Baiano de 8 anos escreve livro sobre as dificuldades de uma criança na pandemia

Pianista, aspirante a violinista, atento à realidade e problemas sociais e, agora, escritor. Tudo isso aos oito anos recém-completados na última sexta-feira (10). Senhoras e senhores, abram alas para Yalle Tárique (@yalletarique no Instagram): o pequeno prodigío que vai lançar o seu primeiro livro até o próximo mês de agosto.

A ideia do livro “Diário de uma quarentena: o dia-a-dia de uma criança na pandemia” nasceu em um dos momentos mais difíceis que o pequeno e sua família passaram durante esta pandemia. O seu tio mais velho foi infectado pela doença e chegou a ficar internado em uma Unidade de Terapia Intensiva.

Morador do bairro do Vale dos Lagos, Yalle sentiu o estresse ao redor de seus familiares e decidiu escrever uma carta mandando boas vibrações para o tio. E tomou gosto. Além disso, Yalle conta que sente muita falta de abraçar as pessoas e decidiu compartilhar seus sentimentos.

Logo depois avisou à sua mãe, a cantora Rebeca Tárique, que ia escrever um diário contando das coisas que passavam por sua cabeça e que gostaria que o mundo soubesse. De acordo com Rebeca, a decisão de seu primeiro e único filho foi como uma surpresa. E, mais do que isso, um alerta para coisas que ela não conseguiu perceber no meio do turbilhão de demandas do dia-a-dia.

“Eu fiz um prefácio falando justamente que fui impactada porque não foi algo que a gente mandou. Foi iniciativa dele e quando você passa a ler se vê por outro ângulo, a gente vê que não estamos sensíveis com o que as crianças estão passando. Infelizmente no dia de hoje a gente terceriza a criação dos filhos e nos vimos na situação de ter que dar conta de tudo”, diz Rebeca.

Yalle toca piano desde os cinco anos e também estuda violino (Foto: Acervo Pessoal)

Pagar contas, acompanhar a educação, dar conta da casa e ainda por cima não surtar. Se para um adulto isso é complicado, para a criança que está ali confinada e sem saber muito bem o que fazer isso pode ser perigoso. Rebeca se diz surpresa por ver seu filho usar a escrita  para se expressar. Ou melhor, dizer um ‘mãe, peraê, tenha mais cuidado. Tenha mais calma que tá pesado pra gente também’.

A maturidade de Yalle surpreende. Não fosse a voz fina e um tanto cansada após dar várias entrevistas num mesmo dia, seria fácil passar batido de que se trata de um menino com seus 8 anos como qualquer outra criança. Gosta de jogar Minecraft, Clash Royale e de ver canais no YouTube falando dessas mesmas coisas.

O negócio é que Yalle destoa um pouco do senso comum. E faz tudo de uma forma natural e encantadora, tipo aquelas descobertas feitas por crianças que deixam os adultos mais bobos que elas que são as descobridoras da vez.

“Eu comecei a escrever quando tava entediado e escrevi uma carta para meu tio que está de Covid-19 na UTI. E aí deu a ideia de escrever um livro que está sendo feito todo online, no computador. Escrever esse livro está sendo muito inspirador. Escrevo como lidar com uma criança estressada na quarentena”, diz Yalle.

O estresse é uma realidade complicada para o garoto que tinha uma vida bem movimentada e com boa parte de seus horários ocupados durante a semana. Além das aulas normais e dos estudos de música, ele também fazia caratê e fazia questão de só parar no final de semana. O marasmo da nova rotina pesou bastante.

No dia do seu aniversário, Yalle deu uma prévia do que será o livro completo e lançou os quatro primeiros capítulos. A meta do pequenino é fazer uma obra de até 100 páginas e dar o máximo de detalhes possível de como está a sua cabeça e sua rotina durante o isolamento social.

A descoberta da escrita não foi a primeira vez que Yalle deixou sua mãe reflexiva. Rebeca conta que foi ele quem a motivou a mudar a sua própria autodescrição de ‘mãe solteira’ para ‘mãe solo’. O motivo? Ser mãe não é estado civil.

