Trabalho presencial?  Quero mais não, obrigada

Estou em home office desde 2017. Nesse tempo todinho, a minha principal dificuldade foi convencer pessoas de que trabalho EM casa (assim como o DE casa, diga-se de passagem) também é trabalho. Talvez seja mesmo difícil entender que nos fones de ouvidos, enquanto lavo pratos, pode estar uma reunião que não deve ser interrompida. Também continua sendo um desafio conseguir escrever um texto, do começo ao fim, sem ser chamada no meio e ter que refazer todo o raciocínio. Isso, em uma edição, ainda é mais irritante: ler tudo de novo, desde o início, porque tive que responder uma coisa “rapidinho”, realmente, não é legal.

O fato de não ter rituais (nada de “roupa de trabalhar” e quase não uso a mesa de escritório) nem horários rígidos deve dificultar essa compreensão. Mas gosto assim: íntimo e bagunçadinho. Testemunha dessa rotina, meu filho – influenciado pelo bullying que se faz às mães – já chegou a dizer que eu não trabalho, fico só “de boa no celular”. A galera ria, provavelmente por concordar. Ele – uma criança – precisou de uma imersão em meu trabalho, para entender a real. Acabou compreendendo, bem antes da pandemia que já nos encontrou com esse assunto resolvido, o que acabou ajudando – veja que ironia – na adaptação dele às aulas online. Por ter o exemplo em casa, pra ele não foi complicado.

Quando o isolamento começou, muita gente, no mundo inteiro, já estava trabalhando assim. Agora, claro, bem mais.

Para essa nova leva de pessoas trabalhando em casa, se colocam questões que a galera que chegou antes já tem como ultrapassadas. Outro dia me mandaram o post de um cara questionando o formato, perguntando até se o contratante vai alugar seu espaço doméstico utilizado para o trabalho. Oi?

Calma, baby, calma. Vamos pensar, claro, mas com honestidade, diante do inevitável. Um outro moço, especialista no mundo corporativo, disse que aproximadamente 20% dos trabalhos de qualquer empresa podem ser feitos em home office. Que esse deve ser o caminho de agora em diante. Que não existem mais limites geográficos para contratações, em diversas áreas. Concordo em gênero, número e grau.

(Pesquise: já há grandes empresas anunciando o fechamento de escritórios para trabalho cotidiando presencial)

Eu e minha chefa sempre soubemos disso. Por esse motivo, além de morar em uma cidade que não é a mesma do CORREIO, eu viajava (antes da pandemia) para qualquer lugar, em dias normais. Bastava me organizar e garantir comunicação. Já trabalhei em avião, praia, fazenda, tomando sol, indo e voltando do mar, com namoradinho do lado, na recepção da escola de meu filho, assistindo a aula de natação dele e até passeando de barco, pra ser bem sincera. Sem enjoar nem atrasar minha entrega mais do que qualquer colega que trabalha em modo presencial. Sempre produtiva, menos na TPM, mas aí já é outro papo.

(Se essas últimas afirmações estão aqui é porque minha chefa leu, concordou e eu tô com moral. Obrigada. De nada.)

(Justiça seja feita, essa harmonia – que eu tenho – só será possível se seu contratante não for uma pessoa frustrada que se incomoda com o vazamento do áudio do vendedor de queijinho da praia.)

O formato não serve para todos os indivíduos nem para todas as atividades nem para todas as empresas, evidentemente. Assim como tudo na vida, não serve pra todo mundo. Mas, para muitas pessoas, sim. Entre elas (nós) e contratantes, há questões trabalhistas a se discutir e reformular. É preciso estar atento porque, obviamente, o formato facilita abusos de trabalhadores, empregadores e contratantes sem noção. Resolver isso vai dar trabalho, mas eu acho um movimento extremamente civilizado.

Em um mundo que não consegue controlar uma pandemia justamente porque ela se propaga nas nossas absurdas aglomerações, um futuro onde o máximo de pessoas se desloque apenas por prazer ou absoluta necessidade me parece parte da solução. Assim como fazer compras pela internet, trabalhar em casa é um caminho sem volta pra muita gente. Na minha vida, pelo menos, isso é um fato.

É preciso colocar limites e assumir compromissos. Em ambos os lados. É claro que corremos o risco de uma ainda maior precarizacão do trabalho. Diminuir custos e subtrair direitos dos trabalhadores sempre foi uma tendência do empresariado tradicional. Numa recessão como a que vivemos, isso fica ainda mais “fácil”, os “uberizados” estão aí pra nos ensinar. Mas não há como frear o futuro. Ele chega, inexorável. “‘Em que termos?” deve ser a questão. A mesma que se pôs, de outro modo, quando saímos de casa para passar nossos dias e noites nas empresas. Naquela época, negociamos mal. Será que dá pra fazer melhor no “novo normal”?

Talvez, pra isso, a gente precise lembrar do que se perdeu quando as pessoas passaram a gastar seus dias e noites em longos percursos diários e turnos exaustivos fora de casa. Talvez seja necessário resgatar as relações com as nossas casas. Talvez seja preciso um esforço pra voltar a fazer contato com o que já se deu por irrecuperável e, desta vez, colocar como prioridade. No meu caso, liberdade individual.

Não importa o salário, nenhum contratante é seu dono (nem meu) e isso precisa ficar claro. Por outro lado, ele paga pelo seu trabalho e isso precisa ser respeitado. É necessário equilibrar. Exemplo: eu achei disfuncional precisar ficar longe do meu filho ganhando uma grana pra pagar alguém que estaria com ele, no meu lugar. Não deu pra engolir essa lógica. Sofri. Resolvi. Então, na minha balança, pesa que o meu tempo seja meu. E que eu possa estar onde eu quiser. Todos os dias. Com quem eu desejar. Dormindo e acordando nos horários que eu escolher. A liberdade de tempo e espaço é a minha prioridade. Em troca, ofereço confiabilidade, sou uma profissional com quem se pode contar. Com isso garantido, o resto se negocia e tá bem na hora de essa conversa começar. Eu acho.

Fonte: Correio