As 10 saudades exclusivas de Salvador

Ai, Salvador… que falta você faz. Não é exagero dizer que existem certas saudades que só são possíveis de sentir se você viver na capital baiana  – nem que seja por um tempinho. 

E tudo isso fica potencializado durante a pandemia, com tanta gente dentro de casa sem poder dar os rolés que tornam Salvador uma cidade tão única, tão cheia de histórias legais de se contar.

Pegando carona da campanha Uma Saudade Chamada Salvador, que a prefeitura está fazendo para reunir boas lembranças da cidade, o CORREIO foi atrás de baianos e turistas para responder à seguinte pergunta: quais são as saudades que só são possíveis em Salvador? 

As respostas foram das mais diversas e só confirmaram o que todo o mundo já sabe – ou pelo menos deveria saber. Até o vento de Salvador é diferente. Quer ver outras opiniões? Vai nos perfis @secultsalvador e @visitsalvadordabahia no Instagram.

 Nossa lista afetiva que está aí, ao longo da página, mas não é definitiva. Afinal, das suas saudades quem sabe é você, não é mesmo? 

1. Saudade das praias
Existem praias. E existem as praias de Salvador. Desde São Tomé de Paripe até a Praia do Flamengo, a orla soteropolitana tem muita história pra contar e com toda a certeza é um dos lugares que mais deixam saudade.

Viciada em praia, a fotógrafa Maiara Cerqueira é uma prova viva disso. Uma de suas fotos mais marcantes foi na prainha do Museu de Arte Moderna. Bastou um óculos amarelo e uma galera jogando bola na praia. Simples e bonita, a imagem tem mais de 15 mil curtidas no Twitter. A própria Maiara classifica aquela como uma das melhores fotos que fez no celular.

“Eu estava com meus amigos lá na prainha, tiramos fotos da gente e eu gosto de ficar observando as coisas que acontecem na praia. Viajo muito na galera que fica jogando bola porque é tudo muito bonito, o movimento, os reflexos, parece tudo muito alinhado”, conta.

Maiara diz que as praias de Salvador dão tanta saudade porque elas servem como um respiro para uma realidade tão desigual. “A gente melhora mesmo sem entrar no mar. Passando de buzu depois de um dia cheio quando a gente vê o mar é revigorante. Já fui a outros lugares com praia, mas as de Salvador tem algo diferente e fazem muita falta”, conta.

2. Saudade dos barzinhos
A cultura de bar em Salvador é um negócio tão forte que ninguém na cidade em sã consciência sai pra beber. Sai pra tomar uma ou comer água. Aí sim, um infinito de possibilidades, sorrisos, histórias e saudade se escancara. Dono do Boteco que leva o seu nome, Helder Alàgbà ia reabrir o seu bar no bairro do 2 de Julho em março deste ano. Mas a pandemia atrapalhou esses planos.

“Deu uma tristeza que não foi de fracasso e sim de imobilidade. Não dependeu da gente. Fizemos tudo certo, a campanha legal e todo o mundo empolgado com a reabertura do Boteco e não rolou”, disse.

Helder diz que não sabe explicar muito bem, mas quando toma uma em Salvador deseja que o mundo pare só para curtir mais um pouco aquele momento. Seja na Feira de São Joaquim ou no Dois de Julho, onde tem seu negócio, encher o copo com uma cerveja gelada na capital baiana é diferente.

Morador do Engenho Velho de Brotas, Ramon Souza já morou em Brasília e no Rio de Janeiro enquanto servia como flautista do Exército. Até que voltou para Salvador. Na pandemia, confessa que sente saudade do Quintal do Raso da Catarina, no Campo Grande, e diz que tomar uma em Salvador dá saudade porque gera uma sensação de pertencimento à cidade e sua história.

“O Centro de Salvador é lindo demais e tem uma relação profunda, que não dá para explicar. É totalmente metafísico”, diz Ramon.

Em resumo, meu amor, o negócio é o seguinte: sentir saudade de sair pra beber com seus amigos é possível em qualquer lugar. Mas saudade de tomar uma com o bonde é exclusividade de Salvador e a pertence.

Ramon sente saudade de tomar uma cervejinha no Centro (Foto: Acervo Pessoal)

3. Saudade do que eu não vivi
O mineiro Jonas Diego é tão apaixonado pela Bahia e pelo Nordeste que faz questão de dizer que o norte de Minas Gerais, que engloba a cidade que mora, Montes Claros, só não faz parte da região por mera formalidade geográfica. Ele já perdeu as contas de quantas vezes visitou a capital baiana e em 2020 tem um lamento muito forte a fazer: a pandemia cancelou a viagem que faria até aqui no último mês de junho. E aí Jonas vive a saudade do que não viveu.

