“Tenho tido ansiedade, picos de pressão. Já dei aula parando para vomitar por conta da hipertensão, dores de cabeça e das náuseas que tenho tido regularmente. Muita pressão de todos os lados. Já cheguei a gravar oito vídeos por dia. Me sinto usada”, desabafa uma professora da rede particular que prefere ser identificada como Tânia*. A docente tem receio de perder o emprego.

Esgotados, preocupados e sem opções de múltipla escolha. Cinco em cada dez professores baianos estão sofrendo impactos na saúde emocional durante a crise causada pelo coronavírus, segundo a pesquisa que analisa a Situação dos Professores no Brasil na Pandemia, promovida pela Nova Escola. A organização produz há 30 anos, conteúdos sobre educação básica no país. 

O levantamento ouviu mais de 9,5 mil profissionais, entre os dias 16 e 28 de maio, por meio de questionário online. Destes, 414 são baianos. Mais de 70%  atua na rede pública e 23,67%, na rede privada.

Quando questionados sobre sua saúde emocional agora, em comparação ao pré-pandemia, os que classificaram como péssimo, ruim ou razoável, somam 56,29%, contra os que disseram que estão com a saúde boa ou excelente (39,56%). 

O estado reflete o cenário nacional, em que problemas como a ansiedade afetaram 68% dos educadores. Além disso, 28% deles afirmaram sofrer ou já ter sofrido de depressão até o período do estudo. Os quadros  mais relatados foram estresse e dor de cabeça (63%), insônia (39%), dores nos membros (38%) e alergias (38%). 

“Mais do que nunca, é necessário um olhar atento ao professor. Eles devem sair da pandemia com uma carga de perdas, além de cansados e  sem saber o quê, de fato, os alunos aprenderam”, analisa a gerente pedagógica da Nova Escola, Ana Ligia Scachetti.

Outro dado que se destaca é referente a preparação para o ensino remoto, visto que 51,1% dos professores dizem não ter recebido formação  para trabalhar em casa. “Tenho trabalhado com o que já conhecia ou buscando o que não conhecia. Conto muito com a ajuda de colegas que dominam melhor as novas tecnologias”, afirma o professor de matemática na rede municipal, Nadison Silva. “Tem vezes, que é um sufoco”, completa.

A nuvem de palavras mostra termos que mais apareceram nas entrevistas feitas pela pesquisa (Ilustração: Morgana Miranda)

Medos 
A presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), Rosylane Rocha, reconhece a dimensão do desgaste físico e mental dos educadores.

“Isto aumenta as dores musculares, o desequilíbrio da pressão arterial, e o descontrole do diabetes. É fundamental propiciar condições favoráveis ao profissional de educação na retomada do novo normal”.

Juliana Farias é professora de educação física na rede estadual, onde ensina em 13 turmas. Apesar de estar em licença maternidade, admite que tem receio do retorno presencial. “Não consigo perceber como a realidade na es cola pública será contemplada com higiene e segurança”.

No caso da professora Ana*, que pediu para não ter o nome revelado, o temor se chama desemprego. “Meu salário diminuiu para R$ 221. A escola tem feito da gente o que quer, porque precisamos do nosso trabalho”.

Diante de tantas questões, a professora de ciências naturais, Giselia Teles, só tem uma certeza: a educação não será igual ao que era. Ela ensina na rede municipal em turmas do 8º e 9º ano. “Minha carga horária de 60 horas dobrou”.

As escolas particulares aderiram ao ensino remoto para cumprimento de carga horária e  os professores ministram aulas online. Na rede pública, os docentes dão suporte aos alunos, tiram dúvidas que possam surgir na realização de atividades impressas, as que estão disponíveis nas plataformas online e no caso, da rede municipal, nas aulas exibidas pela TV Aratu.

O que dizem as escolas? 
Sobre os relatos dos profissionais, a Secretaria Municipal de Educação de Salvador (Smed) disse que serão implementadas ações de apoio socioemocional e de orientação. Já a Secretaria da Educação do Estado da Bahia (SEC) pontuou que disponibiliza psicólogos para atendimento online. O agendamento é feito pelo e-mail saudedoprofessor@enova.educacao.ba.gov.br.

