Baleias baianas: jubartes já chegaram à Bahia para temporada de reprodução

As águas mais quentes e o mar mais calmo do Banco de Abrolhos, localizado entre o norte do Espírito Santo e o sul da Bahia, têm as condições perfeitas para a procriação das baleias jubarte, o que faz com que muitos dos filhotes desses mamíferos sejam baianos e capixabas.

Todos os anos, esses animais gigantes fazem o mesmo percurso de 4,5 mil quilômetros entre a Antártida e o Brasil, onde chegam em massa entre julho e novembro, na chamada temporada das baleias.

Nem sempre elas chegam juntas no Brasil. Neste ano, a primeira apressada foi avistada em Ilhabela, no interior de São Paulo, em 30 de abril. Na costa da Bahia, as baleias escolhem tanto o sul quanto o litoral norte do estado para acasalarem e darem cria.

Nessa temporada, pesquisadores do Projeto Baleia Jubarte já avistaram 120 animais no Banco de Abrolhos – 70% da população que vem para o país fica no local – e mais de 30 no litoral norte baiano.

Os números são animadores e indicam uma boa temporada, aponta o projeto. A expectativa é que mais de 20 mil indivíduos da espécie venham para o Brasil neste ano.

“Os primeiros dados indicam que vai ser uma temporada com muitas baleias. Essa quantidade por temporada muda, mas não sabemos o que causa essa flutuação. Já realizamos alguns cruzeiros, que confirmam que as baleias chegaram, e chegaram com força”, disse Enrico Marcovaldi, coordenador e co-fundador do Baleia Jubarte, projeto que completa 32 anos em 2020.

Esse movimento, segundo ele, pode ser visto inclusive na capital. “Foi possível observar os animais bem em frente à cidade de Salvador, o que prova que cuidando bem da espécie, ela volta às suas antigas áreas de reprodução”, completou.

Baleia jubarte no Banco de Abrolhos (Foto: Enrico Marcovaldi/Projeto Baleia Jubarte)

A chegada de mais baleias não é animadora apenas para os pesquisadores, mas também para os turistas que vão ao mar buscando presenciar o canto e as acrobacias dos animais. Os membros do projeto garantem que quem vê o mamífero não esquece jamais. A exuberância desses animais realmente é marcante. Há mais de 10 anos, o estudante Breno Bastos, 19 anos, foi em Abrolhos e viu uma Jubarte pela primeira vez, até hoje, ele se lembra do que presenciou. 

“Achei muito bonito, lembro de ter visto uma mãe e um filhote juntos e ter ficado feliz por eles terem vindo para o Brasil, eu não sabia que elas vinham para cá. Na época, eu tinha uns 6 anos e adorei ouvir o canto das baleias. Logo pensei que elas conversavam igual a gente e que eu queria falar com aqueles barulhos igual a elas”, relembrou.

Ao final da pandemia do novo coronavírus, quem desejar ter a experiência de observar uma Jubarte deve contratar uma operadora de turismo parceira do Projeto Baleia Jubarte. Uma lista das empresas está disponível no site da entidade. 

A boa temporada é uma esperança para o projeto já que as atividades de pesquisa e observação de baleias foram afetadas pela pandemia. De acordo com o veterinário e coordenador de pesquisa do projeto, Milton Marcondes, a chegada de mais indivíduos da espécie facilita a observação dos animais.

“Agora tem uma população maior de baleias, elas chegam um pouco mais cedo e vão para a Antártida mais tarde também. Isso é uma garantia que o turista vai conseguir avistar as baleias. Economicamente, isso é bom para o turismo e para o meio ambiente. Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta que as baleias da oito espécies que ocorrem no Brasil valem cerca de 82 bilhões de dólares pelos serviços prestados ao país”, disse Milton ressaltando um dos muitos motivos para a preservação dos animais.

As baleias também têm um papel importante para o ecossistema já que são responsáveis por trazer nutrientes para as águas brasileiras e até retirar o gás carbônico – responsável pelo Efeito Estufa – da atmosfera.

“Como as baleias vão para a Antártida, elas trazem nutrientes das águas geladas para Brasil por meio das fezes e urina, que contém substâncias que podem aumentar a produtividade dos mares. Esses animais ainda retêm uma grande quantidade de carbono no corpo para realizar o processo de crescimento. Quando elas morrem, o corpo afunda e vira alimento para uma série de animais enquanto o carbono fica continua nos oceanos”, informou Milton.

Baleia Jubarte avistada em Salvador (Foto: Enrico Marcovaldi/Projeto Baleia Jubarte)

O turismo de observação é uma forma de sensibilizar a população, o que é extremamente importante para a preservação da uma espécie que já correu risco de extinção.

