Compras, SAC e problemas: clientes encaram 6h de fila em reabertura do Shopping da Bahia

O ‘sextou’ do trabalhador informal soteropolitano Ubiratan Francisco, 43 anos, foi diferente de todos os que ele já viveu nessa pandemia. Morador de Paripe, ele acordou às 4h e, meia hora depois, quando o dia ainda estava escuro, saiu de casa em direção à entrada principal do Shopping da Bahia. Ele era o primeiro da fila de centenas de clientes que aguardavam a abertura do centro comercial. “Pensava que o shopping iria abrir às 9h e, como sabia que ia ter fila, decidi chegar tão cedo”, disse.  

O rapaz precisava ir até a loja de uma empresa de telefonia para resgatar o número do celular que tinha sido roubado recentemente. “Vou aproveitar também para comprar umas roupas”, confessou. Chegar às 6h não foi exclusividade de Ubiratan. Próximo da sua colocação na fila, mas devidamente distanciado, o casal José Carlos, 54 anos, e Ivete Gomes, 49 anos, disse que também chegou às 6h, pouco depois do dia amanhecer.  

Ubiratan não se alimentou durante as 6h de espera pela reabertura do shopping (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Para eles, a urgência era resolver pendências no posto do Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC), que também reabriram nessa sexta-feira (24) com a entrada de Salvador na primeira fase da retomada econômica da cidade, anunciada pela prefeitura. “Preciso resolver a documentação do carro”, explicou seu José. Além dos shoppings, templos religiosos, comércio de rua acima de 200 metros quadrados e Drive In puderam retomar as atividades.  

As pessoas que chegaram primeiro na fila da entrada principal do Shopping da Bahia conseguiam se proteger do sol, pois uma tenda foi instalada no espaço. Esse não foi o caso de Linsmeire de Souza Lins, 38 anos, que chegou às 10h50 e passou pouco mais de uma hora “no sol quente”, como ela mesma definiu. “Tive que comprar uma cerveja gelada para aguentar a espera”, disse.  

Assim que conseguiu entrar no shopping, ela foi direto na sua loja preferida, a Red’s calçados, que nem estava totalmente pronta no momento da abertura. “Ontem a gente fez toda a higienização do espaço e agora estamos correndo para colocar os produtos na prateleira”, disse a vendedora Elisângela Souza, 41 anos, que há 17 anos é funcionária da loja.

Linsmeire ficou feliz com a compra realizada (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

No espaço, Linsmeire demorou pouco menos de 15 minutos, tempo suficiente para escolher, experimentar e comprar uma sandália, tornando-se a primeira cliente do estabelecimento após a reabertura. “Não gosto de comprar na internet, pois não consigo experimentar e ver como fica. A gente não sabe a qualidade do que vai chegar. Ao vivo, eu consigo ter esse controle”, disse.

Depois, ela comprou produtos de beleza, fazendo jus ao seu título de “vaidosa assumida”.  “Sou mãe de dois filhos. Estamos recebendo dois auxílios emergenciais. É claro que a nossa prioridade é a alimentação, contas e necessidades básicas do filho pequeno, mas com o trocadinho que sobrou, uso para comprar minha sandalinha”, disse. Como está desempregada, a jovem ainda deixou o seu currículo na loja onde fez as compras. “Estou unindo o útil ao agradável”, definiu.

Apesar de ter conseguido experimentar o calçado, a prática é proibida de acordo com a Secretaria Municipal de Urbanismo (Sedur), que fiscaliza os estabelecimentos. A pasta esclarece que é absolutamente proibido provar roupas, calçados e acessórios porque isso pode facilitar a transmissão do vírus entre as pessoas.

A antropóloga Urpi Montoya explica que esse gosto e essa correria para voltar aos shoppings têm dois motivos essenciais. A primeira diz respeito ao próprio fenômeno shoppings centers, que é mundial: as pessoas gostam de shoppings porque eles são uma suspensão temporária dos males urbanos contemporâneos como violência, insegurança, sujeira e medo, por exemplo. A segunda questão diz respeito à necessidade de voltar ao normal após quatro meses inesperados de confinamento. 

“A ida ao shopping é uma ilusão de normalidade neste período. As pessoas precisam dessa sensação. A diferença está entre aquelas que se autocontrolam  e não vão e as que não conseguem se segurar e vão para o shoppings”, diz a especialista.

Cheio 
Quando as portas do shopping foram abertas para os clientes, exatamente às 12h, de maneira organizada, as pessoas começaram a ocupar os corredores e lojas. Algumas comemoravam a entrada com gritos de felicidade. Outros literalmente correram para serem os primeiros clientes da loja de interesse, lembrando as cenas vistas anualmente na Black Friday.  

Havia quem tapasse o rosto com vergonha das câmeras que filmavam o momento histórico de reabertura. Outros nem ligavam: “Tá cheio de filmadora, vou ficar famosa”, gritou uma consumidora. No total, o Shopping da Bahia pode comportar pouco mais de 1,2 mil pessoas, de acordo com o tamanho do shopping e as regras do protocolo de segurança: sem assentos, bebedouros, realização de eventos, promoções e funcionamento dos estabelecimentos que ainda não podem abrir, como salões de beleza, bares e restaurantes.  