O Grupo de Valorização da Educação (GVE), coletivo que reúne 60 escolas particulares de Salvador e Região Metropolitana, ponderou que os professores e demais profissionais precisam se reinventar continuamente. Outras entidades como a Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) e o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado da Bahia (Sinepe-BA) também foram procurados pela reportagem, mas não se posicionaram.   

Sem segurança, os professores não voltam. É o que defende o coordenador geral da Associação dos Professores Licenciados do Brasil Secção da Bahia (APLB Sindicato), Rui Oliveira. “A maioria das escolas públicas não tem instrumentos apropriados para evitar a contaminação”. Há professores que não irão retornar, pois faleceram, vítimas da covid-19, conforme complementa a diretora da entidade, Elza Mel. “A nossa posição é a de preservação da vida”.

Lições 
Só de sexta-feira (10), a pedagoga e coordenadora de uma das escolas da rede municipal, Celeste Dias, fez 80 atendimentos online de pais e alunos. “São muitas competências socioemocionais e de comunicação que precisamos desenvolver para atender bem, quem está do outro lado. Hoje a única opção que temos é o ensino remoto”.

Para a professora do curso de Psicologia da Universidade Católica do Salvador (UCSal), Denise Gersen, é preciso enfrentar o momento. A especialista desenvolve um projeto de escuta coletiva de professores em escolas do Subúrbio de Salvador e  Lauro de Freitas. Antes da pandemia, 60 educadores participaram dos encontros.

“Nas reuniões online, percebo que a maioria não quer voltar para sala de aula nos próximos três meses, devido à insegurança e o risco do contágio. O caminho para enfrentar os medos está na interação,  na troca de informações e apostar na capacitação como superação”, aconselha.

O coordenador de projetos da organização sem fins lucrativos Todos Pela Educação, Ivan Gontijo, ressalta a importância de reconhecer o esforço dos professores. “Muitos destes profissionais acabam carregando um sentimento de fracasso, mas eles não devem se sentir assim. Ninguém estava preparado para isso. A tecnologia é um meio. A pandemia mostrou que os professores são insubstituíveis”. 

Confira relatos dos profissionais da educação ouvidos pelo CORREIO

Qual a sua maior preocupação com relação a volta às aulas?

‘Tenho me sentido escravizada’ – Depoimento de Tânia*, professora da rede particular

Sou mãe de uma criança de 2 anos. Eu e meu marido estamos trabalhando home office. Tentamos dividir as responsabilidades, mas a maior parte sempre fica para mim. E por trabalhar mais que a minha carga horária normal, tivemos  conflitos graves, pensamos até em separação, por eu ter que dar uma maior atenção ao trabalho.

Tenho me sentido, na verdade, escravizada, visto que a real preocupação da escola onde trabalho é somente com o financeiro, cobrando e exigindo da gente um trabalho sem nenhum suporte. Ensino em cinco turmas do Ensino Fundamental I e a escola só fala em voltar para não perder alunos.

Sempre querem algo muito bom, sem analisar nossa condição, nem o que temos ou não que fazer. Tenho obrigação de dar resultados, não tenho valor como pessoa. Meu diploma e as especializações que fiz também não.  Não me vejo preparada para o retorno às aulas. Continuaremos tendo a função de ‘babá’ e, agora, no pós-pandemia, de ‘enfermeira’ só agradando os pais e cumprindo as ordens.

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Nem todos os alunos têm acesso – Nadison Silva, professor na rede municipal

Não tive formação para aulas online, pois não se esperava esta situação. Fui trabalhando com o que já conhecia ou buscando o que não conhecia, porém, a nossa escola vem se mostrando participativa e combina todas as atividades com os professores.

Adquiri um novo celular com memória maior, webcam, headphone, ampliei memória do meu notebook. Tenho contado muito com a ajuda de alguns colegas que dominam melhor estas novas tecnologias. Acompanho também lives e palestras online.

Ensino matemática em seis turmas na escola pública. O maior desafio nesse momento é fazer com que a maioria dos alunos, que já tem dificuldades em aulas presenciais, participem das aulas remotas tanto no ambiente digital quanto na tv.  Nem todos  têm acesso a esses meios. Uma mãe, quando me encontrou, falou sobre a excelente qualidade da cesta básica, pois está desempregada, assim como o marido. Porém, poucos alunos têm me procurado para tirar dúvidas sobre os conteúdos. A educação precisa se adequar. 

