Cláudia Ohana, os cachorros devolvidos e o tribunal do cancelamento na internet

O motivo é sempre o mesmo: famosos, celebridades ou qualquer outro criador de conteúdo digital que diga algo controverso, errado ou caia na armadilha de cometer um deslize qualquer, vai ser cancelado pelo rígido patrulhamento do tribunal das redes sociais.

O cantor sertanejo Gusttavo Lima, a atriz Thaila Ayala, a cantora Anitta, o humorista Carlinhos Maia, o cantor baiano Léo Santana, ex BBBs, modelos e uma imensidão de outros famosos já foram cancelados, em algum momento, por esse tribunal. 

É claro que não devemos tolerar atitudes racistas, homofóbicas e machistas. Não devemos deixar de chamar a atenção quando uma ação ou palavra sem noção escapa, por descuido ou imaturidade, por falta de bom senso ou até pelo contexto, que no fundo todos nós desconhecemos, afinal de contas, existe um abismo enorme entre o que chega publicado em feeds e stories e a realidade de cada um.  

Acontece que ninguém está imune aos erros nas redes sociais e na vida. Qualquer artista que a gente admira ou acompanha, pode e deve cometer falhas em algum momento. E quanto maior o artista, quanto mais destaque ele tem na mídia, maior será o ataque e maior será o seu julgamento. É quando o termo CANCELAMENTO entra em cena trazendo uma enchente de ofensas, xingamentos e até ameaças. 

Recentemente a atriz Cláudia Ohana devolveu os seus cachorros para mesma ONG onde ela os adotou. A história vazou e a atriz passou a receber ataques. Ela publicou no seu perfil, uma mensagem explicando o que aconteceu. Deu a sua versão. Mora sozinha, com dois cachorros, tem um problema sério na coluna e não estava dando conta do recado, principalmente por conta da pandemia do novo coronavírus.  Não adiantou. Não existe dois lados para o tribunal da internet. Os ataques, na nota que ela publicou em seu Instagram, foram assustadores. 

Tenho a impressão de que todo mundo quer gritar, falar e apontar o dedo ao mesmo tempo, mas ninguém quer ter o trabalho de escutar. E quando escuta, desdenha. Escuta fazendo análises maldosas e, muitas das vezes, criativas. É que para o tribunal do cancelamento, o pedido de desculpa não existe. O contexto não existe. O arrependimento é coisa de gente que não quer perder contrato. Errou, acabou. Manda embora. Vamos aproveitar o hype e cancelar ainda mais. 

Trabalhar em cima do pedido de desculpa. Ganhar curtidas e ‘lacrar’ com esse assunto. É o que importa. 

O que me preocupa é o que está por trás desse cancelamento. Não existe dor, verdade e desejo de mudança dentro dele. É só um movimento. Uma ação que vem, em sua grande maioria, orquestrada por pessoas que pregam empatia, que dizem lutar por direitos humanos, que passam uma imagem “good vibes” na internet e que ficam ali, na espreita, aguardando o próximo cancelamento para despejar todo o seu ódio. 

O grande baiano Rui Barbosa disse certa vez “Eu não troco a justiça pela soberba. Eu não deixo o direito pela força. Eu não esqueço a fraternidade pela tolerância. Eu não substituo a fé pela superstição, a realidade pelo ídolo”. Hoje é a soberba, é a força, é a intolerância e a superstição que ganham destaque em um cancelamento. E o ídolo do cancelamento é o escárnio. 
Imagine você cometer um erro na escola e ser humilhado por esse erro a sua vida acadêmica inteira. Imagine você cometer um erro no seu trabalho e ser punido por isso para sempre. É o que o cancelamento faz. Ou pelo menos tenta fazer. É o que o tribunal da internet, do alto da sua arrogância, provoca: dor. 

Eu conheço muita gente que cancela por cancelar. Que comete falhas terríveis e tem opiniões controversas sobre vários assuntos polêmicos, mas é o primeiro a se colocar como juiz na vida virtual.  Estranho, mas eu sei que você também conhece um. 
É preciso cuidado e atenção nesses movimentos das redes sociais. Por trás de cada perfil de um famoso ou não famoso, existe uma pessoa. Normal. Real. Com os seus defeitos, com as suas manias questionáveis e que, talvez, em algum deslize, precise de alguma ajuda. De um toque. De uma conversa. Assim como você, assim como eu, assim como qualquer outra pessoa REAL. 

Ninguém está imune. Talvez, um dia, eu seja a pessoa cancelada da vez. Quem sabe? Mas aí eu arrisco deixar com vocês uma frase em latim do poeta romano Juvenal: Quis custodiet ipsos custodes?, traduzindo: “Quem há de vigiar os próprios vigilantes?”
 

*Edgard Abbehusen é escritor, compositor, redator, baiano, criador de conteúdo afetivo e  autor de livros; Ele  publica textos exclusivos aos domingos no site do CORREIO. Acompanhe Edgard no Twitter e Instagram

Fonte: Correio