Após testes, vacinas devem chegar rapidamente à população, diz pesquisador

Para o pesquisador sênior da Fiocruz, Hércules Neves, os laboratórios possuem capacidade para produzir rapidamente as vacinas contra o coronavírus em larga escala e fazer com que os insumos cheguem à população após a finalização dos testes de segurança. Cientista especializado em nanotecnologia aplicada em saúde e coordenador do Instituto de Inovação e Incorporação da Faculdade de Ciências Médicas, Neves foi o entrevistado desta sexta-feira (17) na Live do Tempo. O especialista ainda diz que as pesquisas mais promissoras no mundo sobre a eficácia da imunização contra a Covid-19 já caminham para a fase final . Veja abaixo a entrevista:

Com a pandemia, houve um avanço da telessaúde no Brasil? A pandemia é uma situação ímpar que pegou o mundo de surpresa. Não é só uma questão de ter encontrado o Brasil despreparado, pegou o mundo despreparado. Há de se tirar r algum tirar algumas lições dessa dessa situação toda. O mundo hoje se conscientiza da necessidade de algumas mudanças e uma delas se refere justamente a telessaúde. Ela já vem ganhando força nos últimos tempos, inclusive com apoio legal, hoje é uma atividade já regulamentada. E o que nós vemos a necessidade de tornar isso cada vez mais consolidado, através inclusive de ferramentas tecnológicas que possibilitem um empoderamento das decisões. Em breve não se tratará mais de simplesmente uma conversa remota entre médico e paciente, mas algo que envolva a coleta de parâmetros e subsídio maior para as decisões do médico. 

É algo que vai demorar muito tempo para ser implementada em definitivo, vai ser uma realidade no pós-Covid? Acredito que ela já ela já é uma realidade. Hoje nós temos visto uma presença muito forte da telessaúde em frente como a psiquiatria, psicologia. A tendência é que só se fortaleça. Em países como o Brasil, onde eu acesso à saúde qualidade não é exatamente uniforme, de forma geográfica ou socioeconômica, a telessaúde permite uma uniformização maior desse acesso. Permite levar às populações remotas e comunidades carentes uma saúde de qualidade. Como disse, não se trata simplesmente de um contato de imagem entre médico e paciente, mas através de novas tecnologias que já estão em desenvolvimento, e em alguns casos até disponíveis, a instrumentalização dessa telessaúde, a coleta de informações como a pressão sanguínea, outros dados importantes, a possibilidade de auscultar o paciente de forma remota. Isso tudo já é uma realidade do ponto de vista tecnológico, então é fácil concluir que a disponibilização disso a curto prazo é uma realidade.

Guerra entre a ciência e a Covid-19, quais avanços tivemos em relação às vacinas, diagnósticos e testes? Pode-se dizer que de certa forma a Covid-19 pegou também a comunidade científica de surpresa, até certo ponto pelo menos. O que acontece é que hoje nós temos uma pressão muito grande, de todo lado, para entregar resultados mais rapidamente. Acontece que não é um processo que se consiga facilmente acelerar. Para se desenvolver uma vacina, por exemplo, há que se seguir todo um trâmite que envolve aspectos de segurança que tem que ser observado. Em pese toda a pressão que se coloca na comunidade científica, não há como como entregar as coisas com essa celebridade que tem sido demandada. Por outro lado há situações também completamente novas para própria comunidade científica, no que se refere até mesmo a reportar os os resultados da pesquisa. Hoje nós estamos vendo as coisas acontecendo no espaço tão rápido, que isso nos pega de surpresa também. Eu me lembro que no começo da minha carreira, eu me baseava em trabalhos publicado, quando muito há um ano, isso aí já era uma coisa totalmente fora de norma.  Usávamos publicações científicas que, em uma situação ideal, eram muito recentes, algo publicado entre dois a quatro anos. O que eu tenho na minha hoje para leitura é trabalho que foi publicado há dois dias. Garantir a qualidade de material é muito difícil, nós temos que tentar corresponder aos anseios da sociedade, mas há uma limitação inclusive de caráter humano. Há sim uma grande dúvida que paira no ar em relação aos mecanismos básicos da doença ou o entendimento do próprio é vírus, muito embora isso tenha acontecido de forma rápida se comparado com o entendimento de diversas outras doenças. O que é difícil também é o fato de que toda essa pressão torna a situação ainda mais complexa, porque há sempre muito cuidado, do ponto de vista da publicação de resultados, para não não criar falsas expectativas. Mas essa pressão de área está fazendo com que muitas vezes os resultados saiam sem o preparo que normalmente é característico da comunidade científica.

O mundo inteiro está ansioso para a vacina e contando com o surgimento dela, inclusive com previsões de que teremos as doses disponíveis para a população no ano que vem. O senhor acredita nessas datas? Nós passamos hoje por uma revolução nas ciências biológicas absolutamente fantástica. Essa mudança que é observada só encontra comparação com o que aconteceu na física na virada do século 19 para o 20. É o quando tivemos Einstein, com o advento da física quântica que nos permitiu toda eletrônica que temos hoje. Essa revolução tem impacto direto nas nossas vidas, então temos novas tecnologias de importância crucial que estão sendo disponibilizadas muito rápido para a mudança da maneira de se lidar com a nossa saúde. É uma época muito boa de se viver, já que as descobertas estão acontecendo numa velocidade assustadora. Isso atinge necessariamente o desenvolvimento de medicamentos e em particular desenvolvimento de vacinas. Temos hoje mecanismos novos para se desenvolver vacinas, para desenvolver testes, que são coisas absolutamente necessárias no enfrentamento da Covid-19.