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A incerteza do retorno – Juliana Farias, professora da rede estadual

Trabalho 40 horas em 13 turmas na rede estadual como professora de educação física, porém, não estou dando aulas remotamente já que a pandemia prolongou minha licença maternidade com a suspensão das aulas.

Ainda assim, me vejo ansiosa sobre como esse processo de retomada das aulas vai acontecer. Temos vários desafios e um deles é a incerteza do retorno e de como ele se dará. Meu bebê tem só nove meses e tenho muito receio de trazer o vírus para casa, diante de uma realidade onde as salas não possuem ventilação natural e nossas turmas chegam a receber até 45 alunos.

Difícil falar em isolamento social, quando muitos dos nossos alunos moram em casas bem pequenas e em ambientes violentos.

Após ler sobre alguns modelos de protocolos, considero plausível a junção do ciclo 2020/2021 para garantir a permanência do aluno. Se isso não for feito, haverá fechamento de turmas e professores podem ser devolvidos a rede, ficando  a disposição para realocação em outras escolas.

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Nós não dominamos tudo – Celeste Dias, coordenadora na rede municipal

Admitir que não dominamos tudo e que temos sempre o que aprender é a maior lição desta pandemia. Mesmo diante das situações difíceis que estamos enfrentando serve como motivação, as trocas entre professores, equipe gestora e alunos da escola pública que possuem conhecimento em tecnologia. Sim, eles existem.

A quantidade de vídeos, tutoriais e podcasts produzida e que circulam nos grupos  e nas redes sociais faz toda a diferença. Muitos talentos têm sido revelados – de alunos, professores e pais que quando veem alguém com dificuldade chama no privado, apoia e inclui digitalmente esses estudantes.  

Sabemos dos problemas. Alguns educadores sairão exaustos por conta desta transição, outros satisfeitos diante das aprendizagens da nova concepção de educação, outros adoecidos pelo luto, confinamento e perdas financeiras. Mas as soluções só serão construídas com a participação de todos: poder público, pesquisadores, pais, alunos, escola e professores.

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Sobrecarregada, incapaz e sem valor – Lúcia*, professora da rede particular

Estudei por conta própria para atuar no ensino remoto dando aulas em quatro turmas. A sociedade em geral, não respeita o nosso trabalho. As escolas atrasam salário além de já o terem reduzido, por conta da pandemia.

O professor precisa continuar com as aulas e ouvindo que não recebeu por falta de pagamento das mensalidades e ainda precisa pagar a internet, para viabilizar tudo isso, do seu próprio salário. Me sinto cada dia mais sobrecarregada, incapaz e sem valor.

Eu acho que a maioria dos professores também está se sentindo humilhada. Tive uma redução de 70% do meu salário e, sinceramente, eu não sei o que é que vou fazer para diminuir esse impacto. Com o valor que a escola me paga é impossível sobreviver – só com R$ 221. Tenho outros colegas que diminuiu para R$ 195 e a direção da escola vem e diz que é melhor mesmo que a gente receba o benefício do governo. Nos submetemos a esta situação e, infelizmente, acabamos aceitando por conta de questões financeiras. Falta respeito e empatia.

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O mundo não será mais o mesmo – Giselia Teles, professora na rede municipal

Meu pai tem leucemia e, muitas vezes, tenho trabalhado no hospital enquanto ele faz o tratamento. Fico ali na capela com o celular, orientado os alunos. Não estamos lidando apenas com o estresse do distanciamento social, mas, também com o uso das novas tecnologias de ensino à distância e a precariedade das condições tecnológicas, principalmente, dos nossos estudantes.

Sou professora de ciências naturais na rede municipal de turmas de Ensino Fundamental do 8º e 9º ano. Minha carga horária de 60 horas, dobrou. As incertezas são grandes. O isolamento social trouxe a necessidade de se reinventar e solidificar a tecnologia aliada à criatividade.

O mundo não será mais o mesmo depois que essa tempestade passar. É tudo muito novo e inesperado. Me sinto muito preocupada e confusa diante de uma situação atípica como a que estamos passando. São novos valores, modelos de ensinar e novos hábitos. Certeza? Só a de que a educação não será igual ao que era após a pandemia.
 

*Nomes trocados a pedido das professoras ouvidas pela reportagem.

Fonte: Correio