'É fundamental a continuidade do tratamento de câncer', diz diretor da Oncomed

‘É fundamental a continuidade do tratamento de câncer’. O alerta foi feito pelo diretor da Oncomed, Roberto Porto Fonseca, durante a Live do Tempo desta quinta-feira (16). Segundo ele, as pessoas devem procurem de maneira normal o seu médico ou sua instituição de saúde para manter os exames de prevenção e dar prosseguimento ao tratamento mesmo durante a pandemia de Covid-19. Há um temor, na avaliação dele, de que adiamentos de consultas e diagnósticos possam contribuir para um aumento substancial de casos mais graves de câncer na população nos próximos meses. O diretor da Oncomed disse também que a expectativa é que o Hospital Horizonte, no bairro Mangabeiras, seja inaugurado no dia 10 de setembro, oferecendo atendimento em dezenas de  especializadas. Confira entrevista.

Houve um cancelamento de 70% das cirurgias de câncer no Brasil entre março e maio. As pessoas abandonaram o tratamento? Existe um outro dado que também é preocupante. Aproximadamente, 60 a 90 mil exames de anatomia patológica não foram cadastrados durante o período dos dois meses iniciais da pandemia. Significa que exames de prevenção primária ou secundária não foram feitos. Consequentemente, é possível que a gente venha a ter um aumento substancial de casos mais graves de câncer na população nos meses vindouros. Tratar de câncer com sucesso significa evitá-lo através de prevenção primária ou secundária, e tratar de maneira mais eficiente e eficaz. Significa exames periódicos de rotina sendo feitos. No período da segunda quinzena de março até julho, atendemos mais de 13 mil pacientes na Oncomed. Nós tomamos 82 ações preventivas para a segurança dos nossos pacientes e dos colaboradores. Antes da pessoa adentrar na Oncomed é feito uma triagem na portaria. Tivemos 194 pessoas com algum tipo de sintoma. O plantonista foi acionado em 40 casos. Foram pedidos 13 testes para a Covid, quatro resultados apenas vieram positivo. Não tivemos qualquer tipo de problema com a pandemia em nossos atendimentos nesse período. Recentemente, tivemos acesso a uma síntese de inúmeros estudos, estamos falando de 46.499 pacientes com Covid tratados pelo mundo, e destes, 1.776 foram portadores de câncer. Existe um grupo de pacientes com câncer, particularmente linfomas, leucemias, câncer de pulmão, que têm um agravamento do seu quadro clínico quando do diagnóstico da Covid. Inclusive com aumento de mortalidade e da necessidade de UTI. Porém, isso não signfica que todos os pacientes com câncer têm esse aumento de mortalidade. É fundamental a continuidade do tratamento de câncer, que é uma doença crônico-degenerativa de caráter progressivo, deve ser avaliada pelo paciente e pelo seu médico. Aonde vão ser avaliados a efetividade do tratamento e a segurança. 

De que forma o isolamento social, o medo da transmissão e esse adiamento da procura pelo tratamento pode impactar no médio e longo prazo sobre as chances de cura dos pacientes com câncer? O diagnóstico precoce, ou seja, a preveção secundária, é fundamental no sucesso. Vamos dar um exemplo simples, uma paciente com lesão mamária, um tumor de mama de um centímetro, ela tem um prognóstico, do ponto de vista histopatológico, é muito melhor do que se seu diangóstico for feito com tumor de 3, 4 centímetros. Quanto mais precoce, independente do tipo de câncer, o diagnóstico for feito, melhores as chances de sucesso, menor a agrassividade do tratamento, inclusive menor o custo de tratamento como um todo. Prevenção ideal é a primária, através de atividade física, alimentação saudável, evitar tabagismo, alcoolismo. Isso evita o aparecimento de 30%, 40% dos tumores malignos. Quando isso não é possível, vamos lutar para ofercer exames periódicos, que vão trazer diagnóstico precoce e mais sucesso no tratamento. Esse é um dos problemas graves da Covid, que tem trazido pavor e sofrimento à população e evitado que as pessoas procurem de maneira normal o seu médico, sua instituição de saúde para manter os exames de prevenção. 

Existe alguma interação entre o vírus e algum tipo  de câncer para que possa torná-lo mais grave? O que os estudos têm mostrado é que, alem da doença, comorbidades como hipertensão, diabetes, doenças pulmonares crônicas é que efetivamente alteram a gravidade, o custo da Covid-19. Quando você tem pacientes com câncer mais idosos, o prognóstico é pior quando ele adquire a doença, mesmo fazendo uso de quimioterapia. Os estudos são um pouco contraditórios, aparentemente não há tanta alteração. Qualquer peso na balança deve ser feita pelo médico  e seu paciente. O câncer tem caráter crônico, degenerativo e progressivo. Não espera o tratamento. Temos também a possbilidade de eventualmente, no meio do caminho, mudar o tipo de tratamento. A paciente com câncer de mama (que esteja se) submetendo à quimioterapia que tenha receptores hormonais positivos, você pode oferecer tratamento hormonal e assim por diante.  

