Brecha no isolamento: Lauro de Freitas registra aglomerações no domingo

Na sombra do Terminal Rodoviário de Portão, em Lauro de Freitas, 11 pessoas se aglomeravam ao redor de uma mesa, jogando cartas e tomando cerveja. No outro extremo do mesmo bairro, quatro pessoas bebiam as cervejas que estavam no porta-malas de um carro. Entre os dois pontos, com clara evidência de quebra do isolamento social, diversos tipos de aglomerações foram observadas pelo CORREIO em Portão: em igrejas, nas barracas de feirantes e até na porta de casas residenciais, com churrasco, som alto e cerveja gelada.

Na verdade, não foi só em Portão. Em Itinga, bairro da cidade com a maior quantidade de casos da covid-19, o cenário era o mesmo. Se não fosse pelas máscaras, usadas por vezes no queixo ou na mão, era possível dizer que em Lauro de Freitas não existe pandemia. Os números disponibilizados pela prefeitura, no entanto, mostram uma outra realidade: 3.565 casos e 59 mortes, numa cidade de população estimada de quase 200 mil habitantes. Só em Itinga são 927 casos e, em Portão, 474 infectados pela covid-19, de acordo com o boletim epidemiológico do município divulgado neste domingo.

“A gente percebe que as pessoas ficam ignorando a doença, tratando como se fosse uma brincadeira. Vemos pessoas se reunindo para beber, bater papo e até se cumprimentando, sem levar a situação a sério. Acho que eles pensam que estamos em férias”, disse Isaque Bastos, 49 anos, morador de Itinga. Junto com a esposa Edneuza Correia, 37 anos, Isaque era uma das pessoas que estavam nas ruas de Itinga, enquanto esperavam uma encomenda. O casal disse que está vivendo o isolamento social, respeitando as orientações das autoridades.

Com tudo aberto, o povo para as ruas (foto/Tiago Caldas)

“Acho que tanto o governador, como a prefeitura têm feito um bom trabalho, com boas medidas para estimular o isolamento. O problema é que as pessoas mesmo não tão respeitando. Se a população estivesse ajudando, estaríamos numa situação melhor”, disse Edneuza. Ela é funcionária da Prefeitura de Lauro de Freitas e, por ser do grupo de risco, está afastada do trabalho. “Fico em casa, cuidando de mim e da minha família”, explicou. 

Enquanto o casal conversava com o CORREIO, diversas pessoas transitavam pelas ruas de Itinga, algumas até sem máscara. Também era possível ver pessoas bebendo cerveja, voltando do culto e trânsito intenso. Nas outras avenidas de Lauro de Freitas, o fluxo de veículos observado chamava atenção, por ser uma manhã de domingo.

A prefeita do município, Moema Gramacho, acredita que a população tem sido uma aliada na luta contra o coronavírus. “Aqui, a população respeita o isolamento, mas sempre há aquele que chega numa saturação e vai pra rua. As medidas de isolamento cumpriram um papel fundamental e as restrições por bairros permitiram um diálogo maior com a comunidade, o que fez com que eles entendessem a importância do isolamento. Com os resultados das testagens nos bairros, a população também teve mais consciência quanto à doença. Há muito mais adesão às medidas adotadas do que rejeição”, pontuou.

O jogo de cartas e a cerveja gelada não deixaram de acontecer em Lauro (foto/Tiago Caldas)

Bairros populares
Os bairros populares, como Itinga e Portão, apresentam desafios maiores para a contenção de aglomerações, reconhece a gestora municipal. De acordo com Gramacho, o centro, Portão e Vida Nova são as localidades com a maior movimento na cidade.

“A prefeitura não tem condição de fazer a fiscalização simultânea em todos os bairros. A aglomerações reduziram nos bairros após as medidas restritivas e isso teve um efeito muito importante. Quando as medidas acabavam, voltava a aglomerar, prém, menos do que antes”, garantiu a prefeita. 

Ainda na visão de Gramacho, a situação de Itinga é menos preocupante do que sugere a análise da quantidade de pessoas na rua. Ela explica que metade da população de Lauro de Freitas reside no local, o que faz com que a proporção de infectados na população local seja menor do que em outros bairros. “Em Itinga qualquer movimento é aparentemente maior. Se a gente for analisar os casos, a concentração maior de infectados não é no bairro. Apenas os números absolutos são maiores”, analisou.

Os engarrafamentos presenciados na Estrada do Coco também são normais, apontou a prefeita. “Esse engarrafamento acontece sempre no final de semana porque Lauro de Freitas é passagem para o Litoral Norte. Não tem como não engarrafar nesses horários de pico, mas o engarrafamento reduziu bastante com a pandemia. E é importante ressaltar que não é um movimento de gente circulando dentro da cidade”, disse.

Reabertura
O município integrante da Região Metropolitana de Salvador colhe os frutos do isolamento. O número de casos na cidade seria 5 vezes maior sem as medidas que restringiram a circulação, aponta a prefeita. Apesar de ter tido o toque de recolher prorrogado até 26 de julho, a cidade já se prepara, junto com outros municípios da RMS, para a retomada conjunta das atividades na região. A reabertura deve acontecer por fases e ser iniciada quando o estado da Bahia possuir 25% dos leitos de UTI disponíveis vagos.

“Queremos reabrir com 25% ou mais de disponibilidade de UTI. A ideia seria começar o processo com cinco dias de estabilidade neste patamar. Entretanto, se estado anunciar mais UTIs e a oferta for ampliada, pretendemos reabrir no dia seguinte ao anúncio”, disse.

Para se preparar, as cidades da RMS constroem um protocolo da reabertura unificado. Segundo a prefeita, uma reunião para fechar as regras base para a região está marcada para a próxima quinta-feira (23), quando acaba o prazo dado pelos gestores para que o governador Rui Costa informe sobre a implantação de novos leitos de UTI na Bahia. A expectativa da prefeita é que o mês de agosto já seja de reabertura nas cidades da região metropolitana. 

“Vamos reabrir por partes, com fases e horários para cada atividade. Teremos o protocolo da região e especificidades de cada local. A previsão é que a primeira fase comece em agosto, mas depende muito dos leitos de UTI no estado. Relacionamos a abertura com a disponibilidade de 25% de leitos na Bahia pois as cidades da região metropolitana têm que internar pessoas de outros locais”, explicou Gramacho.

*Com orientação do chefe de reportagem Jorge Gauthier

Fonte: Correio