Um pastor no comando do MEC: o que esperar de Milton Ribeiro

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O vácuo de 22 dias no comando do Ministério da Educação (MEC), criado em meio a uma sucessão de tumultos, polêmicas e recuos, foi preenchido na sexta-feira, quando o presidente Jair Bolsonaro publicou, em edição extra do Diário Oficial da União, o nome do novo chefe da pasta: o pastor evangélico Milton Ribeiro, teólogo, mestre em Direito e em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e ex-vice-reitor da Universidade Mackenzie, instituição respeitada da rede privada de ensino superior paulista e que é mantida pela Igreja Presbiteriana, da qual é líder religioso.

Com a nomeação formalizada, Ribeiro se torna o quarto chefe do MEC em apenas um ano e meio de governo Jair Bolsonaro, que faz dois acenos simultâneos ao optar pelo pastor e professor universitário de Santos, cidade do litoral de São Paulo. Um foi tentar imprimir caráter técnico à escolha; outro,  escapar de atritos com dois fortes grupos que o apóiam: a militância evangélica e a chamada ala ideológica, mais ligada à extrema direita.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, a indicação de Ribeiro teve como padrinhos os ministros Jorge Oliveira (Secretaria-Geral), linha de frente do bloco militar do governo, e André Mendonça (Justiça), que como o novo chefe do MEC também é pastor presbiteriano. O convite oficial foi feito pelo presidente na tarde da sexta, pouco antes da nomeação formal por Bolsonaro.

“Indiquei o professor Milton Ribeiro para ser o titular do Ministério da Educação. Doutor em educação pela USP,  mestre em direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e graduado em direito e teologia”, escreveu o presidente em suas redes sociais, numa nítida estratégia para valorizar a trajetória acadêmica do escolhido e minimizar o currículo religioso. “Desde maio de 2019,  é membro da Comissão de Ética da Presidência da República”, emendou Bolsonaro.

Buscas
Em meio às indefinições sobre o futuro do MEC, Ribeiro estava na lista de três nomes que o presidente sondava como prováveis ministros. Além do pastor, constavam na relação de cotados o professor Ricardo Caldas,  da Universidade de Brasília (UnB), e o atual reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Anderson Correia, nome que gozava ainda com a simpatia dos blocos militar e ideológico. 

Enquanto buscava o futuro ocupante da vaga aberta com a tumultuada demissão de Abraham Weintraub do MEC, o presidente começou a sondar, desde o fim de semana passado, líderes evangélicos para testar a  aceitação dos nomes no cardápio. Tal deferência de Bolsonaro à ala religiosa tem origem na pressão que levou ao recuo no convite ao secretário de Educação do Paraná, Renato Feder, que chegou a ser apontado como ministro.

Racha
Embora conte com apoio de parlamentares de São Paulo que integram a bancada evangélica no Congresso Nacional, Milton Ribeiro está ainda longe de ser unanimidade no grupo. “É uma escolha do presidente, por indicação do ministro da Justiça. Não tem nada a ver com nós, evangélicos”, disse, ao jornal Folha de S.Paulo , o pastor Silas Malafaia. 

Um dos líderes religiosos com maior proximidade e influência junto ao Planalto, Malafaia endureceu ainda mais o tom: “Não conheço a ideologia que ele defende ou os princípios que ele defende. Só posso dizer isso: indicação do ministro da Justiça, que é presbiteriano e que indicou outro presbiteriano”.

Por outro lado, Ribeiro ganhou apoio público de um político de expressão na ala religiosa do bolsonarismo: o deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM), líder da frente evangélica na Câmara. “Acho (que ele tem) um currículo excelente, tecnicamente competente para assumir o cargo. E tem princípios que vão ao encontro com bandeiras do presidente e com o que a gente acredita. Acho que vamos viver a  paz na educação”, afirmou.

Experiência
Integrante  do Conselho Deliberativo do Instituto Presbiteriano Mackenzie, entidade que mantém a universidade homônima, Ribeiro foi vice-reitor da instituição de 2000 e 2003. Na plataforma Lattes, consta que ele foi  responsável por 38 cursos de especialização e cinco de extensão na Mackenzie, embora seu currículo não traga experiências em políticas de educação ou atuação em gestão pública.

A carreira acadêmica de Ribeiro também chama mais a atenção pelo foco na religiosidade do que pela área educacional. Suas pesquisas tiveram como foco temas ligados ao Velho Testamento e liberdade de religião. No entanto, ele não possui brechas curriculares a serem contestadas, como as que derrubaram Carlos Alberto Decotelli semana passada, antes da posse.

Resta agora saber se, ao contrários dos antecessores, grupo que inclui ainda o primeiro deles, Ricardo Vélez, o pastor Ribeiro conseguirá se sustentar como ministro.

Fonte: Correio