As escolas devem abrir primeiro!

Cláudio Marques é cineasta (Foto: Divulgação)

Quarentena – dia 119

Eu conversei com um amigo de São Paulo. Ele me contou que fez uma série e dois curtas, desde o início da pandemia. Já foi chamado para filmar nos próximos dias. O mesmo com amiga que mora no Rio de Janeiro. Ela vai filmar um documentário sobre o COVID-19. Minha professora de pilates, aqui em Salvador, mandou mensagem contando que vai voltar a dar aulas, em casa. Amiga atriz que trabalha na Globo me conta que vai voltar às novelas, no final de julho.

Nenhum deles possui filhos.

Alguns amigos e amigas que foram convocados pelas empresas para volta ao trabalho estão desesperados. Eles têm filhos e não sabem como reorganizar a vida sem as escolas.

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O Brasil vivencia platô elevado de mortes e novas infecções. São, pelo menos, 45 mil novos infectados por dia. Provavelmente, milhares mais irão morrer. Segundo especialistas, na melhor das hipóteses, esse platô vai continuar estável por mais algumas muitas semanas

Mesmo assim, muita gente já voltou ou está voltando ao trabalho. Muitos pela exaustão que o isolamento e falta de perspectivas impuseram. A maioria vai voltar por não ter mais condições financeiras, mesmo. As pessoas precisam trabalhar e vão enfrentar a roleta-russa que se tornou o nosso dia-a-dia.

Para quem tem filhos a questão é ainda mais complexa. Como voltar a trabalhar sem as escolas funcionando plenamente?

Eu tenho um filho de cinco anos e divido o cuidado do meu pequeno com a minha companheira. Ocupamo-nos de casa, comida e Tião, praticamente o dia todo. Sobra pouco tempo para o trabalho, não mais do que quatro horas diárias. Com muito esforço.

Conheço duas famílias de classe média que, ao serem convocados ao trabalho, chamaram de volta as babás de suas crianças. As babás, por sua vez, possuem filhos, que ficaram sozinhos em casa.

A eterna e irremediável desigualdade no país.

Fato que para mim e para milhões não há chances de volta à rotina sem a escola. E não há condição alguma para que as escolas voltem a receber crianças e jovens, nesse momento.

Não adianta liberar o funcionamento de academias, restaurantes, salões de beleza e o escambau. Sem escola, a sociedade se desorganizará ainda mais.

Já estamos em processo de reabertura que irá aprofundar as desigualdades sociais. Planos que não possuem lógica na maioria dos estados. Os aviões já seguem lotados, mas as praias e os parques permanecem fechados. Salões, academias, bares e restaurantes cheios, mas as escolas estão fechadas.

As escolas deveriam ser os primeiros estabelecimentos a serem liberados, os bares os últimos. 

Acabo de ler o texto de Flávia Azevedo, no Correio. Muitos donos de escolas particulares estão tencionando pela volta às aulas, mas não há um plano mínimo e coerente que dará segurança às famílias.

Na mesma edição do Correio, dia 11/07, depoimentos fortes de professores que sofrem forte pressão psicológica e mal conseguem dar conta do dia-a-dia em suas casas.

Continuamos, em médio prazo, nas mãos do vírus. Sem que exista uma mutação ou uma imunidade coletiva súbita essa pandemia não terá fim.

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A aprazível rua Direita do Santo Antonio, uma das mais sedutoras de Salvador, continua um caos total. Uma obra da qual nada sabemos, jamais fomos informados sobre nada, muito menos data de término. Obras que começaram praticamente ao mesmo tempo que a pandemia.

Obra mal planejada, que deixa valas abertas por meses, em pleno período de chuvas na cidade. Casos de dengue, zika e chikungunya explodiram.

Texto originalmente publicado no blog do autor e reproduzido com autorização

Fonte: Correio