'Não aceitaria ser Ministro da Saúde porque seria um desastre', diz Drauzio Varella

Seria uma sorte se todos pudessem ter Drauzio Varella como médico da família. O paulistano fala sobre tudo com muita clareza, dá conselhos valiosos, tem  grande empatia pelos excluídos e muito apreço pelo SUS. Seria o ministro da saúde perfeito, indagou o publicitário baiano Joca Guanaes  (@jocaguanaes) na live que conduziu com Varella no instagram do CORREIO (@correio24horas), na noite desta segunda-feira, pelo projeto #segundou. 

“Não aceito de jeito nenhum, eu seria um desastre como ministro da saúde, principalmente com a maneira como está sendo administrado o sistema público de saúde”, disse o médico paulistano de 77 anos, que é casado há três décadas com a atriz Regina Braga, mãe do também ator Gabriel Braga.  Na próxima segunda-feira, às 19h, a live é com a modelo e apresentadora Luiza Brunet (@luizabrunetoficial).

Reveja o bate-papo abaixo: 

Professor
Com 50 anos de prática na medicina, com especialidade em oncologia, doutor Drauzio adora dar aulas. Não à toa foi professor por duas décadas: “Tenho um compromisso muito sério dentro de mim, que é o de passar para os outros o que aprendi, de ensinar aos que não puderam estudar”.  Fundador do cursinho Objetivo, ele deixou de dar aulas porque não estava mais conseguindo conciliar as duas atividades. “A medicina é muito ciumenta”, brincou.

 Quem  o acompanha sabe que, na verdade, doutor Drauzio nunca deixou de ensinar. Só migrou da sala de aula para os meios eletrônicos. Foi um desbravador da medicina na televisão e na  internet – só no Youtube tem quase 2,5 milhões de seguidores inscritos. Os temas são os mais variados e, às vezes, o leva aos trending topics. Foi o caso da série Drauzio Dichava, em que discorria sobre a maconha e fez a cabeça de quase cinco milhões de brasileiros. O mais recente sucesso foi a live com o rapper Mano Brown, do Racionais MCs, há três semanas, com quase 800 mil visualizações.

Máscara
Sendo médico e com pendor natural pelo que é novo, Varella não deixa de opinar sobre nada. “Vejo essas pessoas na rua sem máscara e tenho pena dos seus familiares, porque elas não contaminam somente a si”, disse sobre a falta de conscientização de parte da população com relação à transmissão do novo coronavírus. “Vamos usar a máscara como parte da indumentária rotineira ainda por muito tempo. O Brasil conseguiu estabilizar o número de mortes, mas perder mais de mil pessoas por dia é inaceitável”, completou.

Foi com essa mesma clareza que doutor Drauzio contextualizou os leitores do CORREIO sobre os diferentes graus de epidemia vistos no vasto território nacional: “A epidemia vivida em Salvador não é mesma que vivemos em São Paulo. Veja o caso de Manaus, que teve um momento de horror e hoje está em situação controlada. Acho que a partir de outubro teremos uma melhora e até o fim do ano teremos vacina para os pacientes de risco, mas, enquanto houver gente infectada, vamos correr risco. Tudo vai depender do compromisso da sociedade”.

O alerta vai mais a fundo quando ele fala  sobre o SUS – e aí, se dirige tanto aos colegas médicos quanto aos pacientes: “Precisamos fazer uma medicina mais barata e acabar com essa festa de pedir exames desnecessários e ir ao pronto-socorro para tudo. Temos que mudar essa cultura, também no SUS”.  

Médico de hospitais públicos, Drauzio Varella viu de perto a situação das populações mais carentes. Primeiro com os primeiros infectados pelo vírus da Aids, no final da década de 80. Foi quando seu interesse se deslocou para a população carcerária. Não que o olhar estivesse longe: doutor Drauzio revelou que adora filmes de cadeia. “Vejo todos, até os mais ruinzinhos”, disse.

Carandiru 
Convidado para fazer um vídeo sobre os brasileiros infectados com Aids, ele contou que foi natural que os procurasse na penitenciária. No caso, no Carandiru,  presídio paulista considerado o maior da América Latina.  Não só gravou o tal vídeo, como também conseguiu que os presos fossem testados e tratados dentro da prisão: “Quando eu vi, estava ajudando na enfermaria da prisão. Nunca mais saí desse ambiente”. 

O ano era 1989 e começava ali uma história que se desdobrou  em muitas páginas. No Carandiru, o médico  começou um trabalho voluntário, no mesmo momento da vida em que se descobriu um escritor humanista, observador atento das histórias dos mais desvalidos. Nascia Estação Carandiru, o primeiro dos 15 livros que Drauzio Varella escreveu de lá para cá. Ainda é o seu maior sucesso, transformado em filme em 2003 por Héctor Babenco (1946-2016). Outro livro de Varella que migrou para  o audiovisual é Carcereiros.

 “Não esperava muita coisa com Carandiru, tomei um susto quando vi que a Folha (de S.Paulo) tinha dado uma capa para ele. Mas descobri que escrever é uma coisa maravilhosa. Felicidade continuada a gente só tem quando criança, na vida adulta não existe. Mas, na hora que você percebe que o que escreveu ficou bom é uma felicidade profunda”, explicou.

Ateu 
A essa altura da live, o publicitário Joca Guanaes já estava convencido de que Drauzio Varella é um humanista mesmo. Só surpreendeu os participantes ao revelar que o médico se considera ateu. “Como consegue, se para muitos o pensamento humanista está ligado a uma forma de espiritualidade?”, perguntou.

O médico, ao contrário, não vê nenhuma estranheza: “Sou ateu porque não conseguir ser outra coisa, a verdade religiosa é estranha para mim. Até gostaria se tivesse uma fé muito forte, vejo que algumas pessoas se beneficiam disso. O curioso é que as pessoas religiosas acham que as virtudes humanas são exclusivas da religião. Por isso que os ateus são mal-tratados. As pessoas acham que se você é ateu, você é meio imoral. E não assim, as virtudes humanas são inerentes à nossa espécie”.

Do senhor, doutor, ninguém vai duvidar.

Fonte: Correio