Apaixonado pelo Rio Vermelho, Jonas lamenta a viagem cancelada e espera que as coisas se normalizem logo para que ele possa arrumar as coisas e tirar o atraso.

Jonas conta os dias para matar a saudade das tardes no Rio Vermelho com a amiga Tereza (Foto: Acervo Pessoal)

Falando em atraso, o estudante Felipe Luz passou um ano na Espanha para fazer um intercâmbio e voltou às pressas em um voo de embaixada antes do planejado por medo de acontecer o que se confirmou mais à frente: vários voos da Europa para o Brasil foram cancelados.

A volta para a terra Natal foi longe do imaginado. Sem amigos, sem rolés, somente solidão. Sentir saudade de um lugar mesmo vivendo nele. Esse é o drama que Felipe enfrenta.

“Eu esperava retornar à rotina que eu tinha e gostava muito, mas a pandemia impediu basicamente quase tudo”, lamenta.

Ai, que saudade da minha ex…

4. Saudade de minha dupla Ba-Vi
A Fonte Nova é o lugar mais feliz do mundo para Victor Moreno. Dentro do estádio, ele consegue render conversas com o pai que a dupla não tem durante a semana. Mesmo morando debaixo do mesmo teto. “É o lugar onde eu me sinto com a autoestima mais alta do mundo”, diz o torcedor do Bahia. Dá para imaginar o porquê de tanta saudade.

“A Fonte Nova tem um magnetismo tão grande que coisas que não conseguimos falar dentro de casa a gente fala quanto tá lá. Algumas de minhas maiores amizades vieram através desse programa de ir pra Fonte Nova assistir a um jogo do Bahia. Ela une todas as coisas de minha vida neste momento”, conta.

Victor e o pai, Paulo Sérgio, sentem falta da Fonte Nova (Foto: Acervo Pessoal)

No lado rubro-negro da cidade, também tem muita saudade. O dentista Paulo Artur Brito viajou para Pernambuco e passa a quarentena por lá junto com sua família. Nascido e criado no Barradão, ele diz que nunca na vida imaginou passar tanto tempo longe de seu Santuário.

“No final de cada temporada a gente tem um hiato até o início da outra, mas sabíamos o tempo que precisaria aguardar. Diferente da atual situação. O Barradão pro rubro-negro representa muito. É nossa segunda casa, é o local que fez o Vitória ser o Vitória”, diz Paulo Artur, que frequenta o estádio desde pequeno.

A saudade é por conta do turbilhão de emoções que o estádio oferece. “Vivi emoções ambíguas no mesmo dia. Onde tive minhas maiores alegrias e decepções dentro do futebol, mas nunca minou o amor. Pelo contrário, só cresceu”. 

Paulo Artur nunca passou tanto tempo sem frequentar o Barradão (Foto: Acervo Pessoal)

5. Saudade do Pelô
Um portal de conexão com a ancestralidade. Assim a estudante Andressa Oliveira define o Pelourinho, lugar por onde já cansou de ir só para olhar o movimento e se sentir em uma gravação de “Ó paí, ó”.

De fato, se tem uma coisa que é a cara de Salvador e de seu povo é o Pelourinho. Suas ruas ladrilhadas, “suas ladeiras que faz confusão na cabeça de soteropolitano e gringo por serem iguais” e até o aperto no peito que às vezes bate por pensar na quantidade de sofrimento que já passou por aquelas ruas.

Para Andressa, se conectar com o Pelô é fazer o mesmo com a cidade, quase em uma simbiose. Pelourinho é Salvador e Salvador é Pelourinho. Não há saudade de um sem pensar no outro. Nada mais soteropolitano.

Andressa Oliveira diz que andar no Pelourinho é como viver uma gravação de Ó Paí, Ó (Foto: Acervo Pessoal)

6. Saudade dos rangos
Ô cidade pra ter gente com mão boa pra cozinhar. Namoral, véi! O dentista Arthur Lima que o diga. Dia desses ele se pegou pensando no tempero que o bar da Mônica faz para o peixinho. O sabor só faz ficar mais apurado com o dengo da companhia de seu namorado e quando junta isso com a vista para a Baía de Todos Os Santos então… é a equação perfeita para um diazinho de folga.

