Prefeitura de Camaçari faz visita técnica para definir destino da gangue canina de Itacimirim

A gangue dos cachorros de Itacimirim, que ganhou fama por atacar pelo menos oito moradores durante a pandemia, recebeu uma visita técnica da Prefeitura de Camaçari nesta sexta-feira (10). Após o Conselho Comunitário de Segurança de Itacimirim e Barra do Pojuca (Conseg) ter entrado com uma ação no Ministério Público da Bahia (MP-BA) para que alguma providência fosse tomada, os animais foram avaliados pela Sedur (Secretaria do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente) do município, com apoio da Polícia Militar, caso algum dos ‘meliantes’ agisse com violência ou resistisse à inspeção.

Ao contrário do que foi dito pela maioria dos moradores, o superintendente de Ordenamento e Fiscalização da Sedur Pedro Cézar Arcanjo, que comandou a ação, disse que os animais não demonstraram nenhuma agressividade. “Os cachorros estavam deitados e, quando me aproximei, eles se afastaram”, afirmou o superintendente, que também é coronel aposentado da Polícia Militar da Bahia (PM-BA). “Cão de rua só ataca se tiver com uma cadela no cio”, pontuou o coronel, que já fez trabalhos de retirada de animais de rua na PM.

O superintendente disse ainda não é papel dos órgãos municipais lidar com o “problema” de cães de rua, só com animais de grande porte, como cavalos, ou animais silvestres e peçonhentos. Contudo, devido à repercussão do caso e à recomendação do MP, a Secretaria fará a intervenção.

“A Prefeitura não tem a responsabilidade de retirar cães de rua. Não tem nada escrito a respeito disso. Porém, aliado ao sentimento da comunidade, ao sentimento de respeito aos animais e à visão da gestão, nós assumimos o compromisso de resolver o problema”, explicou o coronel.

O especialista em Direito Ambiental, Diogo Guanabara, que também é professor da Faculdade Baiana de Direito, afirma que o cuidado com cães sem dono não é de competência exclusiva da Prefeitura, mas que o órgão não pode se esquivar de resolver a situação.

“A preservação dos animais cabe a todos os entes da União. O município não pode se esquivar e dizer que não é de sua responsabilidade, ele tem que agir”, esclareceu Guanabara.

O especialista diz ainda que, em caso de agressão ou maltrato aos animais, caberia a atuação da Polícia Militar Ambiental. Já o abandono de animais é crime segundo o código ambiental, o que pode levar a multa e quase um ano de prisão.

Recolhimento
Segundo o superintendente Pedro Arcanjo, ele já providenciou um grupo de quatro voluntários para fazer o recolhimento dos cachorros na próxima sexta-feira (17), tudo alinhado com Margareth Brito, dona do Abrigo Recanto Grandes Amigos, onde serão levados os cães. Margareth já tentou resgatá-los pelo menos três vezes, sem sucesso. Na última vez, ela sofreu ameaça. No entanto, assim como o coronel, ela não acredita que cachorros sejam agressivos.

O engenheiro Carlos Eduardo, presidente do Conseg, diz que o total juntado pelos moradores para levar os cachorros ao abrigo é de 900 reais. Desde junho que eles fazem uma vaquinha. Destes, R$ 600 já foram pagos para Margareth, referente aos custos das viagens que ela fez para tentar levá-los ao centro de acolhimento. A protetora afirma que depois que eles chegarem ao sítio, vai providenciar que sejam castrados. Em seguida, vai tentar colocá-los para adoção.

A médica veterinária Ilka Gonçalves, presidente da Comissão de Bem-Estar Animal do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV), apesar de ver como uma boa iniciativa levar os cães a um abrigo, afirma que isso não vai solucionar o problema, que é recorrente na região da Linha Verde.

“Por mais que existam protetores, uma cadela entra no cio a cada seis meses e esse número de animais vai aumentar. Vai nascendo muito mais rápido do que as ações da prefeitura de proteção animal”, explica a médica.

Para uma resultado a longo prazo, Ilka Gonçalves sugere que sejam feitos mutirões de castração, para evitar que mais animais nasçam e fiquem abandonados às ruas, podendo ser um foco de zoonoses e proliferação de doenças, como raiva e leishmaniose. Ilka diz ainda que os cães abandonados são produto da falta de políticas públicas municipais para lidar com o assunto. “Os cachorros não têm culpa, eles estão ali por descaso público. Infelizmente não é a primeira vez que isso acontece. Camaçari é muito ausente nessa questão dos animais”, completa a médica.

Fonte: Correio