluxo que lhe converge, também pode ser vista preparando a massa de algum quitute. E a modelo para o que se vê não é uma baiana qualquer – embora seja como qualquer outra, como ela mesma fará questão de delimitar. Cida de Nanã, a musa inspiradora, é bisneta de Mãe Senhora (1890-1967), terceira ialorixá da história do Ilê Axé Opô Afonjá, e pentaneta de Marcelina da Silva, a Oba Tossi, uma das fundadoras da primeira casa de candomblé do Brasil, o Ilê Axé Airá Intilè (Candomblé da Barroquinha), origem da Casa Branca.

“Me senti orgulhosa por hoje as baianas de acarajé terem sido homenageadas com esse monumento em uma praça que muitas senhoras, filhas e netas de escravas, ganharam a vida com o acarajé”, celebra Maria Aparecida Santos, a Cida, se referindo ao tempo em que o largo era tomado por uns 40 tabuleiros e ela frequentava, infante, como cliente.

Ano passado, aos 50, foi procurada por um antigo freguês. Bel Borba era assíduo no ponto que Cida manteve por 25 anos em frente à Reitoria da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Nascido e criado no Canela, continuava por ali quando estudou na Escola de Belas Artes, tempo em que o elo com a baiana foi estabelecido.

Convidado pela prefeitura para construir a escultura em homenagem às mulheres que, além de empreendedoras, são Patrimônio Imaterial da Cultura da Bahia, foi direto na sua coligada. Depois do contato, fecharam contrato (rolou um cachê) e o artista brotou na casa dela, em Pernambués, para fazer fotos e vídeos, tirar medidas, projetar o monumento.

Até esse novo contato, aliás, Bel Borba não sabia da genealogia de Cida de Nanã. Ignorava as duas sacerdotisas acima citadas, além de um colega de profissão na árvore: a musa inspiradora também é neta de Mestre Didi (1917-2013), o sacerdote-artista. Isso dificulta ainda mais a missão de quem quiser pensar em outra baiana de acarajé, entre as mais de duas mil de Salvador, tão bem credenciada para ser modelo da obra-homenagem.

Na casa de Cida, em Pernambués, Bel Borba faz os testes e análises de perspectivas (Foto: Divulgação)

Simplicidade
Mas Cida não se acha mais especial que as outras, e sugeriu que eu escrevesse “de um jeito para não causar ciúmes”. Mesmo no exercício de funções religiosas importantes – Otun dagan e Otun iya-egbé – em dois ilês famosos, pediu para não citar os mesmos. “Pode colocar os postos, mas se puder evitar os nomes dos dois terreiros agradeço, para as outras baianas merecedoras não acharem que fui escolhida por o terreiro ser famoso. Sou simples”, é notório.

Explícita também a aprovação, entre os pares, ao nome de Cida. “Ela tem todo um enredo, todo um fundamento. As baianas estão bem representadas”, afirma Rita Santos, presidente da Associação Nacional das Baianas de Acarajé (Abam), antes de lembrar que a ideia do monumento surgiu dentro de quatro reuniões com moradores, comerciantes e, claro, baianas da região para decidir o que seria feito ali, e como. 

Tudo organizado pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), responsável pelo projeto, que também teve a execução acompanhada de perto.

“A fundação me mandava toda semana fotos da obra, e a gente deu palpite, como a pulseira e o colar que não tinham”, relembra Rita Santos, também citando a cor da pele representada na escultura, recoberta com 26 metros quadrados de azulejos recortados, formando um mosaico colorido com azul e branco predominantes.

Azul da paz
Sobre a pele da estrela azulada, ligeiro impasse, mas quase nada. “Algumas pessoas foram contra, outras a favor, mas Bel já explicou. Tem a ver com energia. E o que importa é que as baianas de Amaralina estão a favor, estão satisfeitas”, diz a presidente da associação, antecipando-se a qualquer polêmica.

Aos 63 anos, 55 de carreira, Bel Borba também não estava disposto a embarcar em controvérsias e, solícito, ouviu as homenageadas. “A presidente do sindicato [Rita Santos], com muita delicadeza, fez o pleito e eu atendi. Os colares, por exemplo, quando eu atinei, fiquei entusiasmado”, relembra o artista, que também resolveu adotar pulseiras, brincos, olhos abertos… Mas e a pele?

“Foi decisão minha. É importante que tenha no meu trabalho um mínimo de transgressão sublime, ir além das barreiras do óbvio. E é uma prerrogativa do artista lidar com as cores da maneira que julgue pertinente, justificada e cabível… Ela tem obrigatoriamente a cor do céu”, declarou Bel, que apelidou sua obra de ‘Baiana Azul da Paz’ e ainda deu mais explicações sobre contraste e ambiente.

A obra já está à vista de quem passa e será um ponto de encontro e sustento para as cerca de 10 baianas que voltarão a ocupar o local tradicional, logo que a pandemia passar – algumas até antes. 

Obra foi realizada com auxílio de empresa de engenharia; base tem pouco mais de 50 cm, além de fundação (Foto: Nara Gentil/CORREIO

Segundo a presidente da FMLF, Tânia Scofield, a entrega da primeira parte do trecho reformado está prevista para ocorrer até o final do mês, juntamente com o novo monumento/ponto de referência.

“A primeira etapa deve ser inaugurada da Praça do Quartel até um pouco depois das baianas, e toda a parte de trás de Amaralina”, comentou ela, informando ainda que o valor total investido nas melhorias foi de R$ 38 milhões, sendo R$ 250 mil para a escultura.

Tânia comemorou o resultado da obra de arte e, claro, a repercussão entre as homenageadas. “É uma grande e merecida homenagem a um dos símbolos mais importantes que temos”, concluiu sobre a Baiana Azul de Amaralina, coqueiros, brisa e fala nordestina.

Fonte: Correio