“Nós capacitamos e fomentamos o turismo pois só preserva quem conhece. Essa visitação agrega valor econômico em cima do animal. A gente espera que os passeios de turismo possam começar daqui a umas semanas, mas tudo depende da pandemia. Não é nada efetivo, dependemos das autoridades flexibilizar o isolamento. Agora não é a hora de fazer esses passeios, o que é uma pena que é uma atividade bacana e um privilégio poder ver uma Jubarte em frente da nossa casa aqui em Salvador”, disse Enrico.

Pandemia
Ainda não é possível saber se a pandemia vai impactar a população de Jubartes. “Estamos no começo da temporada e não podemos afirmar se as baleias vão tem um comportamento diferente. Iss só poderá ser analisado ao final da temporada”, afirmou Enrico.

Fato é que a pesquisa sobre as baleias teve que ser modificada devido à pandemia. A impossibilidade de realizar o turismo de observação, que geralmente contava com um pesquisador a bordo, reduz as possibilidades de coleta de dados. “Nós temos os barcos de pesquisa, mas costumamos colocar uma pessoa da nossa equipe nos barcos de turismo. Ela informa os turistas e também coleta dados e faz fotos das baleias. Como essa trabalho não está sendo feito, a quantidade de dados que gerados neste ano vai cair”, disse Milton.

Até nos barcos de pesquisa, a rotina teve que ser mudada. As saídas seguem um protocolo de embarque para minimizar os riscos de contágio pelo vírus e a equipe a bordo foi reduzida para três pesquisadores, com o uso de máscaras e álcool gel, segregação de funções e equipamentos, e preparo individual de alimentação.

“Além de ter menos pessoas no barco, em Abrolhos, ficávamos até 4 dias no mar dormindo nos barcos. Agora, temos que voltar no mesmo dia”, contou Milton.

Caça
A população de Jubartes no Brasil têm crescido, mas ainda não superou os patamares estimados de 1820, quando cerca de 27 mil animais nadavam na nossa costa. O declínio do número de baleias no país se deu pela caça comercial, que só foi proibida em 1986. Com a proibição, os números da espécie vem aumentando.

“No século 20, a caça cresceu muito e dizimou baleias de várias espécies. Com isso, a estimativa era de que apenas sobraram cerca de 800 Jubartes. Mais recentemente, esse aumento está em uma curva exponencial. Parece que o crescimento vem se estabilizando e não se sabe se retornaremos ao patamar de 27 mil indivíduos. O fato da população ter chegado aos 20 mil atuais é bom porque a espécie só saiu da lista se extinção em 2014”, disse Milton.

O crescimento da população resulta na ocorrência de mais encalhes, ressaltou Enrico. “Entre 80% e 85% dos encalhes são gerados por mortes naturais, mas também existe a morte relacionada aos fatores de causa humana, como atropelo por grandes navios e emalhamento nas redes de pesca”, explicou.

Quem avistar um encalhe deve entrar em contato com o Projeto Baleia Jubarte e a Defesa Civil. É importante evitar ficar perto do animal para evitar ferimentos e contaminação, indica a entidade.

“Não pode chegar perto da baleia, se ela estiver viva, pode ser que venha a se movimentar e machucar as pessoas. Algumas pessoas também pegam a carne para se alimentar, mas isso é um perigo horroroso porque não se sabe o que matou o animal e ele pode estar infectado”, advertiu Enrico.

Esse ano, em todo o Brasil, o Projeto Baleia Jubarte registrou oito encalhes, dos quais, dois ocorreram na Bahia. Apenas uma baleia foi devolvida com vida para o mar após ter encalhado em Santa Catarina.

Migração
As baleias Jubartes são animais migratórios, que se dividem entre o Brasil e as Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, na Antártida. Durante o verão, no oceano gélido do extremo sul da Terra, as baleias se alimentam de Krill e ganham uma grande camada de gordura para se preparar para os meses de jejum que passarão no Brasil.

A área é ideal para se alimentar devido à grande luminosidade no período, informou Milton. “No verão, a região da Antártida tem muita luz chega a ter 22h de luz por dia, o que gera muita fotossíntese e, consequentemente, muita oferta de alimenta para as baleias”, explicou.

Depois de três meses se alimentando e estocando energia na forma de gordura, começa a jornada destes animais rumo às águas brasileiras, onde acasalam e têm seus filhotes, que nascem entre o final de julho e agosto. “A gestação da Jubarte é de cerca de 11 meses e nasce só um filhote. Elas acasalam em um ano no Brasil e no ano seguinte o filhote nasce aqui no país. As baleias nascem com 4 metros e 1 tonelada. Depois de nascer, os filhotes ficam com a mãe por cerca de um ano. A mãe e o filhote permanecem no Brasil até novembro para crescer, ganhar gordura e conseguir se proteger do frio da Antártida. De volta às ilhas, elas aprendem a capturar o Krill”, explicou o coordenador de pesquisa.

*Com orientação do chefe de reportagem Jorge Gauthier.

Fonte: Correio