Também foram colocadas marcações no chão para orientar a locomoção das pessoas e evitar aglomerações nos corredores, mas muitos clientes ignoraram. No primeiro piso, a movimentação era alta. Pequenas aglomerações foram observadas, principalmente ao redor das mesas onde estavam expostos os celulares.  

“Nesse primeiro dia de retomada, o movimento foi o esperado. Esse é um momento de aprendizado dos nossos clientes. Temos que ir aos poucos cumprindo os protocolos de segurança para voltarmos ao patamar anterior ao fechamento. Estamos focados numa operação segura, contribuindo na retomada econômica da cidade, sem descuidar dos protocolos de saúde”, disse Wilton Oliveira, superintendente do Shopping da Bahia.  

No balcão do lojista Sinvaldo Vieira, 61 anos, que vende produtos tecnológicos no segundo piso, o movimento não era tão alto. “A expectativa do setor é que as vendas agora sejam 25% do que era antes da pandemia. Por isso, tive que dispensar três funcionários e, agora, estamos voltando com apenas um trabalhador e o meu filho. Antes, ele ajudava aqui, mas muito pouco. Agora, vamos precisar desse esforço dele”, afirmou.   

O lojista Sinvaldo Vieira está feliz em poder voltar aos trabalhos (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Promoção 
Alguns clientes disseram ao CORREIO que foram até o Shopping da Bahia para se deparar com alguma possível promoção. Esse é o caso de Maikson Souza, 28 anos, que foi com sua esposa Gilvania Nunes para encontrar um celular novo. O casal acabou levando o Moto G8 play, no valor de 1,1 mil. “Preferi vir presencialmente para fazer um cartão e parcelar o valor”, afirmou. 

No Shopping Bela Vista, as amigas Adriana Beatriz, 22 anos, e Elen Morais. 21 anos, foram comprar um presente de aniversário, mas não resistiram ao preço baixo que encontraram na loja Renner. “Eu nunca vi sapato num valor que estava. Achei de R$ 70 um que normalmente é R$ 150. Comprei também roupas por R$ 20 que antes via até de R$ 60. Estouramos o limite do cartão”, afirmou Adriana. 

Máscara no rosto e compras na mão das amigas Elen Morais (esquerda) e Adriana Beatriz (direita) (Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

O mesmo foi observado pela consumidora Jessica Aguiar, 26 anos, que estava nas Americanas com um carrinho cheio de compras. Ela foi ao shopping para resolver um problema na sua agência bancária, mas foi atraída à loja pelos preços baixos. “Estou levando um conjunto de refratários por R$ 39,90, sendo que normalmente encontro uma unidade por R$ 40. Também achei a cafeteira barata, está R$ 22”, disse.   

A vendedora Alessandra Araújo, 40 anos, que trabalha na Mega Plush, uma máquina na qual o consumidor pode pegar ursos de pelúcias gigantes, disse que viu muitos preços em conta. “Vou me segurar para não levar nada”, disse. Até às 13h, apenas uma pessoa tinha tentado pegar um urso. “O movimento aqui no shopping Bela Vista ainda está fraco. Acho que vai aumentar com o tempo”, afirmou Alessandra.  

De fato, a circulação de pessoas no centro comercial não era tão intensa como no Shopping da Bahia. O primeiro piso do Bela Vista era o que tinha mais gente nos corredores, em quantidade não tão expressiva. Mesmo assim, haviam filas na frente de algumas lojas, principalmente de telefonia e eletrodomésticos. A vendedora Solange Santos, 34 anos, conseguiu vender cinco modelos de uma camisa UV feminina por R$ 100 cada.  

“Eu gostei que voltamos a funcionar. Chega de ficar em casa, né?”, disse. “No período da pandemia, fiquei trabalhando no drive thru, mas o movimento diminuiu muito, tanto por ser inverno como por causa do período conturbado. Agora, acho que se todos cumprirem as regras de higiene, não teremos problema. Eu já vi pessoas sem máscara aqui dentro e isso que me deixa assustada”, completou. 

De acordo com o superintendente do empreendimento Vaneilton Almeida, o Bela Vista está pronto para receber os clientes com toda a segurança que o momento exige. “O Shopping Bela Vista se preparou para este grande momento seguindo todas as orientações dos órgãos municipais e de saúde. Esperamos uma retomada gradual das atividades no shopping, que irá se intensificar com a abertura das próximas fases”, comenta. 

Confira a diferença dos preços dos produtos comprados pelos clientes com os encontrados no aplicativo zoom.  

Moto G8 play: 
Preço no shopping: R$ 1,1 mil.  
Preço na internet: a partir de R$ 1,025 mil 

Sapato feminino:  
Preço no shopping: R$ 70 
Preço na internet: R$ 35,88 

Roupa feminina: 
Preço no shopping: R$ 20 
Preço na internet: R$ 19,90 

Conjunto de refratários: 
Preço no shopping: R$ 39,90 
Preço na internet: R$ 39,90 

Cafeteira: 
Preço no shopping: R$ 22 
Preço na internet: R$ 21,96   

Camisa UV feminina 
Preço no shopping: R$ 100 
Preço na internet: R$ 29,90 

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro e da subeditora Clarissa Pacheco.
**Com colaboração de Vinícius Nascimento

Fonte: Correio