Temos uma corrida pela vacina, já é de conhecimento de todo mundo, mas, do ponto de vista técnico e científico, há algumas novidades. Uma delas é a vacina o que se baseia no RNA mensageiro, que é um ácido nucleico. Tendo a capacidade de conseguir programar o RNA, conseguimos programar a geração de mecanismos de Defesa do nosso organismo. Até pouquíssimo tempo, só existia a possibilidade de trabalhar com doenças virais através do vírus atenuado ou vírus inativado no desenvolvimento de uma vacina. Hoje podemos mandar para o nosso organismo um código que gera, de forma customizada, os mecanismos de defesa e anticorpos específicos para criar resistência ao coronavírus. O que é interessante observar é que essas tecnologias nos permitem o desenvolvimento e a produção acelerada, em larga escala, dessas vacinas e soros. Isso nos faz crer, com bastante segurança, que já no final deste ano tenhamos pelo menos uma dessas vacinas funcionando bem. 

Os testes rápidos são, muitas vezes, criticados pelos próprios cientistas pela imprecisão dos resultados. Qual a sua opinião sobre o assunto? Não há absolutamente nada que impeça que eles tenham a mesma qualidade ou às vezes até qualidade superior aos testes convencionais de laboratório. Alguns dos maiores avanços recentes da tecnologia, que eu sinto por exemplo a tecnologia crisper, iniciada de uma forma polêmica, porque no final de 2018 falou-se muito da edição genética de embriões humanos usando a tecnologia crisper. Hoje temos acesso a essa tecnologia para o diagnóstico, então às vezes é possível, usando o crisper, detectar a presença de uma cópia do vírus numa amostra biológica, coisa que nem com PCR nós conseguimos.

Como os vírus sofrem mutações, essa característica pode tornar as vacinas em desenvolvimento menos eficientes? O novo coronavírus é um vírus de RNA, é o maior vírus ponto de vista do tamanho do Genoma dele, vp, código genético grande se comparado com os demais vírus que nós conhecemos, como o HIV. Ele é uma máquina muito perfeita, se analisarmos do ponto de vista genético. Tem um mecanismo de correção de falhas, quando sabe verificar se a cópia foi bem feita e corrigir esses eventuais erros. Se comparamos os genomas que foram disponibilizados desde dezembro do ano passado até agora, ele é relativamente estável do ponto de vista de mutações, se for comparado com outros vírus. Em particular, a gente ouve falar muito daquela proteína Spike, que encaixa em receptores no nosso corpo, a parte do genoma que codifica e ensina a formar essa proteína não sofreu absolutamente nenhuma anotação desde dezembro. Isso nos dá uma esperança muito grande porque facilita enormemente a produção de vacinas. Então podemos ficar tranquilos, porque ele é altamente estável.

Como está o trabalho da Fiocruz na corrida pela vacina do coronavírus? A instituição tem um papel muito importante na produção de vacinas no Brasil. Isso já é notório em diversas outras situações e ela faz pesquisa de ponta no desenvolvimento de novas vacinas e tecnologias associadas a isso. A Fiocruz vem trabalhando em uma parceria muito importante com a UFMG. Então eu diria que ela está acompanhando de forma muito próxima os últimos desenvolvimentos tecnológicos em escala mundial. Nós não estamos atrás de outros países no que se refere a isso, pode ser que a nossa vacina demore um pouco mais do as outras, até porque os recursos econômicos que estão sendo colocados pelas grandes empresas são astronômicos. Mas nós temos equipes de altíssimo nível e de competência muito bem estabelecida, trabalhando em igualdade de condições do ponto de vista científico. 

O teste rápido é um avanço sem precedentes? Aquele teste singelo que fica na farmácia ou na clínica contém coisas até mirabolantes. Por exemplo, ele contém nanopartículas. Ele incorpora uma série de tecnologias de ponta que às vezes passam despercebidas. Com isso, não se deve inferir que pela simplicidade aparente dele a qualidade não é compatível com outros tantos processo de teste. O que é interessante lembrar é o seguinte: se nós estivermos falando aqui de um teste de boa procedência, ele inclusive pode evitar uma série de erros operacionais que decorre da complexidade de um teste de laboratório convencional. Ele não é infalível, mas o teste laboratório também não. O importante é levantar a seguinte questão: que pergunta eu estou tentando responder com o teste, se eu tenho vírus no meu organismo, estava contaminado. Então a escolha do teste tem que se adequar a pergunta que nós queremos fazer.

O teste que usa a saliva para detectar o coronavírus pode levar entre sete e 30 dias para ser concluído. Por qual motivo há essa demora? Acima de tudo é um problema de logística, não é por conta do teste em si. Do ponto de vista tecnológico, não há nada que faça com que você precisa de ficar esperando alguns dias para conseguir o resultado. Digamos que numa situação ideal, se tivesse o laboratório disponível para fazer o seu teste, não há nada que justifique que só fica pronto no dia seguinte. É justamente por causa disso que as tecnologias de teste rápido são importantes, porque elas permitem um acesso em massa de um teste de alta confiabilidade em situações de pandemia.O tempo de internação de um paciente em qualquer hospital do mundo tem a ver com a demora em se obter resultados de laboratório. Se houver uma celeridade dos testes, é possível cortar substancialmente o tempo de internação de um paciente em 30%, às vezes 50%.

Fonte: Agencia Brasil