O senhor percebeu uma redução pela procura de atendimento na rede Oncomed ou se manteve dentro da expectativa ao longo desse período inicial da pandemia? Eu citei 46.499 pacientes avaliados numa síntese de trabalhos científicos aonde nós tivemos 1.776 com câncer, e os estudos mostraram qual foi a evolução deles. A Oncomed, na verdade, nós tivemos acima de 13 mil pacientes, 194 quando adentraram na Oncomed foram avaliados pela triagem e tinham algum tipo de sintoma, 40 foram avaliados pelo médico e, desses, foram solicitados 13 exames, e quatro vieram com resultados positivos. Nós tivemos uma redução de pacientes novos, os diagnósticos nesse período se reduziram. Do ponto de vista do tratamento, não houve redução. Nossos pacientes a todo momento, isso tem sido parte das nossas ações, foram informados através de telefonemas, lives etc do que é o melhor para eles. Redução dos tratamentos não houve, mas de novos casos diagnosticados e submetidos à avaliação inicial.

De que forma  a rede Oncomed se preparou para fazer os atendimentos e o tratamento nesse cenário de pandemia? Fizemos 82 ações até o momento, do fluxo seguro dentro da Oncomed, orientação de paciente na sua residência com relação às medidas que toda a população deve tomar, triagem, álcool em gel, máscaras para todos os pacientes. Todas as medidas necessárias para evitar qualquer problema e oferecer a  melhor segurança para os pacientes  e colaboradores foram e estão, a todo momento, sendo oferecidas. Pacientes estão recebendo o melhor tratamento, com índice muito baixo de dianóstico de Covid.

Como a pandemia tem afetado o senhor? Tudo que afeta os meus pacientes, me afeta também. Além da minha vida familiar, meu trabalho também é uma delícia, mas, infelizmente, com essa informação massiva, preocupante, tenho sentido que meus pacientes estão muito envolvidos, sofrendo muito, apavorados. Isso nos faz sofrer também. Estamos precisando, para vencer, essa pandemia vai passar, mostrar mais o nosso lado humano e colocar muita compaixão no coração.

O senhor recomenda o uso de cloroquina e ivermectina? Isso é pessoal. Nós, oncologistas, temos um posicionamento de oferecer tratamentos para os pacientes com a base na melhor ciência, que exista confirmação através de estudos científicos, e que vai ter segurança. A questão da ivermectina e da cloroquina eu não tenho recomendado para os pacientes. Lendo o máximo de trabalhos que eu pude, não consegui ter uma visão sólida de benefícios. E dizer que cloroquina e ivermectina não têm efeitos adversos, é algo que eu não acredito porque têm, podem ter. Não recomendo, mas não critico o colega que recomenda. O único trabalho científico randomizado que tive acesso e que tem uma ciência apurada é da Universidade de Oxford, (mostrando) a utilização do corticosteroide dexametazona para o tratamento desses pacientes, fora isso eu até o momento não consegui enxergar benefício para o uso de cloroquina ou ivermectina.

Como avalia o fato de as pessoas estarem morrendo em casa por medo? Infelizmente, o índice de infartos do miocárdio, entre outras doenças, tem aumentado de maneira significativa por falta de tratamento adequado. Por medo. Parte disso, com todo o respeito, eventualmente (por causa) da informação que está sendo repassada por parte da imprensa para a população. É uma doença grave, perder uma vida é extremamente pesado. É um vírus de alta transmissibilidade, letalidade, possivelmente em torno de meio por cento ou um pouco mais. Isso como um todo. A letalidade  em Minas Gerais está em torno de 2,5%, mas foram casos que foram avaliados com sintomas  de Covid. Temos 85% da população que, possivelmente, não vai ter qualquer tipo de problema com o vírus. Parabenizo os prefeitos, é uma questão pessoal, a Prefeitura de Belo Horizonte e de Betim estão fazendo de tal forma que estão salvando vidas. Se você abre a coisa toda no mesmo período, se 5% da população de 2,5 milhões pessoas precisarem de assistência hospitalar ao mesmo tempo, não há hospital que aguente. Então, o isolamento é importante, principalmente para os nossos cidadãos com problemas de risco: idoso, diabético, hipertenso. 