E haja comida boa por aqui, né? Desde iguarias mais elaboradas como as moquecas nas barracas da Base Naval até comidas mais simples como o cachorro quente do Travessas, no Santo Antônio Além do Carmo. Ainda tem nessa lista o Acarajé da Dinha, as feijoadas de vovós, mamães e papais que não tá dando pra ter nesses dias. É muita comida boa pra sentir saudade. E tudo em um lugar só.

Um mergulho no mar da Gamboa depois de uma moqueca saborosa? Pode ter parecido, mas igual a Salvador não há (Foto: Acervo Pessoal)

7. Saudade dos acarajé de um real
Essa saudade precisou ser separada do tópico acima pelo seguinte motivo: até dá para encontrar acarajé em outros lugares do país. Mas acarajé de um real é exclusividade nossa.

Hoje advogado, Marcelo Coutinho diz que desde seus tempos de estudante no colégio São Bento fazia o chamado ‘tour de R$1’. Descia do ônibus na Piedade e saía caçando os acarajés baratinhos até chegar ao colégio.”O tempo me trouxe de volta pra esse trajeto porque 6 meses depois de tirar minha OAB vim trabalhar no centro. Aí é certo, pelo menos uma vez na semana eu dou uma escapa pra comer dois ou três acarajés de um real. Em baianas diferentes pra ninguém ficar com ciúme. Agora que tou trabalhando de casa fico morrendo de saudade”, lamenta.

8. Saudade do pôr do sol
O céu de Salvador é mais azul (nem me venham com rimas). Quem diz isso é a professora Lavínia Gargur. E a consequência de um céu mais bonito é um pôr-do-sol mais bonito.

“É uma das minhas maiores saudades nesse isolamento social, principalmente o do Farol da Barra. Porque ali naquele lugar há uma energia surreal: as pessoas se juntam, cantam e se divertem nesse momento tão especial”, diz Lavínia.

Salvador tem o privilégio de ter vários pontos para ver um pôr-do-sol exuberante. Além do Farol da Barra, também dá pra curtir no Humaitá, Museu de Arte Moderna, Itapuã e tantos outros. Privilegiado é quem tem essa vista dentro de casa para diminuir um pouco a saudade.

Saudade de uma fotinha no contra-luz com pôr-do-sol ao fundo, não é, minha filha? (Foto: Acervo Pessoal)

9. Lavagem do Bonfim
Nada mais soteropolitano do que a Lavagem. Dona Elísia Santos, 56, defende de que é a festa que mais identifica Salvador no mundo. Mais até do que o Carnaval. E a expectativa de não viver a festa no ano que vem lhe causa tanta tristeza que a aposentada até desconversa quando questionada sobre o assunto.

“Meu filho, só de pensar eu fico mal. Já são 50 anos indo para a Lavagem. Sem faltar umazinha sequer. Ia com minha mãe, levei minhas filhas e nesse ano levei meus netos. Eu acho que não vai acontecer no ano que vem e já tenho tanta saudade”, diz.

A festa do Senhor do Bonfim é comemorada há 275 anos. Em 2020, cerca de 1 milhão de pessoas se mobilizaram da Igreja da Conceição da Praia à Colina Sagrada. Um dia depois da Lavagem já dá saudade, imagina ficar um ano sem aproveitar os 8km? Difícil, né?

Após o 2 de Julho e São João serem cancelados, já tem gente sentindo saudade da Lavagem do Bonfim (Foto: Marina Silva/CORREIO)

10. Tomar um cravinho
O aquecimento antes da saída do Gandhy, ensaios do Olodum, e um monte de show que acontece no Pelourinho tem sabor de cravinho. E há várias opções: gengibre, cravinho, jatobá, senzala… cada um com sua preferência, mas tem que ter.

O aniversário de 18 anos da estudante Maria Santana, hoje com 20, foi em um show da banda ÀTTØØXXÁ no Pelourinho. “Desde aquele dia, tomar um cravinho é a experiência toda. A bebida, o show, os lugares que andei, o bar do samba. Tudo!”. E você já deve imaginar que esse processo se tornou um ritual. Ela nem pensa em entrar no Pelô sem ‘pagar o pedágio’ do Cravinho. Um ritual com gostinho de Salvador.

Haja gatilho de saudade nesta cidade, não é mesmo? E sabemos ainda há outras várias saudades que só são possíveis em Salvador. Nos próximos dias, a Secretaria de Cultura e Turismo de Salvador (Secult) vai lançar a campanha “Uma saudade chamada Salvador” com a ideia de manter a capital baiana no imaginário dos soteropolitanos e turistas. Mais gatilhos virão. Salvador tem dessas.

Fonte: Correio