“Não digo que sou mãe e pai porque são papeis insubstituíveis, mas sou uma mãe como um todo. Cada vez mais Yalle mostra ser um menino que sabe o que quer. Não que sabe o que será quando crescer, mas sim em relação a ter uma dimensão do que é a presença dele aqui neste universo. É um menino muito sensível principalmente à realidade dos outros”, conta Rebeca antes de ler um trecho escrito por seu filho.

“Ele tem os dois bisavós ainda vivos e sente muita saudade de abraçar, de ter contato”, Rebeca Tárique, mãe de Yalle.

Yalle escreve seu no livro no computador (Foto: Acervo Pessoal)

“Olá, amiguinhos, fiquem agora com o diário de hoje. Reflitam comigo: vocês valorizam as suas coisas? Vocês sabiam que tem muita gente que não tem o que vocês têm? Vocês têm sorte por ter um lar, uma cama, uma TV, que essas pessoas não tem. É importante a gente doar as coisas que não usamos mais para as pessoas que sofrem muita discriminação. Vocês sabiam que existe discriminação racial? O bullying? E na maioria das vezes os maltratos? É muito importante, e nesse momento mais ainda, é importante ficarmos de cabeça erguida. Porque no final somos iguais e não importa nossa cor, gênero ou religião. Somos todos irmãos”, trecho do livro ‘Diário de uma quarentena: o dia-a-dia de uma criança na pandemia’.

Rebeca garante que se esforça a não dar nenhum direcionamento político na educação de seu filho, mesmo sendo integrante de movimentos sociais desde os 14 anos. A preocupação da mãe é garantir que o menino tenha uma boa educação que vá além do formal, internalizando valores como a solidariedade e sensibilidade para valorizar o que tem e ajudar àqueles quenão têm as mesmas oportunidades.

Saúde mental
Diretora da clínica Desenvolver Bahia, especializada em psicologia infantil e educação, Fernanda Burgos diz que Yalle conseguiu construir, com o livro, uma narrativa para interpretar a realidade e colocar para fora as suas angústica. E isso é algo positivo e essencial para todas as crianças neste momento de isolamento social.

A especialista aponta que é fundamental construir uma rotina de atividades para além das escolares a fim de que as crianças ocupem seu tempo de uma forma saudável e não fiquem sobrecarregadas com a quantidade de informação nova ao redor do mundo.

“Uma criança utiliza a escrita, uma outra pode usar a arte plástica, outra pode utilizar a música e tem as que vão conversar… cada criança vai lidar de uma forma mas o ideal é que elas tenham como colocar para fora essas angústicas que estão vivendo. É fundamental que famílias pensem na construção de uma rotina para as crianças. Uma rotina estruturada porque como você vive num período de pandemia acaba que as coisas ficam soltas”, diz Fernanda Burgos.

A psicóloga relata que houve um aumento de crianças desenvolvendo alguns tipos de transtorno como o o Obsessivo-Compulsivo (TOC) porque não conseguem nomear ou apreender o tanto de coisa nova que está acontecendo: o número de mortos, o medo de sair de casa e o uso de máscaras, por exemplo.

E também alerta que os problemas emocionais decorrentes da pandemia e suas implicações não é uma exclusividade infantil: “vemos esse aumento de casos em adultos também”.

“É fundamental que famílias pensem na construção de uma rotina para as crianças. Uma rotina estruturada porque como você vive num período de pandemia acaba que as coisas ficam soltas” – Fernanda Burgos, psicóloga infantil

De olho na garotada, ela conta que, junto a outros profissionais da clínica onde faz seus atendimentos, passou a fazer lives semanais todas as quartas-feiras com profissionais de educação física, arte e cultura, contação de história e outras atividades voltadas à preservação da saúde mental das crianças. O perfil no instagram é o @desenvolverbahia.

Fonte: Correio