Os bastidores do dia que Bono Vox comeu vatapá e peixe frito na casa de Gilberto Gil

O Carnaval em Salvador no ano de 2006 virou manchete em todo o mundo. Não apenas pela festa grandiosa que sempre foi. Mas por um acontecimento especial. Um não, dois. Desembarcaram na cidade para a folia ninguém menos que Bono Vox e a banda U2. Outra celebridade que chegou na mesma época foi Quincy Jones o grande maestro de astros como Michael Jackson.

Ambos convidados do cantor, compositor Gilberto Gil – então Ministro da Cultura do governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva.  Se a cidade já estava cheia de turistas que sempre marcam presença na folia baiana, a anunciada presença do U2 desencadeou uma euforia de fãs de todo o Brasil que correram para a velha São Salvador. Foi uma loucura.

A banda irlandesa ficou hospedada numa casa de praia localizada num condomínio de luxo no Litoral Norte, cercado de toda segurança possível. Na passagem da trupe por Salvador, durante o Carnaval, teve presença no Camarote Expresso 2222 de Gilberto Gil onde foram saudados pelos artistas da axé music que ao passarem em frente ao espaço lhe renderam homenagens. Com direito a Bono fazer dueto com Ivete em uma música do grupo e outra do repertório da cantora, Céu da boca (Chupa toda). Coisas da Bahia, né!? 

Durante o pouco tempo que a banda ficou na cidade, um outro acontecimento restrito movimentou a casa de Gilberto Gil e Flora Gil que moravam num condomínio no Horto Florestal. Durante o dia teve um almoço para o maestro Quincy Jones. À noite foi a vez de um jantar para todos os componentes da banda formada por Bono (vocal e guitarra), The Edge (guitarra, teclado e backing vocal), Adam Clayton (baixo) e Larry Mullen Jr. (bateria e percussão).

Foto: Acervo Pessoal/Osmar Marrom Martins 

Com a ajuda de sua amiga, a produtora Ivanna Soutto, Flora Gil tomou a frente da organização e convidou os principais artistas da cena axé como Carlinhos Brown, Durval Lelys, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Claudia Leitte, entre outros. De jornalista apenas a colunista Mônica Bergamo da Folha de São Paulo, a assessora de Gil, a querida Gilda Matoso e este que vos escreve. Estiveram presentes também o então governador Paulo Souto, o prefeito de Salvador João Henrique Carneiro entre outras autoridades. 

O certo é que foi uma noite agradável. Como relembra Flora em conversa via telefone direto do sítio da família em Araras onde ela estava com Gil e família cumprindo quarentena antes de seguir esta semana para o apartamento em Copacabana. Mas antes de falar do jantar ela lembrou quando ela e Gil conheceram Bono no Restaurante EZE, no Sul da França.

“Estávamos jantando nesse restaurante com uns amigos e o diplomata Paulo Uchoa que na época trabalhava na Embaixada do Brasil em Paris. Quando a gente chegou lá estavam Bono e a família. O embaixador nos apresentou e Bono disse que já conhecia o trabalho de Gil e que, quando viesse ao Brasil queria encontrá-lo. Passado uns dois anos, Luis Oscar Niemayer que traz grandes nomes da cena internacional me ligou e disse que estava com o U2 no Brasil e que Bono queria ir à Bahia encontrar com Gil no Carnaval. Eu disse que honra, pode vir. Gil tinha estado com ele um mês antes em Brasília quando foram falar com Lula. Eu fiz o jantar para eles e para Quincy Jones que também estava no Brasil com o U2 e adora Gil, já o conhece de muitos anos, fala que Gil é um dos maiores instrumentistas que ele conhece”, recorda Flora. 

Com todo mundo em Salvador, Flora foi a luta para fazer daquele dia um acontecimento agradável. “Eu acho que receber o Bono e o Quincy, é uma felicidade grande, você se sente prestigiado mas ao mesmo tempo senti que o Bono também estava sendo por ser recebido pela Bahia. E tive o cuidado de chamar os cantores de trios elétricos como Ivete, Margareth, Durval, Daniela entre outros. Senti falta de Bell Marques que não pode comparecer”, conta. 

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Foto: Acervo Pessoal – Osmar Marrom Martins 

E mais, continua Flora: “Para mim foi muito bom receber pessoas tão especiais e poder mostrar um pouco da Bahia, do Brasil da nossa gente e, principalmente mostrar para eles, como é que a gente vive; que a gente é cercado de amigos; que brasileiro é caloroso; que somos o melhor povo do mundo”.

Foto: Acervo Pessoal – Osmar Marrom Martins 

O jantar. Flora relembra com detalhes:

“Me lembro que contratei a Dadá para fazer a comida e Bono ficou muito, muito apaixonado pela comida dela e pela interação com os artistas locais. E como não tinha aquela agonia de jornalistas querendo entrevista-lo e fotografá-lo, ele ficou à vontade. Eu gosto de ser anfitriã, de receber amigos. Você me conhece e é um dos meus convidados sempre, você é um querido” (agradecido), me disse. No cardápio,só clássicos da comida baiana. Os preferidos de Bono e a turma do U2 foram o vatapá e o peixe frito. 

Do passado para o presente: a pandemia

Em tempos de pandemia, Flora vai se virando como pode. Já que a família é muito grande ela conseguem fazer um revezamento. “No dia do aniversário do Gil quando teve a Live estiveram a Bela, a Preta, o José e a Nara que está com a gente desde março quando íamos para a Dinamarca. Tomamos todos os cuidados como é de praxe e deu tudo certo. Antes, ainda no sitio, Gil já tinha feito outra Live com Iza”, explica.

Torcendo para que tudo isso passe Flora planeja até o final do ano uma temporada de um mês ou um mês e meio em Salvador. “Estamos adorando tudo que tenho lido de Salvador. Achando o prefeito de Salvador um espetáculo. De uma lucidez, de uma responsabilidade. Ele poderia gerar multiplicadores pelas capitais”, resume Flora. 

Fonte: Correio