A sensação de ler livros aos pedaços

Sempre me atrapalho se pedem que cite um livro predileto. A impressão que me tolhe é a de que esperam um clássico. Aprendi a ler sem cartilha antes de entrar na escola, juntando as sílabas numa revista em quadrinhos. Minha mãe na máquina de costura esclarecia as minhas dúvidas sobre os sons e o sentido das palavras, algumas vezes chateada com tantas perguntas, outras vezes se divertindo com aquilo.

Meus pais ficaram bem surpresos quando me viram lendo alto as frases escritas nas placas de anúncio pela cidade durante um passeio. Aquela pequena peripécia exibicionista me rendeu o título precoce de gênio nas conversas de família. Confesso que nunca entendi direito aquele espanto todo. Ler era uma brincadeira que me interessava muito. Nada mais normal do que aprender sozinha, como se fosse um brinquedo.

Para mim, aprender a ler equivalia a montar objetos coloridos com pequenas peças de Lego, algo muito divertido e distante do rigor dos ditados da escola, quando escrever corretamente rendia pontos. Ainda hoje, penso que a obrigação da leitura afasta as crianças dos livros. Quando ganhei Pollyana Moça de presente de uma professora, eu andava às voltas com a leitura dos contos de Edgar Allan Poe.

A narrativa ingênua do romance de Eleanor H. Porter em contraste com a narrativa fantástica do autor de O Gato preto promovia na minha cabeça de criança o contraponto possível entre os extremos do horror e da esperança. Ninguém vigiava as minhas escolhas de leitura, de modo que eu ia escolhendo livremente, e às vezes escondendo, os meus prediletos. As primeiras conexões vieram dos livros didáticos.

Antes do começo de cada período letivo, não havia alegria maior do que ler de cabo a rabo os livros de português novíssimos, forrados com plástico. Nem era tanto pelo que eles traziam de exercícios didáticos, mas pelos exemplos que ofereciam: pequenos trechos de romances, contos e poemas pinçados na inteireza de outros universos. Eu orbitava em torno de planetas inexplorados, dos quais só enxergava uma parte.

Guardo comigo a sensação de ler assim, aos pedaços, Malba Tahan, Fernando Sabino, Cassiano Ricardo, Guimarães Rosa, Clarice Lispector. Se vacilar, ainda sei de cor os poemas O Pardalzinho, de Manuel Bandeira, e A Arte de Ser Feliz, de Cecília Meireles. Os livros didáticos me levaram a todos os outros textos, feliz por encontrar aqueles que não cairiam nos testes e nem fariam passar de ano.

Fonte: Correio