Setor produtivo, comércio, indústria vão ter que esperar mais para a reabertura? Não adianta, com todo o respeito, nós abrirmos milhares de leitos e oferecer para a população. Primeiro, não vamos conseguir pessoal. Para abrir hospital tem que ter avaliação e adequação de recursos humanos, materiais e técnicos. Não existe no Estado de Minas Gerais pessoal adequado o suficiente para uma possibilidade de 100 mil leitos. Temos que abrir de acordo com a informação técnica que temos recebido da Prefeitura de Belo Horizonte. A parte técnica da Secretaria de Saúde me parece exemplar, porque, graças ao bom Deus, o que está havendo aqui é que já estamos chegando no pico, possivelmente no platô. Deveremos ter uma redução logo, vamos vencer essa pandemia, com redução significativa de mortes do que em áreas como Espanha e Itália. Infelizmente, não tem jeito, é destrutiva a questão econômica, mas a questão social que está um pouco acima, que são a vidas, precisa ser presrvada. A única maneira que um gestor municipal ou estadual tem nesse momento contra essa pandemia é fazer a coisa gradativa, confinar e gradativamente ir soltando de acordo com os índices.

Como avalia o comportamento da sociedade nesse momento? É muito curioso. Somos seres humanos e, consequentemente, somos diferentes. Na resposta à doença, nos sentimentos e assim por diante. Tem gente sofrendo muito em decorrência do confinamento, tem gente sofrendo muito em decorrência de perda de empregos, de seus negócios. A sociedade está num processo de sofrimento muito grande. A gente vê isso no dia a dia com nossos pacientes.

Existem casos em que o tratamento venoso pode ser substituído pelo oral? Tem sim, Para isso, é necessário que se avalie a efetividade do tratamento e a segurança, porque considerando, não necessariamente verdadeira, mas uma provável, possibilidade de aumento do risco, durante a pandemia, no uso de quimioterapia, se pudermos utilizar, vou exemplificar, no caso de câncer de mama, hormônio em vez de quimioterapia, com uma redução eventual da efetivadade, mas um aumento da segurança, pode ser feito. Cada caso é um caso. Tem que ser avaliado com muito carinho.

Como está funcionando o drive thru e a teleconsulta? Uma das 82 ações que nós instituímos para diminuir problemas e aumentar a segurança dos pacientes e dos colaborações foi a instalação de drive thru. Paciente que faz uso de medicação oral tem pego para três meses em vez de pegar todo mês. E a pessoa não precisa sair do carro para pegar. Funciona bem, diminui o contato e a aglomeração. Temos feito cada vez mais telemedicina, hoje, particularmente, fiz três consultas, duas delas no interior. Está funcionando muito bem, é algo que veio para ficar porque traz uma série de benefícios para os pacientes. Ajuda a diminur a aglomeração e o contato.

Está impactando de alguma forma no tratamento essa redução da doação de sangue, especificamente no tratamento de câncer? No Hemominas, houve uma redução de mais de 40%. No Instituto Nacional do Câncer, mais de 50%. O senhor está sentindo essa redução ou está conseguindo contornar? Nós usamos relativamente pouca transfusão de sangue. Não temos sentido, mas é um problema sério do Hemominas. As transfusões são mais utilizadas a nível hospitalar, que também teve redução de cirurgias. É possível que tenha havido uma compensação. 

O que dizer para essas pessoas que estão com medo de procurar um tratamento? Acredite na sua cura, no seu médico, discuta os riscos e os benefícios do tratamento recomendado. Através disso, você vai achar o caminho adequado para o seu caso em particular.

O hospital da Oncomed BH, unidade Mangabeiras, já tem previsão de abertura, está funcionando de alguma maneira? O Hospital Horizonte vai trazer para a nossa cidade uma instituição de saúde com 57 especialidades, o que há de melhor em termos de efetividade, segurança e custo. Infelizmente, tivemos atraso de fornecimento, mas é possível que nos próximos dias, vamos poder oferecer, inclsuive, alguns leitos para a população de Belo Horizonte que necessite eventualmente de tratamento dessa doença nessa pandemia. A abertura oficial, independe dessa parte que está sendo oferecida à Secretaria Municipal de Saúde, deverá ser no dia 10 de setembro. 

Ele já gerou aqueles 2.000 empregos que estavam previstos? A partir de agosto estamos empregando 400 pessoas e vai num crescente até chegar num total de 2.000 empregos. É possível que, diretos e indiretos, vá para 4.000 empregos. Considerando todas as áreas, desde um servente, auxiliar de enfermagem enfermeiros, médicos. Nós, médicos, não trabalhamos sozinhos. É uma família unida para trazer o que for melhor para a sociedade. E também teremos área de prevenção, ensino, pesquisa. Estamos chegando lá. 

Fonte: Agencia Brasil