Raiana Farias, a Rainha do Baratino (Foto: Reprodução)

Seria bom se os discursos fossem analisados e colocados em pauta sem a utilização das lentes do preconceito e da discriminação, do pecado, do certo ou errado, e simplesmente assistíssemos e analisássemos se a mulher, a menina fosse sua amiga de trabalho, sua vizinha, se fossem pessoas que conversamos e gostamos. Tenho certeza que muitas pessoas têm amigas que gostam de dançar como Raiana, seja funk, pagode, quebradeira, paredão.

Quem é Raiana Farias? De onde ela vem? É uma mulher negra, periférica, chefe de família, mãe solo. Em casa, com amigas e primas, elas estavam em quatro e resolveram brincar de dançar. Brincar, como eu fiz na live do Ilê Aiyê e incomodei tantos vizinhos. Dancei e gritei todas as músicas e fui feliz como Raiana estava naquela hora, porque mulheres que se sustentam, se amam e vivem sozinhas dispensam a presença masculina para atrelarem a sua felicidade. Até porque o “parceiro”, peguete que prometeu ir vê-la, não apareceu.

Foram tantas as falas recorrentes, de maioria masculina, nas postagens sobre a matéria, e mesmo algumas mulheres, em que falaram: “Vá estudar, falta educação”. O que estudar tem a ver com gostar de dançar? Só se a pessoa estiver pleiteando a Escola de Dança da UFBA, a Funceb. Fora isso, para dançar você só precisa ter vontade e ser feliz com os seus movimentos. É um pensamento perverso esse que atribui quem estuda a não dançar, não ter pé de dança, não gostar de dançar. Em contrapartida, quem dança é ignorante, burra/o, sem estudos.

O que falta em algumas pessoas é sensibilidade e empatia. E, no nosso país, falta é emprego. Raiana conta na reportagem que está desempregada, mora na casa dos pais e deixa a casa e a comida pronta para quando eles chegarem. Ela cuida dos filhos, o que ela mais gosta e quer é dar às suas crias uma vida boa. Raiana estava em casa porque cuidava das crianças. Onde está a traição, o pecado?

O pecado e a traição estão na cabeça de quem enxerga traição e pecado em tudo. Esse pecado tão cristão que pune e joga no fogo. Pecado em que se solicita a Jesus que queime. Será que Jesus enxerga a dança como pecado?

Estranho, pois Jesus acolheu a todos e até mesmo uma prostituta (o que não é o caso aqui), então imagine como acolheria a uma mãe solo, que cuida da casa dos pais, desempregada devido a pandemia e vai dançar na porta de casa para desanuviar o desemprego, as mortes no estado, no país, no mundo e acordar na segunda-feira para começar tudo de novo? Cuidar das crianças e da casa, dos interesses do pai e da mãe. Só lamento!

Logo temos as falas sobre feminismos. Ah, o feminismo não prega isso. Ah, o feminismo não prega aquilo. Prega o quê? Feminismo fala de igualdades e se muitas/os não querem entender igualdade, sentimos muito.

Igualdade de direitos quer dizer que Raiana tem o direito de fazer o que quer, de dançar, de usar o corpo, como ela bem quer e entende. Tem todo o direito de não querer dizer para quem ela ligou ou está ligando, o que ela está fazendo no momento e isso não tem a ver com traição e, sim, com o direito dela de não desejar dar satisfações, tem o direito assegurado de ir e vir, se sustentar e até usar seu dinheiro como quer e entende. PONTO. 

Igualdade de direitos quer dizer que nós, mulheres, temos o direito de fazer aquilo que queremos. Assim como os homens também têm e se utilizam deste direito, nós estamos começando a utilizá-lo agora, isso porque até pouco tempo não tínhamos direito a voto, carteira assinada, e para sair de casa só se fossemos autorizadas pelo marido, entre tantos outros que me falha a memória agora.

Novamente… Só lamentooo! Estou com Raiana e com todas as meninas, mulheres que, a exemplo de Ray, só querem ser felizes, se divertirem e terem seus direitos garantidos, viver numa sociedade mais igualitária e menos punitiva. Raiana é jovem, é mãe solo e ainda tem tanta coisa para viver, para dançar e ser feliz.

Atire a primeira pedra quem nunca disse que estava em casa e ainda estava na rua ou bebericando uma cerveja com brothers e sisters em algum barzinho ou até negou aonde estava para a mamãe ou para o papai e isso não foi traição ou pecado. Você só não queria deixá-la/o preocupada/o. Entendo. Se é pecado, traição não sei, só sei que nossas mães e pais já levaram tanto, tanto baratino….

Este foi o Julho das Pretas e Raiana precisa é de emprego para continuar cuidando das crianças e ajudar em casa, e não das críticas destrutivas e cheias de falso moralismo que em nada auxiliam na sua necessidade básica: ter mobilidade social para criar suas crianças.

*Iraildes Andrade é bacharela em Estudos de Gênero e Diversidade pelo NEIM/UFBA e coordenadora geral do Coletivo de Entidades Negras (CEN)

Fonte: Correio